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Um negócio aos quadradinhos

Há quem não dispense o prazer das palavras cruzadas de um jornal ou de uma revista, mesmo com tantos outros jogos e distrações à mão. A magia deste passatempo perdura há 100 anos.

Catarina Rodrigues, Carlos Paes e Nuno Fox

Um pequeno jogo para Arthur Wynne, uma grande ocupação para a humanidade. Quando o jornalista Arthur Wynne elaborou um jogo de descoberta de palavras para o jornal "New York World", estava a abrir um interminável clube de fãs que continua a receber adeptos.

O dia 21 de dezembro de 1913 marca a publicação do primeiro problema de palavras cruzadas. Daí em diante e durante a década de 1920, outros jornais americanos e ingleses replicaram o êxito, que logo se difundiu pela Europa.

As palavras cruzadas foram, em tempos, vistas como uma arma. Em 1925, o governo da Hungria determinou que o passatempo deveria ser submetido à censura antes da publicação, pois poderia estar a ser usado para divulgar ideias contrárias às do regime.

Durante a II Guerra Mundial, as forças armadas britânicas recrutaram especialistas em palavras cruzadas para tentar decifrar códigos secretos usados pelos alemães. Hitler aproveitou o gosto dos ingleses por este jogo e deixou cair sobre Londres folhetos com palavras cruzadas que continham propaganda ao regime alemão.

Até para fazer pedidos de casamento já foi requisitada a invenção de Arthur Wynne. O americano Neil Nathanson pediu a namorada Leslie em casamento, publicando no "San Francisco Examiner" um problema cuja chave era "will you marry me?" (casas comigo?). "Disse logo que sim e nem acabámos de resolver o problema", contou Leslie.

O entusiasmo por esta invenção espalhou-se por todo o mundo, sem escolher um público específico: Bill Clinton é um fã assumido. Para uns é uma forma de passar o tempo no consultório médico, para outros é um vício, e há até quem faça das palavras cruzadas profissão.

Viver do cruzadismo

Se o leitor costuma resolver palavras cruzadas, é provável que algumas tenham sido feitas por Paulo Freixinho. É no pequeno sótão de sua casa que tem montado o escritório. Uma mesa com dois computadores, papel, caneta e muitos dicionários - porque apesar de montar palavras cruzadas há 23 anos e de produzir cerca de mil problemas por ano, há ainda muitas palavras que lhe escapam.

Para Paulo Freixinho (na imagem acima), as palavras cruzadas são uma paixão. E dão para fazer tudo: para além de dois blogues, páginas de Facebook e um livro, tem vários quadros pintados com palavras cruzadas, T-shirts, marcadores de livros, um relógio e até ofereceu um colar à mulher com os célebres quadradinhos. "Maluco como eu por isto não podem ser todos", brinca.

Começou com 14 anos e nunca mais parou. Primeiro, por gosto, juntou-se a um colega e criaram uma revista de passatempos. Depois, surgiu a oportunidade de colaborar com uma agência para fazer as palavras cruzadas da maioria dos jornais e revistas nacionais, até hoje. "Era tudo feito com a máquina de escrever, as grelhas eram pintadas a tinta-da-china", conta. Hoje há programas específicos de computador que fazem os problemas, mas Paulo prefere controlar todas as palavras que lhes coloca. Tem, sim, uma base de dados com tudo o que vai criando.

Ao contrário do que se pensa, os jogos de computador e outras distrações não roubam clientela a Paulo Freixinho - até ajudam. "A concorrência é feroz. Mas os mais novos fazem mais do que eu fazia na escola, porque há muito mais sítio onde ir buscar. Tenho um blogue para as crianças (sabe mais que os teus pais), elas adoram".

Há vários sites na internet para preencher palavras cruzadas online, grátis, com inúmeros temas de objetivo pedagógico. Os próprios sites de jornais e revistas têm palavras cruzadas para preencher pela internet e há também jogos de tabuleiro que adaptaram este jogo, como o Scrabble - criado em 1938, durante a Grande Depressão, por Alfred Mosher Butts. O slogan "Bringing letters and people together with a whole new look!" (juntar as pessoas e as letras) ilustra uma nova roupagem dada a este jogo.

Mas, afinal, qual é o fascínio de resolver palavras cruzadas? Paulo Freixinho responde: "Há dois tipos de pessoas: aquelas que procuram cultura geral e aquelas que procuram vocabulário novo". E o que é uma boa palavra cruzada? "É aquela em que, pelo menos, se aprende uma palavra nova. Que ensina sempre qualquer coisa. Não é só para passar o tempo". A palavra preferida do autor é xurdir - significa fazer pela vida (ver na imagem acima, que mostra o esboço de um problema feito para o Expresso, em pouco mais de um minuto, por Paulo Freixinho).

Um dicionário diferente

Aos 79 anos, Bernardo Matos já tem 67 de prática de cruzadismo. Publicou o primeiro dicionário diferente dos demais em Portugal - um dicionário onde se parte de uma definição para chegar a uma palavra, ao contrário do habitual. O "Dicionário de Cruzadismo" (Edições Atena, Lda. - 1997) é uma ajuda para os momentos de menor inspiração dos cruzadistas. Bernardo prepara-se para lançar o segundo dicionário deste género, com cerca de 20.000 entradas e mais de 150.000 vocábulos.

Mas não se pense que o livro de apoio inclui todo o tipo de palavras: "Um tema que nunca abordaria seria, por exemplo, a pedofilia, ou outros suscetíveis de ferir a sensibilidade dos leitores." Mais do que um divertimento, o veterano jogador defende o papel didático das cruzadas: "Este passatempo é um ótimo elemento de apoio, especialmente no ensino da Sinonímia, da História e da Geografia. O objetivo é fazer pensar".

E o cérebro agradece. Um estudo de 2007 da Universidade de Wake Forest, nos Estados Unidos, provou que resolver palavras cruzadas e outros jogos mentais, como o sudoku, estimula e rejuvenesce a atividade cerebral, em particular dos idosos. Foram avaliadas 23 pessoas, entre os 65 e os 75 anos, e constatou-se que estes jogos melhoram a concentração e reduzem os estímulos de distração.

Tal como num desporto, as palavras cruzadas são também merecedoras de campeonatos a preceito, um pouco por todo o mundo. O Encontro Brasileiro de Cruzadistas e o Torneio Americano de Palavras Cruzadas são dois exemplos. O segundo acontece todos anos - em 2014, decorre de 7 a 9 de Março. Se for um aficionado, tem todas as informações de preços, programa e alojamento aqui.

Mais do que um simples jogo, as palavras cruzadas são um mundo a descobrir. E não têm fim à vista.