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Morreu Luís Gaspar da Silva

Poeta, diplomata e fundador do Partido Socialista, representou Portugal em capitais como Roma, Paris e Nova Deli. O corpo está na Basílica da Estrela e amanhã há missa de corpo presente às 10h.

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Morreu esta madrugada o embaixador Luís Gaspar da Silva, que ao longo de uma carreira de várias décadas representou Portugal em Paris, Roma ou Nova Deli, entre outros postos. Natural de Coimbra, Gaspar da Silva tinha 85 anos. O jornalista deve ao leitor uma declaração de interesses: éramos amigos.

Luís Gaspar da Silva estudou Direito em Coimbra e foi membro da Direção da Associação Académica de Coimbra. Democrata desde sempre, o ingresso na carreira diplomática - a sua vocação - representou, no seu caso, o desafio de representar o país durante o Estado Novo, ao mesmo tempo que lutava pela mudança que as suas convicções pediam. Em abril de 1973 foi um dos fundadores do Partido Socialista, no qual militou até ao fim da vida.

Homem alto, encorpado e com uma voz que era difícil não ouvir à distância, Luís Gaspar da Silva nunca passou desapercebido, quer como diplomata quer como homem. Na Índia, nos tempos de Indira Gandhi, deixou "um ímpar rasto de respeito", escreveu em tempos Carlos Gaspar, do Instituto Português de Relações Internacionais.

A partir de Nova Deli foi embaixador não-residente em países tão diversos como o Afeganistão, o Sri Lanka e o Nepal. Neste último, contou hoje no seu blogue o também embaixador Francisco Seixas da Costa, a sua apresentação de credenciais foi insólita, pois os conselheiros do então rei nepalês temiam uma "conjugação astral negativa".

Presença imponente e afável

Eram marcantes, para quem o conheceu, as indomáveis sobrancelhas que erguia e movia para reforçar um argumento, o olhar profundo, uma linguagem corporal que podia intimidar ao primeiro contacto, mas só por breves instantes. O sorriso não tardava em aparecer, a gargalhada soltava-se-lhe com prazer só igualável ao que lhe dava uma boa e, da sua parte, sempre entusiástica troca de ideias.

Tolerante e aberto a ideias opostas às suas, poucas coisas o exasperavam mais do que um argumento falacioso ou inconsistente. Amante da dialética, não gostava de deixar uma conversa a meio. Almoçar com ele era um prazer que aconselhava a não prever hora para o fim da refeição.

Em democracia foi secretário de Estado da Cooperação, durante o Governo do Bloco Central (1983-85), sendo primeiro-ministro Mário Soares e o ministro dos Negócios Estrangeiros Jaime Gama. Após o fim desse Executivo, foi condecorado por Ramalho Eanes, então Presidente da República, com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, habitualmente atribuída por méritos no exercício de funções de sobrania.

Poeta e professor

Seguiram-se as embaixadas de Paris (onde já fora cônsul nos anos 1970) e Roma, seu último posto no estrangeiro. Assessor diplomático de Almeida Santos enquanto este presidiu à Assembleia da República, fez parte do Conselho das Antigas Ordens Militares durante a Presidência de Jorge Sampaio e foi membro da Comissão para a Comemoração dos 50 Anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1998.

Professor na Universidade do Minho,  escreveu livros sobre diplomacia e política externa, como "Utopia: seis destinos" (Quatro Margens Editora, 1997) e "Negociação: arte e democracia" (Bizâncio, 2000). A relação de Portugal com os países onde teve presença histórica e onde mora a sua diáspora foi uma das suas paixões. "A cooperação deve ser progressista, quase revolucionária", afirmou.

Homem sensível e amante de sensações, o embaixador era também poeta. Em 1965 publicou "Poemas de mil dedos" (Lisboa Oficina Gráfica), onde se lê: "Quando eu nasci/Trouxe um búzio escondido/Com vozes de geografias sem fim/E um passado e um futuro/Dentro de mim!".

Cidadão interveniente e atento ao país e ao mundo até morrer, tinha na leitura de jornais um hábito diário, que não dispensou enquanto a saúde, mesmo debilitada, lho permitiu - isto é, até dias antes de partir.

O corpo já está na Basílica da Estrela e amanhã há missa de corpo presente às 10h. O funeral segue para Vila Nova de Anços (Coimbra).