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Um médico dedicado à vida e à ética

Esta é a história de um homem fiel e feliz, cultor da bioética e da internet, à qual que se rendeu no outono da vida.

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Faça chuva ou faça sol, todos os dias Daniel Serrão sai de casa logo pela manhã para caminhar uma hora. Esta quinta-feira, foi atropelado numa passadeira e transportado para o Hospital de São João, onde se mantém em estado grave nos Cuidados Intensivos.

Apesar de ter perdido um filho, em 1993, e uma filha, no início do ano, Daniel Serrão, avô de nove netos, sempre se assumiu como um "homem feliz", muito devotado à família, que reúne ritualmente todos os domingos, ao almoço.

Casado há 56 anos com Maria do Rosário de Castro Quaresma Valladares Souto, antiga professora de ginástica que abandonou, sem remorsos, a profissão para cuidar de seis filhos, Daniel Serrão sempre confessou ser "um homem requintadamente feliz".  

"Aceitar o outro na sua diferença e a fidelidade absoluta" são duas das máximas de vida do professor catedrático de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, jubilado em 1998, essenciais "para a confiança e longevidade do casamento".

Natural de Vila Real, Daniel Serrão fez em 1944 o liceu em Aveiro e, em 1951, concluiu o Curso de Medicina, com média de 17 valores. De 1951 a 1953, cumpre o serviço militar obrigatório prestando serviço no Hospital Regional nº 1 do Porto. Dois anos depois, fez o doutoramento com 19 valores e concorre em 1961 a professor extraordinário de Anatomia Patológica, sendo aprovado por unanimidade. Em 1967 foi mobilizado para a guerra colonial em Angola, para onde seguiu acompanhado da mulher. Levaram um dos filhos, deixando os restantes sob a tutela dos padrinhos. Em Luanda, prestou serviço no Hospital Militar como anátomo-patologista.

De regresso ao Porto, concorreu a professor catedrático em 1971, tendo assumido a direção do Serviço Académico e Hospitalar de Anatomia Patológica. Demitido de 1975 a 1976 de todas as suas funções, em "consequência de um saneamento selvagem", conforme se lê na biografia do sua homepage, a decisão viria a ser anulada por decisão do Conselho da Revolução, com direito ao pagamento dos vencimentos dos 12 meses durante os quais foi impedido de exercer funções.

Médico por vocação e incapaz de baixar os braços, montou e dirigiu um laboratório privado de Anatomia Patológica junto à sua casa, no Porto, o qual dirigiu até dezembro de 2002 e onde realizou 1,6 milhões de exames histológicos e citológicos para hospitais públicos e clientes privados.

Daniel Serrão tornou-se conhecido do grande público pelas suas opiniões desassombradas contra a clonagem de embriões humanos, que sempre considera ser um crime científico. Ex-membro do grupo de trabalho do Conselho da Europa para a reprodução assistida e membro da Comissão de peritos da União Europeia e da Academia Pontifícia para a Vida, Daniel Serrão sempre foi um católico convicto e admirador confesso do Papa João Paulo II .

Aberto ao mundo, aderiu sem medo às novas tecnologias, tendo referido em 2010, ao "Diário de Notícias", que a "internet foi a sua salvação" na terceira idade. Daniel Serrão não se conforma que a sociedade atual desperdice o capital precioso de experiência das pessoas mais velhas.  

"A grande riqueza das pessoas é o que elas arquivam da sua experiência de vida. Com a idade, estou mais tolerante. Hoje, à minha volta, sinto tudo mais arredondado", afirmou há quatro anos o pai de Manuel Serrão, o conhecido empresário e comentador desportivo, ferrenho adepto do FC Porto, que não herdou a costela clubística paterna - eterno sportinguista.

Com o filho partilha, contudo, o culto pela cidade Invicta e pelas suas mais típicas instituições. Ambos são membros da Confraria dos Vinhos do Porto e Douro e da Confraria das Tripas à Moda do Porto.