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Mais de cem anos depois de morrer, "Bordallo está na moda"

"Colador de cacos", criação do artista plástiico brasileiro Vik Muniz, a partir de Bordallo Pinheiro

DV

Rafael Bordallo Pinheiro é muito mais que o criador do "Zé Povinho". Foi um artista inovador, que deixou marcas na banda desenhada, nas caricaturas, na cerâmica e na imprensa. Alguém que, pelo humor mordaz, não conseguimos lembrar sem esboçar um sorriso. Morreu há 110 anos.

Rafael Bordallo Pinheiro era capaz de achar graça. Uma rã com 1,40 m de altura, objeto de destaque no centro de uma rotunda, é com certeza destino que o artista plástico e caricaturista nunca imaginou para uma peça da sua autoria. Mas o batráquio gigante lá está, nas Caldas da Rainha, para o lembrar, no primeiro ponto de passagem da futura rota bordaliana.

A novidade não está na intenção histórica. Muitos bustos, intervenções artísticas e nomes de rua evocam figuras do passado. A diferença é que a obra de Bordalo Pinheiro vai sendo revisitada, mas sem nunca parecer antiga, e vai continuando a ganhar novos admiradores, apesar de o seu criador ter morrido faz esta sexta-feira 110 anos.

Por obra - lembra João Paulo Cotrim - entenda-se uma herança muito alargada, tão vasta que o seu criador "tem de ser entendido como o precursor do conceito de 'performer'". "Foi na verdade o primeiro dos modernos", diz o jornalista, escritor e editor, um admirador assumido, com um "fascínio" que se estende a Bordallo como personagem.

Rafael Bordallo Pinheiro nasceu numa família de artistas (o pintor Columbano Bordallo Pinheiro era seu irmão) e, apesar de morrer relativamente novo - com 58 anos - teve oportunidade de experimentar muitas áreas. Além da obra gráfica e da cerâmica, fez teatro, foi professor, jornalista, revelando-se em cada domínio um homem à frente do seu tempo. 

O eterno "Zé Povinho", criação de Rafael Bordallo Pinheiro

O eterno "Zé Povinho", criação de Rafael Bordallo Pinheiro

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Absolutamente inovador "Pioneiro", "original", "visionário", em matéria de adjetivos, João Paulo Cotrim só lhe dedica sinónimos desta natureza. "Olhando para a banda desenhada, por exemplo, "ele autofigura-se de uma forma rara e contínua", afirma."Com a particularidade atípica de terconhecido o sucesso em vida e muito cedo".

"Foi um homem cosmopolita, informado e bem relacionado e, desse ponto de vista, há nele a marca da época. Mas há depois um lado absolutamente inovador", seja no olhar, "na forma como representa o movimento", a paixão pela fotografia ou até na forma como encarou a sua fábrica de cerâmicas nas Caldas da Rainha, querendo fazer dela um espaço de ensino", acrescenta Cotrim.

Da frescura que representou (e representa) a sua obra gráfica, dão testemunho dezenas de livros e publicações, onde ilustrações, aguarelas e desenhos vários, mas também caricaturas de estilo muito próprio, revelam a reconhecida genialidade do seu traço.

Homem de imprensa, lançou várias publicações, entre as quais "O Calcanhar de Aquiles", "A Berlinda" e "A Lanterna Mágica", tendo passado pelo Brasil, onde a sua marca ficou em "O Mosquito" e "O Besouro".

O humor constante, a que aliou uma pontaria certeira no que à crítica social diz respeito, explica o "Zé Povinho", sempre atual, como continua a sê-lo, lembra João Paulo Cotrim, a visão da política como "A Grande Porca", naquela que foi a sua última revista, "A Paródia", lançada em 1900. 

Casa-museu junto à Fábrica Bordallo Pinheiro, nas Caldas da Rainha

Casa-museu junto à Fábrica Bordallo Pinheiro, nas Caldas da Rainha

António Pedro Ferreira

Bordallo está na moda No que à cerâmica diz respeito, um novo impulso para a sua contemporaneidade chegou pela mão da Visabeira, quando em 2009 o grupo comprou a Fábrica Bordallo Pinheiro, evitando assim o seu encerramento. Do torpor da falência tantas vezes anunciada, os velhos moldes e fornos foram colocados ao serviço de novos mercados, com a preocupação de o produto se "modernizar respeitando a matriz", como reconhecia em 2010 o diretor de marketing da empresa.

Uma exposição de Bordallo chegou ao MoMa, em Nova Iorque. E o plano de revitalização incluiu até uma piscadela de olhos a vários artistas plásticos, que foram convidados a reinterpretar algumas peças tradicionais (Henrique Cayatte e Joana Vasconcelos, por exemplo), o que foi de alguma forma repetido em 2011, com convite semelhante a ser endereçado a artistas plásticos brasileiros, como Vik Muniz ou Tunga.

"Revelou-se uma muito agradável surpresa", reconhece Elsa Rebelo, directora artística das Faianças Bordallo Pinheiro. "Muitos dos criadores convidados já conheciam e veneravam a sua obra, os outros renderam-se, à medida que foram recebendo a documentação que lhes enviamos. No final, todos os convidados aceitaram pegar numa peça, para lhe dar nova interpretação, e outros nomes nos contactaram mostrando interesse em participar também".

Entre os elogios principais, "falam da força e da atualidade do seu legado", acrescenta Elsa Rebelo, para quem, "sem dúvida, Bordallo está na moda". Fica também na moda sempre que a roda das notícias nos lembra as crises económicas, as peculiaridades do poder ou a importância da liberdade de expressão.

Para quem colocou a satírica mais corrosiva ao serviço da crítica política, como aconteceu a propósito do "Ultimatum" britânico, em 1890, criando escarradores e penicos ironizando a figura de John Bull, símbolo da nação britânica, Bordallo havia de ser também Charlie neste nosso tempo e desfilar algures pela liberdade de imprensa. Se é verdade que os lápis e pincéis são armas, há uma certa casa-museu nas Caldas da Rainha que guarda um arsenal.