Siga-nos

Perfil

Expresso

Web Summit

Christopher Wylie sobre a Cambridge Analytica. “O Facebook sabia desde o início e não fez nada”

JOSÉ SENA GOULÃO / Lusa

O homem que desvendou a utilização abusiva de dados dos utilizadores do Facebook pela consultora de análise de dados lamenta o “falhanço institucional” e o facto de ainda ninguém ter sido verdadeiramente responsabilizado. “Vamos permitir que as empresas tecnológicas colonizem as nossas sociedades?”, questiona a plateia

Compara o Facebook a "colonizadores que estão cá para explorar recursos". "Esta é uma história de colonização. O Facebook é isso e os nossos governos e sociedades não estão preparados para lidar com isso", acrescenta.

E questiona a plateia: "Divinizamos as empresas tecnológicas. Vamos permitir que estas empresas colonizem as nossas sociedades?"

Isto porque, segundo afirmou várias vezes Christopher Wylie esta terça-feira durante a Web Summit, "o Facebook autorizou" a utilização dos dados. "As apps que a Cambridge Analytica criou entraram no processo de aprovação do Facebook. O Facebook sabia desde o início e não fez nada sobre isso."

Foi num discurso muito emotivo, entrecortado pelos aplausos estrondosos da plateia da Altice Arena, que o canadiano que liderou a equipa de investigação da Cambridge Analytica (que utilizou os dados do Facebook ao serviço das eleições norte-americanas, com interferência da Rússia), e que a denunciou aos jornais "Guardian" e "New York Times", lamentou o falhanço das instituições. E o facto de ainda ninguém ter sido verdadeiramente responsabilizado.

"A minha viagem como delator passou por perceber o falhanço institucional. Até agora ninguém foi responsabilizado", diz, contando que quando denunciou o caso à polícia e às autoridades do Reino Unido e dos Estados Unidos "a primeira coisa que estes fizeram foi tentar processar os jornais". "E enviaram-me uma carta a dizer que eu é que sou o criminoso!"

Um aviso a todos: "Pensem no futuro!"

Num exercício de futurismo, Christopher Wylie explica o risco da complacência dos cidadãos com a utilização dos seus dados.

"Vamos olhar para o futuro: os nossos dados são captados na internet, com a Alexa e a Siri temos inteligência artificial nas nossas casas... O que acontece quando a tua casa começar a pensar sobre ti? Quando estiver conetada com o carro, as estradas, etc.? Quando começarem a tomar decisões por ti, sobre o que podes ou não ver? Quando o teu ambiente toma as decisões por ti?"

E continua o seu discurso num tom alarmista, defendendo que o significado de ser humano será totalmente alterado num "ambiente em que tecnologia pensa por nós e toma decisões por nós". "Pensem no futuro, pensem mais à frente: é assustador!", remata.

É também por isso que se torna cada vez mais importante a regulação da utilização dos dados. "Sentem-se seguros quando andam de avião ou quando vão ao médico? Sim, porque existe regulação", responde. Para depois acrescentar: "Estamos a mexer com a vida das pessoas, precisamos de regras. De outra forma estamos a brincar com o fogo e as pessoas magoam-se."

"Os data scientists ou engenheiros são os únicos profissionais que não têm códigos de conduta", completa. "Isso é absurdo!"

Como tudo começou

Quando Wylie começou a trabalhar no grupo SCL, a Cambridge Analytica ainda não existia. "O meu papel era perceber como utilizar a informação e os dados em prol da defesa nacional (e contra eventos terroristas)", recorda.

Mas houve um dia em que um dos seus clientes, que trabalhava no avião, se sentou ao lado de um homem que acabaria por apresentá-lo a Steve Bannon. O diretor da campanha de Trump "estava à procura de uma forma de encontrar um novo arsenal para a guerra cultural. A política existe a jusante da cultura, por isso se quiseres mudar o que quer que seja muda a cultura", explica. E continua assim: "Ele queria guerra. Na guerra cultural a tua arma é a informação e as ferramentas são os algoritmos- Ele estava a criar a sua própria NSA".

O ex-diretor de investigação da Cambridge Analytica diz que a empresa de análise de dados acabaria por se tornar "algo muito diferente" e ser usada para influenciar as crenças das pessoas. Quando isso aconteceu, explica o canadiano, sentiu que tinha de fazer alguma coisa. "Estive sentado num dos maiores abusos de sempre. Sinto que tenho um dever em relação a isso."