Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Nilton: "Não bebo café, não fumo, não me drogo. Sou um totó"

Nilton comemora dez anos a fazer stand-up comedy. Conheça este comediante de óculos azuis que já foi disco jóquei e decorador de interiores

Natália Pinto (www.expresso.pt)

Disse Pablo Neruda que "morre lentamente quem não troca o certo pelo incerto em busca de um sonho". Fã desta deixa, Nilton (apenas Nilton, não revela o apelido) é um self-made man que acaba de comemorar uma década de carreira a fazer stand-up comedy.

Nilton fotografado junto à ponte Vasco da Gama, em Lisboa

Nilton fotografado junto à ponte Vasco da Gama, em Lisboa

Fotografia Jorge Simão

Onde é que nasceu? Em Nova Lisboa, Angola. Em 1976 vim para Portugal, tinha quatro anos. Passei a infância e adolescência em Proença-a-Nova. Quando tinha 17 anos li num anúncio no Expresso - isto é verdade! - que precisavam de um disco-jóquei em Albufeira. Fui na minha mota e fiquei com o emprego. Mais tarde, abri uma empresa de decoração de interiores. Mas sempre tive a veia da escrita a chamar por mim, desde miúdo.

Porquê decoração de interiores? Sempre me interessei por arquitetura e sempre gostei de desenhar, mesmo sem nunca ter estudado.

Tem curso universitário? Ou é um self-made man? Não tenho um curso universitário. Gostava de ter tirado, mas a vida tem esse problema, começa-se a trabalhar e vamo-nos envolvendo em demasiadas coisas ao mesmo tempo e não se tem tempo para mais.

Como é que a stand-up comedy surgiu na sua vida? Descobri o que era no início dos anos 90, quando me ofereceram um CD do Robin Williams a fazer stand-up na Metropolitan Opera House, em Nova Iorque. Fiquei fascinado: uma pessoa sozinha num palco durante duas horas. Só ali a falar. Foi aí que decidi que queria fazer stand-up.

O conceito não era conhecido em Portugal? Não. Vinha a Lisboa entregar os meus vídeos, no Bairro Alto, e diziam-me, "Vem contar anedotas? Mas você é tolo?", e eu lá explicava que não eram anedotas, era stand-up comedy, é outra coisa... Só comecei a atuar em 1997. A Câmara de Portimão deu-me um espaço onde comecei a fazer stand-up uma vez por ano, na brincadeira, e essa tradição ainda se mantém. Em 2000, mudei-me para Lisboa. Entreguei a minha gravação no Teatro A Barraca, eles gostaram e decidiram apostar em mim. Ganhava 100 euros por noite.

"Fui pioneiro na stand-up comedy em Portugal" 

Como é que conseguiu fazer disso uma profissão? Um dia, um senhor chamado Júlio César foi com o Raul Solnado ver o meu espetáculo. Acharam-me engraçado e levaram-me para o Casino Estoril, onde me pagavam por noite aquilo que eu pensava que me iam pagar por mês... Foi há dez anos, eu tinha 28 anos e estava a ver que me ia sentir frustrado para o resto da vida por não ter apostado naquilo que queria fazer. Fui pioneiro no conceito de stand-up em Portugal. Lancei o meu primeiro DVD em 2002 - só há dois DVD de stand-up em Portugal e são os dois meus.

Para si, a escrita e a comédia andam de mão dada? Sim, sempre. Desde miúdo que gosto de escrever. Até coisas sérias, como poesia, embora nunca a deixasse vir à tona com o nome Nilton. Sempre quis escrever e fazer stand-up, mas em Portugal não era conhecido e a ainda não havia os youtubes. Vivi frustrado uma data de anos por não conseguir divulgar o meu trabalho. Na altura, a comédia era dominada pelo Herman e, mais tarde, pelas Produções Fictícias. Não havia esta tradição de uma pessoa sozinha fazer o seu próprio espetáculo.

Está a comemorar dez anos de carreira... Sim, vivo há dez anos profissionalmente do stand-up. Costumo dizer que sou um stand-up comedian, que faço televisão e rádio quando tem de ser... A minha base de trabalho é o stand-up e as atuações ao vivo. Tenho uma máxima que quero manter: o artista não deve precisar da sua arte para viver. A televisão, a rádio, os livros e os DVD - não faço nada disso por dinheiro.

"Tenho mais fãs em Zurique do que em Almada" 

Tem muitos fãs, mas também há quem não aprecie o seu tipo de humor. O indivíduo que acha que agrada a toda a gente é maluco. Faço as coisas em primeiro lugar para me rir. Não é meu apanágio dizer asneiras, tento não ofender e tenho uma data de regras que são minhas. Não posso agradar a todos, por isso agrado aos que me interessam: tenho uma página de Facebook com 180 mil fãs que às vezes atinge mais de 900 mil visitas por dia.

Está dentro desses números todos... Sim. Por exemplo, descobri que tenho mais fãs em Zurique do que em Almada. Tenho 382 fãs no Canadá.

É viciado em trabalho? Trabalho todos os dias, até ao fim de semana. O meu cérebro está sempre ligado. Estou a apontar piadas enquanto leio ou vejo televisão. Pode-se tornar cansativo porque às vezes gostaria de desligar.

É difícil ser seu amigo? Não, sou bom amigo. Sou brincalhão e gosto de pregar partidas, mas tenho muito cuidado em não ofender as pessoas. Mas sou um amigo ausente, trabalho 90% do meu tempo e acabo por não estar com os amigos. Mas isso é um preço.

Sempre teve facilidade em atuar em palco? Sim. Sou muito disciplinado: vou muito bem preparado para o palco, tenho as ideias e os textos decorados, por isso nunca fico nervoso. O palco é uma luta de boxe. Tens três segundos em que estás sem levar chapadas do adversário. Três segundos enquanto eles batem palmas. Tens que arrancar logo a seguir. Não há deixas, não há contracena. Estás ali sozinho: és só tu, o micro e a plateia.

"Só durmo quatro horas por noite" 

Investe num tipo de humor arriscado. Não gosto do óbvio. O cliché, o sexo, os homens e as mulheres... detesto isso. O humor são equações. Numa equação, há a soma de dois números que dá um resultado final, o humor também é isso: uma soma de uma set up com uma punch line. O humor não deve ser dado de bandeja e eu gosto de dificultar sempre essa equação: quanto mais antagónicas forem as conexões entre os dois pontos, maior será a surpresa e melhor será a piada.

É uma pessoa ansiosa? Estou sempre a mil. Sou também distraído. Curiosamente, não bebo café, não tomo drogas, nem fumo, sou um totó. Só durmo quatro horas por noite. É o ideal para mim. Acho até que dormir devia ser opcional.

O que tem planeado para o futuro? Adorava estar em casa só a escrever. Vivia feliz. Mas o maior plano que tenho para a minha vida continua a ser fazer só o que me apetece. Por isso é que eu fujo um bocado da televisão. Já recebi propostas em que me ofereciam muito dinheiro, mas tenho algum medo de vir a ser triturado.

Costuma arriscar muito pelo humor? Sim, já ouvi ameaças de morte e há pessoas que me querem bater. Já me chamaram todos os nomes possíveis e imaginários, a mim e à minha mãe. Mas gosto de arriscar e experimentar coisas diferentes. Podem dar-me um murro - ou uma chapada, como já aconteceu - como podem não fazer nada, ou podem dar-me um tiro. Já entrei num táxi e andei uma hora e meia a dizer ao taxista "Eu amo você" até o homem se fartar e me pôr na rua... Tive de lhe pagar 50 euros.

 "Como é que me inspiro? Sou muito fã do 'tuga' que há em nós..."

Como é que arranja inspiração? Tem cá estado em Portugal, não tem? risos Vou sugando do dia a dia. Observo muito as pessoas. Sou muito fã do "tuga" que há em todos nós, aquele lado do português desenrasca, do português que fica feliz porque se safou sem pagar, embora seja isso que dê cabo do país. O português tem uma coisa fascinante: sabe rir e ri muito, mas não faz autocrítica, critica sempre o vizinho. Por exemplo, quando eu digo que o português diz "gasóil" em vez de gasóleo, o português diz: "Ah, pois é, tenho um vizinho que diz isso!"

O que é que o faz rir? Sou grande fã de Seinfeld, Robin Williams e do Denis Leary. Gosto de piadas corrosivas, que puxem os limites. O humor negro é o que me faz rir mais. Faço sempre uma piada com as piores desgraças.

(Texto original publicado na Revista Única de 19 de Março de 2001)