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O papa-medalhas que veio do espaço

O atleta português mais medalhado de sempre, Francisco Vicente, regressou dos campeonatos europeus de veteranos, na Turquia, com novas lembranças ao pescoço. Três de ouro e duas de prata para juntar à coleção. Tem 81 medalhas, uma por cada ano de vida.

Ricardo Marques (texto), Tiago Miranda (foto), Joana Beleza (vídeo) e João Roberto (infografia)

Francisco acorda todos os dias às seis e meia da manhã ou um pouco antes porque o despertador que tem ao lado da cama e que leva sempre consigo quando viaja faz um clique estranho e ele até já tentou consertá-lo mas depois desistiu porque até funciona e o tira da cama sempre à mesma hora para encontrar pronta a mesa onde tem pão com manteiga ainda que por vezes o coma com doce de tomate e leite com café para logo a seguir sair de casa e subir os 25 degraus que o levam até à estrada e ao seu Fiat Punto verde que arranca a toda a velocidade pelas curvas apertadas que descem o monte onde os franceses foram travados no dia 14 de outubro de 1810 ao contrário de Francisco porque ele não trava nas seis rotundas que atravessa para chegar ao enorme parque verde rasgado por caminhos de terra batida. E só passaram vinte minutos. O treino ainda nem começou.

Há sinais que não devem ser ignorados. Como ouvir alguém dizer que se oferece para ir "ver se apanha" um homem de 81 anos num jardim. Se o jardim for em Torres Vedras e o homem se chamar Francisco Vicente, apanhá-lo é tudo menos fácil. Na terça-feira de manhã, um dia depois de regressar da Turquia, o mais medalhado dos corredores tinha combinado estar às nove horas junto ao ringue do Parque da Cidade. "Apareçam lá para ver o treino". Mas eram nove horas e Francisco não estava. Nem ali nem em lado nenhum. Alexandre Elias, um amigo, o tal que se oferecera para ir procurá-lo, tinha regressado sem novidades. Foi então que se ouviu o som do ouro a bater na prata e surgiu o homem de cabelo branco, calças e camisa, com cinco medalhas na mão. "Eh pá, já acabei o treino. É preciso ir equipar-me outra vez? Está bem, está bem, vamos a isso".

Francisco Vicente, 81 anos e 81 medalhas, fala tão depressa como corre. Podia ter mil e uma razões para correr, mas jura que só corre porque não tem mais nada para fazer. O que não é necessariamente verdade, porque além de correr também faz figas e recolhe tampas de plástico que entrega a um amigo que, por sua vez, as entrega a uma associação de solidariedade. Mas já lá vamos.

"Comecei a correr com 52 anos, em Famões, Odivelas. Havia lá três gajos que não me conheciam, já estavam a fazer contas a ver quem ficava em que lugar. Eram 14 quilómetros, ir e vir pelo mesmo sítio, e quando nos cruzámos, os dois que iam ficar em segundo e terceiro brincaram comigo a dizer que eu ia à-vontade. Mas eu já vinha de regresso. Quando acabou, estavam lá a um canto e um dos diretores vem ter comigo a avisar-me que estavam a dizer que eu tinha feito batota. Ninguém me conhecia. Eu fui lá e disse: "Se têm dúvidas, vamos já fazê-la outra vez. Ficaram a conhecer-me"

Chama-se, então, Francisco Vicente. Nasceu a 4 de fevereiro de 1933, no mesmo dia em que Adolf Hitler conseguiu aprovar uma lei que proibia as publicações consideradas um perigo para a ordem pública. Hoje guarda todos os recortes de jornal em que aparece e também as fichas das corridas que fez numa pequena sala, que já foi quarto, onde arruma também dezenas de troféus e três pesadas caixas cheias de medalhas. É o seu museu.

"Na Noruega, aos 59 anos, ganhei a maratona com 11 minutos de avanço para o segundo classificado. No Japão ganhei quatro medalhas de ouro e deixei o americano a 11 minutos, nos 10 mil dei uma volta de avanço ao segundo. As cópias dos resultados custam cinco cêntimos ou lá o que é e compro aquilo tudo. Em Porto Rico dei duas voltas e meia de avanço a um alemão chamado Leo. É um quilómetro. Está lá tudo".

A rotina de Francisco Vicente não tem grandes segredos. Acorda cedo, nunca depois das sete, come pão com manteiga e café com leite, entra no carro, conduz até ao café e lê o jornal desportivo. Depois vai correr. "Depois treino. A seguir vou buscar o pão, porque a mulher vê mal. Tenho de fazer tudo: varrer a casa, tudo. Ao almoço é sempre batatas com bacalhau - é bem bom. Todos os dias. Chego a casa e tenho uma posta de bacalhau num alguidarzinho. Não gosto de descascar as batatas, ficam mais saborosas". Queima-se a tirar-lhes a casca à mão, todos os dias, mas diz que sabem bem melhor. "Acabo de almoçar e venho outra vez para baixo, beber a bica e ler jornal do dia. Às duas e meia ou três da tarde, vou ver televisão até às nove e vou dormir, todos os dias".

Na manhã seguinte acorda e vai correr outra vez. Nunca menos do que cinco quilómetros por dia. "E agora é pouco". Ainda assim, é suficiente para fazer uma conta simples e cujo resultado peca por defeito: 29 anos a correr cinco quilómetros dia dá algo perto dos 58 mil quilómetros - ou seja, o equivalente a dar quatro voltas ao mundo a caminhar por cima da linha do Equador. "Já corri os cinco continentes, é verdade. Sempre mais o meu amigo Fortunato, gerente dos colchões Bom Repouso". E volta sempre com medalhas.

O decano do atletismo português leva sempre o despertador na mala. "Quando vou sozinho, o Chagas paga-me um quarto, individual, porque eu sou muito esquisito e se apanho alguém a ressonar estou arrumado". (O Chagas é uma empresa metalúrgica de Torres Vedras que patrocina Francisco Vicente, ajudando-o com as viagens e o equipamento).

"Uma vez fui ao Japão e apanhei um tipo chamado Fuller, um lançador de peso - tem de ser um tipo forte, não sou eu que atiro aquilo, mas já fiz no decatlo e o peso ia caindo nos meus pés, é mentira, atirei três ou quatro metros -, no Japão os quartos eram feitos de papelão e ele ressonava muito. "Ó Fuller, o pá vira-te para o lado, assim não me deixas dormir" e sabe o que é que tive de fazer? Oito ou nove noites, levava o colchão para a casa de banho, arrumava-o e metia-me lá. Ainda dei umas cabeçadas, mas quando ele queria urinar tinha de descer nove andares. E eu disse que ele ressonava num programa de televisão e alguém lhe foi contar. Ele agora não tem ido lá, parece que não tem dinheiro..."

O atleta que chama "filhos" aos rapazes da categoria de 60 anos acredita que está outra vez na melhor fase da carreira. "Agora é bom. Estou no escalão dos 80 aos 85 anos e sou dos mais novos. Quando chegar aos 84 fica mais difícil, mas ganho sempre medalha. Não dou hipótese. Agora na Turquia fiz as cinco provas para conseguir chegar às 81 medalhas. Se não fosse por isso tinha feito só quatro". Francisco Vicente ganhou ouro nos 200 metros barreiras, nos 200 metros obstáculos e nos 800 metros. E trouxe a medalha de prata nos 1500 metros e nos 5000 metros. "Ganhou-as um gajo russo, que também ganhou a maratona", diz, com um sorriso. Mas não parece muito contente sentado na relva do parque em Torres Vedras.

Ficou pior minutos depois quando, terminado o segundo treino da manhã, não conseguiu entrar no balneário para mudar de roupa. Arriscou passar por baixo da rede, mas o melhor que conseguiu foi um arranhão no braço. Ligou o carro e foi para casa chateado e com o equipamento vestido. "Espera lá...", começou, mal abriu a porta e viu a mulher. "As medalhas...Ai as medalhas...Deixei-as no canteiro, por baixo de uma flor". Alexandre Elias, o vizinho que o tinha procurado no parque, ofereceu-se outra vez, agora para ir procurar as medalhas. E Francisco Vicente esperou numa sala cheia de medalhas que o telefone tocasse com notícias sobre as ditas cujas. "Esta agora...". O telefonema lá chegou, a anunciar que as desaparecidas chegariam a seguir.

Mais descansado, Francisco correu para o quintal. É lá que estão as tampinhas, dentro de um saco. "Andei a apanhar lá na Turquia. Às tantas, já os outros me traziam tampinhas. Agora vou levá-las ao meu amigo Fortunato, que depois as entrega a uma associação". Ao lado estão as canas com que constrói as barreiras para treinar. "A mais pequena é fácil, até de costas. Só tem 68 centímetros de altura. Isso é a brincar." A mais alta, a de obstáculos, tem 76 centímetros e é mais difícil. "Se a gente tropeça... Aquilo está fixo na pista".

Ao lado das tampas e das canas está uma fisga. Há mais dentro de casa. "Gosto de atirar. Ando sempre com duas no carro. Estas são boas, não é como essas que se compram aí. Você puxa o elástico e é certinho", garante.

Não é tanto uma questão de precisão. É acima de tudo uma questão de velocidade. E disso, Francisco Vicente, que fala e corre depressa, percebe como poucos. Ele que não pensa desistir tão cedo. Talvez aos 100 ou um pouco mais tarde. Como se corresse para fugir da morte.