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"Não se pode confundir uma cirurgia plástica com uma ida ao cabeleireiro"

Ibérico Nogueira é o cirurgião plástico dos famosos. O seu rosto é conhecido das revistas do social. Em quase 30 anos de carreira já operou mais de cinco mil homens e mulheres. Mas, apesar da idade e das rugas, nunca cedeu à tentação do bisturi

Entrevista de Bernardo Mendonça (texto) e Ana Baião (fotos)

Seios é com ele. Especializado em mamaplastia de aumento é o mestre criador de alguns dos bustos de figuras de destaque da moda e da televisão. Enquanto o gravador esteve ligado, recusou revelar a identidade das suas musas do peito. Sigilo profissional. Uma tarde inteira à conversa no escritório da sua clínica, em Campo de Ourique a pretexto da comemoração dos 25 anos de abertura do seu espaço ao público. Sobre a mesa, papéis, canetas, livros e... uma prótese mamária de silicone. "As pessoas gostam de ver o que é uma prótese, de a apalpar e de a conhecer através do tacto". Aos 59 anos, assume todas as rugas que a idade lhe sulcou no rosto. Nunca se sujeitou a nenhum retoque cirúrgico. Por duas razões: tem medo de agulhas e, por enquanto, o seu aspecto não o deixa infeliz.

 

Comentou à entrada que hoje foi um dia intenso para si. Quantas cirurgias fez? Apenas duas. Não costumo ultrapassar essa média diária. Sem vaidade, o que eu faço é comparável ao trabalho de um artista. Quem pensar que pode transformar uma clínica de cirurgia plástica ou estética numa fábrica tem que esquecer esta profissão e dedicar-se ao negócio dos sapatos...

 

Conhece muitas clínicas assim? Conheço aquelas que você conhece e que estão no mercado e que realmente tentam, através de técnicas de marketing agressivas, massificar e mercantilizar este tipo de tratamentos. Não gostaria de me referir a nenhuma clínica em especial...

 

Como quer que as pessoas saibam do que fala se não é mais claro? As pessoas sabem das clínicas que fazem campanhas nas televisões, nas revistas. E eu acho que, essencialmente no campo da cirurgia, não é possível transformar uma clínica numa fábrica sob pena da qualidade se deteriorar imenso.

 

Mas o senhor é frequentemente referido nas revistas sociais por ter operado uma série de figuras públicas, do meio artístico e não só. Isso não é publicidade, transmitida pela boca de muitos famosos? Deixe-me dizer-lhe que descendo de uma família de médicos. Já o meu bisavô era médico, depois o meu avô e o meu pai. Sempre considerei que a ética na minha profissão é muito importante. Jamais seria capaz de utilizar uma figura pública para me promover. Hoje há muitos cirurgiões que operam pacientes gratuitamente e que fazem essas pessoas assinar um contrato para que posteriormente dêem a cara na comunicação social. Jamais seria capaz disso.

 

Ana Maria Lucas e Dina Aguiar foram as mais recentes figuras públicas que apareceram na imprensa a elogiar as cirurgias estéticas que fizeram na sua clínica. (pausa) Não confirmo, nem desminto. Se por algum motivo alguém dá a cara e refere os meus serviços é por mote próprio porque eu faço questão de resguardar a privacidade das minhas clientes. Acho que é o mínimo que um médico-cirurgião com um mínimo de ética deve fazer.

 

Como é que as pessoas podem identificar quem são os profissionais mais sérios, éticos e competentes? Eu diria que hoje em dia o campo da medicina e da cirurgia estética está a ser invadido por uma série de profissionais que nada têm que ver com a medicina propriamente dita. É o caso de nutricionistas, dentistas, esteticistas e até cabeleireiros. De repente, de um momento para o outro, essas pessoas começam a injectar nas pessoas feelers, ácido hialorónico, botox, e até mais grave, fazem uso do silicone. E de repente as complicações começam a aparecer de uma forma crescente e abrupta porque essas pessoas não estão habilitadas para resolver eventuais complicações.

 

Qual a sua opinião acerca dos novos tratamentos de 'lipoaspiração não invasiva' de que tanto se fala? É apenas marketing inteligente. Também eu tive uma máquina de cavitação no meu consultório durante vários meses em que fiz tratamentos a variadíssimas pessoas e o aparelho pura e simplesmente não funcionava. Ou melhor, tinha resultados muito ténues. As pessoas a quem apliquei esses tratamentos não apresentaram melhorias.

 

Acha então que esse é mais um embuste que está no mercado? Os tratamentos que pomposamente têm sido designados por 'lipoaspiração não invasiva' e amplamente promovidos por campanhas de marketing, nada têm que ver com medicina séria. É importante que o público comece a perceber que a maioria destes aparelhos apelidados de 'cavitação' servem apenas para justificar os milhares de euros cobrados pelos tratamentos. O que realmente faz o paciente perder alguns centímetros na cintura ou nas coxas é apenas a dieta que acompanha o tratamento, pois se a dieta não for respeitada não haverá perda nem de um milímetro. Por isso, aconselho as pessoas a experimentarem fazer apenas uma boa dieta pois os seus resultados serão exactamente sobreponíveis àqueles com cavitação e seguramente mais acessíveis.

 

Em quase 30 anos de carreira, já operou mais de 5000 homens e mulheres, mas até hoje nunca se submeteu a nenhuma cirurgia plástica. Porquê? Felizmente nunca tive necessidade de me submeter a nenhum tipo de intervenção desse género.

 

A verdade é que tem rugas, papos nos olhos, um certo ar cansado. Em termos técnicos se calhar melhoraria muito com um facelift, com umas infiltrações, ficaria logo mais jovem. Mas nunca o fiz porque as rugas e a flacidez do meu rosto ainda não me deixaram infeliz ou preocupado.

 

Não gostava de parecer mais novo? Obviamente. Quando as pessoas dizem na imprensa que não se importam de envelhecer estão a fugir à verdade. Mas uma coisa é ser idoso, outra é estar-se envelhecido.

 

Tem medo de se submeter a uma cirurgia plástica? Eu não gosto muito de levar injecções (risos). E acho que, de uma maneira geral, as mulheres são muito mais corajosas do que nós. Se para fazer uma cirurgia plástica fosse apenas preciso usar um programa de photoshop eu, de certeza absoluta, que já me tinha mudado todo. Estaria agora cheio de peitorais... (risos)

 

É o típico caso 'faz o que eu digo, não faças o que eu faço'. Não é adepto da cirurgia plástica? Sabe que, ao contrário do que as estatísticas dizem, o número de homens a fazer plásticas não passa dos 10%.

 

A verdade é que tem à sua disposição todos os instrumentos que lhe poderiam dar um aspecto mais jovem, mais bonito, mais saudável, mais brilhante. Não é tentador? Julgo que a fronteira que pode fazer com que uma pessoa se decida pela cirurgia plástica é um dia olhar-se ao espelho e dizer 'estou com um aspecto completamente decadente'.

 

É preciso uma pessoa ter um aspecto completamente decadente para se sentar na cadeira de um cirurgião plástico? Não. As mulheres preocupam-se muito mais com o seu aspecto e começam a interessar-se por esta área quando surgem os primeiros sinais de envelhecimento. Elas são submetidas a um escrutínio muito maior do que o homens. Existe entre as mulheres uma grande pressão, uma grande rivalidade.

 

Comenta-se que a sua mulher foi submetida a várias cirurgias estéticas. Diz-se mesmo que foi toda esculpida por si. É verdade? Não. É completamente falso dizer-se que ela é uma criação minha. Isso é surrealista. Aliás, toda a gente que conhece a minha mulher sabe que ela é favorecida pelos seus genes. Foi sempre linda. Mas, como todas, preocupa-se com os tratamentos estéticos. Portanto, fez uma coisa ou outra...

 

Que tipo de cirurgias fez? Eu não gosto de falar de pessoas muito chegadas a mim, à minha família. De qualquer maneira, ela nunca necessitou de se submeter a um tratamento muito agressivo ou uma cirurgia complicada. Ela é uma mulher relativamente jovem. Mas não sei se, um dia mais tarde, ela não sentirá necessidade de se rejuvenescer, tratar do perfil corporal...

 

Entretanto acaba de inaugurar uma nova clínica no Algarve. A crise parece não o afectar. A procura continua a aumentar? Sinceramente não fiz nenhum estudo de mercado. Abri aquele espaço porque não queria passar a minha vida entre quatro paredes a operar sem poder assistir aos nossos belíssimos pôr-do-sol. Estarei mais perto da praia.

 

A sua clínica de cirurgia plástica continua a render dinheiro mesmo com a crise instalada? Como qualquer actividade tem as suas oscilações. Mas neste sector, francamente, não se sente muito a crise. E sabe porquê? Julgo que as pessoas aproveitam as crises para cuidarem de si. Para arranjarem um tempo para elas.

 

Tem sido criticado pela Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética que questiona o valor da especialidade que tirou no Brasil. Porquê? A explicação é simples. Em dado momento da minha vida eu tive a sorte e a rara oportunidade de ir para o Brasil com os meus pais. Durante cinco anos fiz a minha especialidade na Clínica Fluminense de Cirurgia Plástica, em Niterói. Uma clínica muito grande e muito conhecida no Brasil, com 15 cirurgiões que trabalharam com o Pitanguy. Regressei a Portugal em 1983 com alguma irreverência e ingenuidade. Instalei-me e comecei a trabalhar sem prestar vassalagem a ninguém.

 

O que quer dizer com vassalagem? Eventualmente teria que me submeter a um exame na Ordem dos Médicos para obter a equiparação do título em Portugal. Ora, eu considero que já fiz os exames todos que tinha que fazer na minha vida. Julgava que o acordo cultural luso-brasileiro que vigorava na época daria equivalência de títulos de curso e especialidade entre os países. Por razões que eu considero corporativas esse acordo não foi respeitado. Continuo a seguir o conselho de um grande mestre de cirurgia plástica: "Preocupe-se com os sucessos e resultados das suas cirurgias e não com títulos ou honrarias".

 

Como avalia a qualidade da cirurgia plástica em Portugal?

Estamos ao nível do melhor que se faz no mundo. Então como é possível que, há dois anos, uma jovem portuguesa de 25 anos tenha morrido de tromboembolia pulmonar, três dias depois de ter sido submetida a uma lipoaspiração? (pausa) Uma situação dessas considero completamente anómala. Habitualmente uma lipoaspiração não dá complicações. Mas, como em todas as cirurgias, podem surgir imprevistos. Só quem não opera é que não os tem. Por exemplo, se o paciente tiver cicatrizes, se houver fragilidade da parede abdominal é fácil a cânula fazer uma lesão nas vísceras. Portanto, os pacientes têm de ser muito bem seleccionados para a intervenção, através de inúmeras análises, e o médico tem que ter formação em cirurgia geral e abdominal. Não há nada que justifique uma cirurgia num paciente com um diagnóstico que contra-indique determinada intervenção...

 

Já passou por alguns sustos? Sim. Felizmente nunca tive uma complicação grave. Os sustos por que passei foram menores. Refiro-me por exemplo a cirurgias em que o processo cicatricial demorou mais a recuperar ou não reagiu da maneira que eu esperava (formação de cicatrizes quelóides). Mas sou sempre muito cauteloso. O meu pai, que era professor catedrático em ginecologia na Universidade de Coimbra, ensinou-me que a vida de um cirurgião é como a de um toureiro: quando sofre uma colhida forte não recupera...

 

Acha que os portugueses que recorrem a uma cirurgia estética estão conscientes dos riscos e imponderáveis que podem ocorrer? Não. Infelizmente este tipo de cirurgia está tão banalizada que é necessário colocar algum tipo de travão a esta loucura e informar a população sobre os riscos. As pessoas não podem confundir uma cirurgia com uma ida ao cabeleireiro. Por isso considero que as pessoas ligadas à Ordem dos Médicos têm a obrigação de constituir fóruns nos media, para informarem a população sobre o alcance e os limites de cada técnica cirúrgica.

 

Costuma alertar os seus pacientes para os riscos que correm sempre que se submetem aos seus tratamentos? Sempre. É fundamental que o paciente saia de uma consulta completamente informado sobre todo o tipo de complicações que se podem desencadear com determinado procedimento cirúrgico.

 

Nas suas consultas costuma usar o photoshop para mostrar aos pacientes como poderão ficar após a operação. Não tem medo de criar falsas expectativas? Há duas maneiras de usar um programa de tratamento de imagem. Uma delas é usada de maneira séria, mostrar ao paciente o que eu julgo ser capaz de fazer, outra coisa é provocar falsas expectativas, e isso é ser desonesto. Não me incluo nesta segunda hipótese.

 Pode-se entrar numa clínica com um abdómen muito saliente e sair com uma barriga lisa, sem marcas visíveis? Não. Impossível!

 

Mas há muita gente a achar o contrário. Sim. E por isso é muito importante que o cirurgião informe o paciente que não há cirurgias sem cicatrizes - porque onde passa o bisturi fica sempre uma cicatriz - e que não podemos fazer milagres. Os pacientes obesos não devem ser submetidos a tratamentos agressivos, nem invasivos. Ou seja, a obesidade não deve ser tratada com lipoaspirações. A lipoaspiração deve ser só efectuada em pacientes que estejam perto do peso ideal.

 

Qual o risco de se efectuar uma lipoaspiração num paciente gordo? É muito alto. Qualquer paciente com qualquer grau de obesidade é sempre um candidato a uma embolia gorda, a um problema vascular, cardíaco, entre outros. Portanto, temos a obrigação de não criar ilusões nas pessoas que nos procuram.

 Já se recusou a operar alguém? Sim. Sempre que o paciente tem uma expectativa irrealista dos resultados. Já chegarem pessoas ao meu consultório com fotografias de artistas de cinema na mão...

São muitas as mulheres que recorrem a si para mamaplastias de aumento, a sua especialidade. A actriz e modelo Cláudia Vieira, por exemplo. (pausa) Se me perguntar se já diversos modelos e actrizes se submeteram na minha clínica a pequenas cirurgias que lhes mudaram completamente a carreira? Respondo-lhe imediatamente que sim. A mamaplastia de aumento continua a ser a cirurgia mais procurada pelas mulheres em todo o mundo.

 

Ainda hoje não se conhece a longevidade de uma prótese mamária no corpo humano, nem os seus efeitos e impacto a longo prazo. O corpo humano trata a prótese como um elemento estranho e então envolve essa prótese com uma película cicatricial que isolará a prótese do organismo. De qualquer maneira se a prótese mamária de silicone apresentar um mau comportamento, se romper, poderá ser removida com facilidade.

 

E como homem, prefere mulheres com seios naturais ou com próteses de silicone? (risos) Hoje em dia é difícil encontrar uma mama que nunca tenha sido operada (gargalhada). Ao longo da vida a mama de uma mulher sofre muitas alterações. E a partir de determinada idade, depois das gravidezes e aleitamento, a mama perde fatalmente a sua graciosidade. E uma prótese pode devolver uma beleza extraordinária e um perfil harmonioso a uma mama. É inegável!

 

Não concorda que muitas mulheres que se submetem a determinados tratamentos para disfarçar rugas acabam por ficar com aspecto de bonecos de cera, sem expressão? Claro que sim. São casos de madamismo em que o plano estético dirigido aos pacientes não foi o correcto. Sou radicalmente contra esse tipo de abordagem do envelhecimento. É normal que as pessoas queiram retardar o seu relógio biológico, mas tem de ser com bom senso. Liftings sobre liftings são opções completamente disparatadas.

 

Qual é a sua opinião sobre os rostos de Manuela Moura Guedes ou de Lili Caneças? Infelizmente já fui considerado o autor das cirurgias a essas senhoras. Confesso que isso me incomoda. Nada tive que ver com nenhum dos casos. E estou à-vontade para dizer que foram casos mal sucedidos nas mãos de outros cirurgiões.

 

Porque diz que essas operações correram mal? Não sei o que se passou. Mas acho que o embelezamento não foi bem conduzido. No caso da Lili, do ponto de vista do rejuvenescimento, foi um sucesso. Pena é que tenha sido usada como troféu de um cirurgião, de festa em festa...

 Acha que a Lili está com um aspecto natural?

Talvez esteja excessivamente rejuvenescida, tendo em atenção a sua idade. Ela foi submetida a um tratamento muito agressivo. Mas para quem quis voltar um bocadinho ao berço, sob o ponto de vista técnico, acho que é um bom resultado. (risos)

 

E o rosto de Manuela Moura Guedes? É um caso de madamismo? Não quero fazer comentários sobre essa situação. Provavelmente existiram ali alguns exageros. É o tipo de resultado que tem o estigma da cirurgia, do acto médico.

 

O tamanho dos seus lábios também é muito comentado. Continua na moda a infiltração nos lábios para os tornar mais carnudos à semelhança de Angelina Jolie? Sim, sim. As pacientes que passam a vida a infiltrar as bocas ficam com resultados horrorosos, monstruosas, com aspectos surrealistas.

 

Como é o caso dos 'novos' lábios da Cinha Jardim? Sim. São um exagero. Ela está com uma boca muito pouco natural. Sou amigo dela e desaconselhei-a a aumentar os lábios, mas ela quis fazê-lo e recorreu às mãos de outro médico. Devia ter ficado com os lábios lindos que tinha.

 

Que protagonista da classe política acha que sairia muito favorecido com uma cirurgia estética? Sem qualquer pretensão, acho que se a doutora Manuela Ferreira Leite se tivesse submetido a um tratamento de rejuvenescimento do pescoço e da face antes das eleições poderia ter conseguido melhores resultados. Aliás isso é uma coisa que está estudada nos EUA. Está provado que uma imagem mais jovial e dinâmica de um político pode influenciar o comportamento dos eleitores.

 

Operava-lhe o nariz? Não. O nariz dá-lhe personalidade.

 

O que é uma cirurgia estética bem sucedida? É por exemplo alguém submeter-se a um facelift e quando chegar ao pé dos amigos ouvir o comentário: Ah! Estás com boa cara. Com ar descansado. Fizeste algumas férias? Estiveste num spa?

Publicado na Revista Única a 29 de maio de 2010