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Os great 'porras' portugueses da África do Sul

Na África do Sul, os portugueses são conhecidos por 'porras'. Numa palavra se resume uma comunidade multifacetada, portuguesa e genuína. Clique para visitar o canal Life & Style

Luís Pedro Cabral (texto) e Jordi Burch/Kameraphoto (fotos)

Zé Travolta, campeão de snooker e rei da noite

Zé Travolta, campeão de snooker e rei da noite

Três e tal da matina. No bar 69, subúrbios de Joanesburgo. Névoa densa. Na pista, que tinha por fundo um cenário tropical, dançava um adolescente que teria uns 30 quilos a mais para a idade, em breakdance, rodopiando como se fosse uma reencarnação de Michael Jackson, versão em branco luso-descendente. É mecânico, disse mais tarde, quando já tinha entornado umas Windhoek, que é a capital da Namíbia e, muito mais importante nesta circunstância, uma cerveja muito apreciada em Joanesburgo.

O Zé apareceu na névoa, como o sebastianismo em pessoa, deixando-se evidenciar, devagar, encostando-se ao balcão, a coisa de 130 graus da plateia, de costas para uma sexy lady com camisola justa de alças. Se for preciso serve as bebidas no varão mas, comenta-se no bar, "she likes the ladies, know what i mean?!" ("ela gosta de senhoras, estás a perceber"). Não interessava. O Zé era irresistível. E ele sabia-o, dentro da sua camisa branca, com golas asa de avião, soltando deliberadamente a pilosidade peitoral que caracteriza um Zé, assim como as calças justas, pente nas traseiras, pinças, peúga branca com raquetas, risco ao meio, pêra aparada. Este não é um Zé qualquer. "O meu nome é Zé Travolta."

É um solitário. A sua perdição são as mulheres. E depois o snooker. O Zé Travolta é um ás com um taco na mão, domina os efeitos, faz tacadas meridionais em direcção aos buracos. "Sou o campeão sul-africano", informa, erguendo uma Macieira. Zé Travolta ajustou as calças à cintura, compôs o cabelo, saboreou a aguardente, cerrando os dentes, quando lhe chegou o calor.

Antes de mais, Zé é Travolta por causa das semelhanças que vêem nele e no astro de Hollywood, no momento "Saturday Night Fever". Embora o Zé esteja desconfiado que tem mais pinta, sendo que se for no snooker está o caldo entornado: "Não lhe dava hipótese nenhuma", garante o Zé, com uma leve ironia que o caracteriza. O Zé Travolta nasceu na Póvoa de Varzim. Casou muito cedo com uma rapariga de lá, que tinha família cá, em Joanesburgo. E assim chegou Zé Travolta a esta cidade. Demorou tempo a encontrar o seu sítio e trabalho na tipografia de "O Século de Joanesburgo".

Os dotes para o snooker, embora já jogasse em Portugal, só os descobriu mais tarde, mais ou menos pela mesma altura que a sua mulher descobriu que o Zé tinha uma amante e frequentava estabelecimentos como o 69. A coisa deu em divórcio. "Passei a ter mais tempo para me dedicar ao snooker." Com tempo, integrou a equipa do União de Joanesburgo, para participar nos campeonatos nacionais da África do Sul, onde há prémios chorudos e a concorrência é fortíssima. "Nunca deixo que os meus adversários percebam que estou nervoso. É a minha marca." Outra, é a unha do mindinho, extralonga, que em competição pode ajudar a tirar o azimute ou qualquer coisa que não faça falta no ouvido. "O snooker não tem segredos para mim", declara com convicção. É desta massa de campeão que é feito o Zé Travolta de Joanesburgo. "É por isso que as mulheres gostam de mim. É a minha maneira de ser, estás a ver?"

Zé Travolta lançou um olhar em redor, predador. A coisa estava fraca. Só havia mecânicos, um lutador de lutas clandestinas com barba de quinze dias, malta portuguesa que estava entretida com as ladies, algumas sul-africanas, outras de Moçambique, um outro casal que chegara junto ou que se formara no calor próprio do 69, que visto dos melhores bairros de Joanesburgo, é sítio não aconselhável. O Zé Travolta está na sua praia. "In the house." E isso basta. As suas entradas costumavam ser ainda melhores, pois fazia-se deslocar com um taco próprio, dentro de uma mala de pele. Tem muitas saudades do seu taco. "Mas tive um acidente com ele e ficou empenado." Mais uma, em tanta coisa empenada na engrenagem desta cidade, onde o Zé passa muitas dificuldades, sobretudo depois de perder o emprego nas profundezas de "O Século de Joanesburgo".

O problema é quando Pedro Carneiro bebe o primeiro...

Pedro Carneiro, na sua oficina, depois de um fim-de-semana na cadeia

Pedro Carneiro, na sua oficina, depois de um fim-de-semana na cadeia

Há pessoas maiores do que a vida. Apesar de só ter coisa de um metro e noventa, Pedro Carneiro é uma dessas pessoas. É o director desportivo do Marítimo FC de Joanesburgo. E, devido a uma chicotada psicológica, por causa dos maus resultados de um técnico libanês, teve de assumir mais uma vez os destinos da equipa com esta embrulhada em maus lençóis classificativos. O Pedro é mecânico de profissão. Era segunda-feira. E o telemóvel do Pedro esteve desligado todo o fim-de-semana. A mulher já está mais do que habituada. O filho está na adolescência e anda mais interessado em ter as sobrancelhas como as do Cristiano Ronaldo.

Na verdade, Pedro não estava nos seus melhores dias. Tinha passado as últimas 48 horas com as costas pregadas ao canto de uma cela. "É o sítio mais seguro para se estar numa prisão sul-africana", explicou. "Paguei dez rands a um guarda para ligar à minha mulher, mas ela não atendeu. Se calhar, não conheceu o número. Deve estar fula comigo, pá! Mas eu hoje quando chegar vou arranjar a porta." Devia ter sido no sábado, mas no sábado o Pedro resolveu beber uns copos com uns amigos a seguir a um jogo de futebol. "My darling, vou chegar atrasado. Mas não chego tarde", disse à mulher.

Ela já tinha visto este filme. O problema é quando o Pedro bebe o primeiro. Pode levar horas e horas a atingir aquele ponto em que dispara. E geralmente dispara ao volante da Hiace do clube, em direcção a um sítio aberto para o último copo, coisa que o Pedro sabe ser uma verdadeira utopia. Nem ele acredita nisso, quanto mais a família.

Mas isso ficava para depois, porque Pedro Carneiro tinha problemas prementes para resolver. Havia um jogo para preparar para o dia seguinte e o guarda-redes andava meio adoentado. E foi então que pensou nisto, em voz alta: "E se eu trocasse o meu jipe Mercedes e o meu barco por um descapotável BMW?" Dito e feito. Em minutos, Pedro estava ao volante de um Z3, preto, estofos m verde.

O Pedro tem azar com a polícia, que geralmente vê a carrinha do clube à porta de um bar e espera por ele. É daquelas pessoas que parece ter escrito na testa: "Experimenta, se queres ver?!" Toda a gente sabe que ele, mesmo que esteja sobre-atestado de digestivos e de cerveja, é rapaz para olhar os problemas de frente e despachá-los para o banco de urgência de um hospital. E, conta, também não está longe o tempo em que os portugueses tinham de se organizar para defender o seu território, lutando nas ruas escuras dos arredores de Joanesburgo. "Eu levava sempre um taco de basebol comigo", recorda com uma certa nostalgia. E, já agora, aproveita para mostrar as cicatrizes de balas, que tem nas costas. "Nunca tive problemas em entrar no Soweto ou onde quisesse." O Pedro está sempre em expediente. Entrar não lhe custa. Mas às vezes custa-lhe sair. Saiu a tempo, desta vez. O Marítimo ganhou, a carrinha está de volta. E o Pedro arranjou a porta. Para o Pedro, já é harmonia quanto baste.

O comendador Joe Quintal

O comendador Joe Quintal, que ouve «Meu Querido Mês de Agosto» no seu Mercedes

O comendador Joe Quintal, que ouve «Meu Querido Mês de Agosto» no seu Mercedes

Em Alberton, a coisa de 40 quilómetros do centro de Joanesburgo, fica a casa do comendador Joe Quintal, que tem um jardim e dois cães e o roupeiro atestado de distinções e condecorações pelos serviços prestados à comunidade portuguesa de Joanesburgo, sobretudo a comunidade madeirense. Foi agraciado por dois presidentes de uma república portuguesa, que vista daqui parece um planeta distante, não fosse o Lusitoland e as cerimónias do 10 de Junho. O senhor comendador trabalha para ganhar a vida numa empresa de importação de vinhos. E juntamente com a mulher tem uma agência de viagens. "Sou José Alfredo Quintal, mas aqui toda a gente me conhece por Joe."

Todos os dias, com excepção dos domingos, levanta-se às seis da manhã. Dentro do seu Mercedes cinzento-claro, com estofos brancos e uma aparelhagem topo-de-gama com o CD preferido do comendador, uma antologia de quase todos os temas do paradigma da diáspora. Não há que esconder as saudades. Não há que ter medo de aumentar o som, para ouvir o 'Meu Lindo Mês de Agosto', "salvo erro, é o Dino Meira". O comendador tinha um dia grande à frente, numa cidade que ele conhece de ginjeira, embora já tenha gostado mais dela. A família de Joe Quintal não foi propriamente pioneira na África do Sul, mas a sua experiência como emigrante já é tão longa que quase se sente imigrante quando viaja para a Madeira, às vezes em afazeres oficiais, outras vezes só para férias.

O trabalho deste comendador não tem fim, pois acumula cargos de fundador e antigo presidente do Marítimo FC de Joanesburgo, assim como na Associação das Federações Portuguesas na África do Sul. É o dirigente associativo mais antigo do país, pertence aos corpos sociais da Casa da Madeira, é conselheiro das comunidades, secretário-geral da Casa da Moeda e ainda elemento preponderante na Academia do Bacalhau, uma instituição cuja importância ninguém ousará questionar.

Mesmo tão cedo, o seu telemóvel não pára de tocar, o que obriga Joe Quintal a interromper a música. Joe reside em África do Sul desde 1960. "Assisti à mudança da bandeira, do hino nacional e da moeda." Sabe o suficiente para afirmar que os portugueses ali sempre estiveram do lado discriminado, fosse durante o apartheid, fosse no seu pós, tão recente. "Os portugueses sempre foram um pouco mal vistos aqui, tanto pelos brancos, como pelos negros. A maior parte é trabalhadora e honesta. Mas há outros que não são. Esses dão mau nome aos portugueses."

Joe é um elo de ligação às comunidades. "Tinha um grande amigo, Frederik de Klerk, antes até de ele ser Presidente, que nos ajudou muito. Quando o actual Presidente, Jacob Zuma, tomou posse, também reuniu connosco para falar do futuro. O que é promissor. Todos nós temos de participar na construção da nova África do Sul." Não é tarefa fácil: "Hoje, o crime aqui é de minuto a minuto."

Quando o Rui vira a pála do boné para trás...

Rui, o dude de Turnfontein

Rui, o dude de Turnfontein

Se o Rui estivesse sentado num bar remoto made in USA, estaria tão bem quanto está no seu bar em Turnfontein, subúrbio profundo de Joanesburgo. É o dude. Está tudo bem para ele, desde que o bar esteja aberto e o uísque à sua frente. Tem as costas curvadas, mas não é propriamente das horas que passa ao balcão ou numa mesa do São Vicente, restaurante-bar-disco, consoante a hora. Se a porta de entrada, ou de saída, não tivesse grades tão grossas como as de uma penitenciária, quase faria parte da paisagem. O Rui já teve vida. E já teve família. Perdeu ambas numa só noite, quando executava umas trajectórias com o seu carro, não conseguindo evitar outro, que vinha ligeiramente fora de mão.

Na juventude, o Rui andava por Cape Town. Mergulhava em apneia, como outros portugueses fazem, em busca do conteúdo mágico das ostras. Foi em Cape Town, terra dos dudes, que este adquiriu a sua alcunha, como uma medalha.

Veio para Joanesburgo há década e meia, correspondendo ao apelo de um amigo 'portuga', que tinha um cargo para si em cima de andaimes, no ramo da construção civil. "Muito me arrependi. No Cabo as coisas são mais tranquilas", diz. "As obras não davam para mim. Meti-me aí nuns negócios com malta da pesada, entendes?" Fosse como fosse, os negócios deram para ter uma casa. E deu para comprar um bom carro, que ficou destruído na noite em que ele ficou ferido e os outros mortos - o irmão, a mulher, e a pessoa que conduzia o outro carro. Foi o pior mergulho de sempre, no seu inferno pessoal, do qual resultou um problema irreversível na sua coluna vertebral. É por isso que tem corcunda. É por isso que é o primeiro a chegar e o último a sair do São Vicente.

Na casa, já sabem: "Quando o Rui vira a pala do boné para trás, é porque chegou a sua conta, não é Rui?" O Rui levanta o seu copo para brindar a isso. Não é de rancores, quase nada lhe diz alguma coisa e ele não se importa com isso. "Tudo bem", diz o Rui. O dude. Sorri sempre que está triste. Está sempre a sorrir.

O desporto favorito de Adolfo é o "fugilismo"

Adolfo Rogério, cuja garagem é como um santuário

Adolfo Rogério, cuja garagem é como um santuário

Se houver problema, o Adolfo avisa desde logo: "O meu desporto favorito é o 'fugilismo', estás a perceber?" O Adolfo tem uma barriga king size e um sorriso do mesmo tamanho. Adolfo Rogério trabalha numa empresa em Joanesburgo que disponibiliza trabalhadores para obras, não só na África do Sul, mas também em Moçambique, onde repousa o seu coração e as suas melhores recordações. O Adolfo é doente pelo Benfica, tem mais camisolas que um jogador, bonés, galhardetes, porta-chaves e canetas, que é um assunto delicado. Se tiver águia, o Adolfo tem. A garagem da sua vivenda, nos arredores de Joanesburgo, é o seu santuário.

O Adolfo gosta de fechar-se na garagem, ligar o seu LCD topo-de-gama, pôr os filmes do Cristiano Ronaldo, os discursos de Jorge Jesus, que ali é Deus, pôr a música altíssima, beber umas quantas cervejas para ambientar todo este processo de felicidade. É o seu pequeno paraíso, onde cabem dois carros, três se for preciso. O Adolfo tem uma fotografia emoldurada do seu Golf antigo, que na versão sul-africana é 'chico', que é o carro ideal para um português esperto, que sabe como alterar um carro para atingir o dobro da sua velocidade máxima, alterar o carburador, colocar jantes de liga leve, o turbo e a ponteira de escape, já para não falar dos backets de competição de uma aparelhagem poderosa, colocada na mala do carro, com as colunas entre um símbolo reluzente do glorioso. "Lindo, não é?!" Adolfo, do melhor. O que é aquilo ali atrás? "É a minha arma. Queres experimentar?" Onde, Adolfo? "Aqui na garagem, pá." Adolfo não se conteve, soltando uma das suas gargalhadas, que havia de ecoar no tecto da garagem, mesmo ao pé da sua colecção de bandeiras.

O que mais se destacava não era isso. Bastava olhar em redor das paredes. Adolfo é coleccionador compulsivo de canetas. A sua mulher já tentou contá-las todas, mas na verdade não passa assim tanto tempo na garagem. São milhares e milhares. São décadas de recolha de canetas, cada uma com a sua história, que Adolfo sabe de cor. Não há caneta que defina a dor de perder o seu carro.

Custou algum tempo até o Adolfo perceber que o seu 'adolfo-car' já não existia, porque ele o tinha estampado a coisa de 100 metros da sua casa, numa travagem infeliz, porque pensou que tinha visto um cão. Muito estranho, comenta: "Eram travões de competição." A dor acabou por ser ultrapassada por um valente Toyota Celica, vermelho-sangue, que Adolfo tratou como um bebé a precisar de cilindrada, colocando um autocolante da Ferrari junto a cada uma das portas.

Enfim, a vida não é fácil, mas também não é difícil. É assim que se vive em Joanesburgo, capital dos great 'porras'. Estão por toda a parte, a cada esquina, onde houver um negócio, em qualquer sítio, num bar, numa casa de família, num BMW. Por toda a imensa circunferência de Joanesburgo há 'porras', não muito great em muitas 'porras', mas, porra, great em algumas.

(Texto original publicado na Revista Única  da edição do Expresso de 05 de Junho de 2010)