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Eles fintaram a morte (1) - Maria João Ruela

Uma levou um tiro numa zona de guerra, outro foi torturado e alvo de fuzilamento simulado, outro sobreviveu à queda de um avião. A morte passou-lhes à frente, mas todos fintaram o destino. Leia as suas histórias. A primeira é a de Maria João Ruela, jornalista da SIC. Clique para visitar o canal Life & Style.

Cândida Santos Silva (www.expresso.pt)

A jornalista mostrando a bala que quase a matou durante uma reportagem no Iraque

A jornalista mostrando a bala que quase a matou durante uma reportagem no Iraque

Ser enviada como repórter de guerra para o Iraque era o cumprimento de um sonho. Maria João Ruela sempre gostou de aventura. Na profissão, a sua maior ambição era ser repórter de guerra. Por isso, quando surgiu a primeira oportunidade não hesitou. O conflito no Iraque estava ao rubro e Maria João queria reportar os acontecimentos. Saiu de Lisboa com oito jornalistas portugueses, na companhia de um destacamento da GNR. Iam enquadrados numa coluna militar. Contudo, quando chegaram ao Kuwait, por onde deveriam entrar em solo iraquiano, o comando inglês estacionado na fronteira impediu-os de seguir viagem. Alugaram três carros, de alta cilindrada, "os que havia no Kuwait" e, sem disfarce, atravessaram a fronteira. Alguns quilómetros depois, já no Iraque e em plena auto-estrada, foram vítimas de uma emboscada. "Eram dois carros potentes, com um iraquiano à janela, de sorriso largo e dentes brancos a mandar-nos encostar, com uma arma apontada. Tentaram bloquear-nos a passagem." Em poucos segundos, Maria João Ruela, o repórter de imagem da SIC Rui do Ó e Carlos Raleiras, jornalista da TSF, decidiram voltar para trás, até encontrar refúgio junto dos militares ingleses.

"Quando viram que estávamos a fugir começaram a disparar." Maria João começou a distribuir os capacetes e os coletes à prova de bala aos colegas. No meio deste processo foi atingida por uma bala. "Parámos e um dos carros que nos perseguia apanhou-nos. Quando me puxaram viram que tinha sido atingida. Um dos homens ainda me disse 'sorry'. Felizmente deixaram comigo o Rui do Ó, senão teria morrido esvaída em sangue no meio da auto-estrada. Levaram o Raleiras, para resgate, e o nosso jipe."

A jornalista da SIC assistia a tudo como se estivesse numa sala de cinema a ver um filme a três dimensões. Porém, era ela a actriz principal. "O que aconteceu foi tão rápido e irreal que era difícil parar para pensar. Nem havia tempo para ter medo. Era pura adrenalina. Uma mistura de emoção, adrenalina, acção e perigo."

Abandonados numa auto-estrada em pleno deserto, lá conseguiram que um carro parasse e os levasse ao posto médico mais próximo. Quando lá chegaram o operador de câmara que a acompanhava aproveitou a boleia dos iraquianos para tentar encontrar uma patrulha, alguém que levasse a jornalista da SIC para o hospital de campanha dos ingleses. "Tive tempo de lhe dar a carteira cheia de dinheiro que levava comigo. Fiquei no posto médico, cheia de dores. Nunca perdi a consciência. Lembro-me de meia dúzia de mulheres ali sentadas a fazerem-me festas na cabeça e a rezarem. Iam fazer-me uma transfusão de sangue quando apareceu o Rui e um soldado inglês que gritava para eu não aceitar aquele sangue. Podia estar contaminado. Levaram-me para o hospital de campanha inglês e fizeram-me uma sucessão de anestesias. Foi aí que entrei numa espécie de viagens loucas, não sabia muito bem se era uma viagem, se estava a morrer."

O seu estado era grave. A bala entrou pela nádega esquerda e depois entrou e saiu várias vezes do seu corpo. Ainda hoje tem as cicatrizes dos cinco furos feitos pelo projéctil. Podia ter ficado numa cadeira de rodas, Na altura, quando os médicos lhe falaram nessa possibilidade, Ruela não se assustou: "Nunca vi a minha incapacidade física como uma coisa para me queixar. Sempre foi mais um desafio. Sou muito competitiva. Gosto de me pôr à prova."

A experiência marcou-a para sempre. Nunca mais pisou cenários de guerra e reconhece que se tornou uma pessoa mais dura. "Se calhar passei a exigir muito dos outros." Talvez esse seja o aspecto mais negativo daquela experiência." "Mas perdi o medo de dizer o que penso. Seja a quem for." De resto, nunca teve pesadelos nem sonhou com aquela fatídica experiência, embora confesse que nunca irá esquecer aquele sorriso branco do iraquiano à janela com a arma apontada. Há barulhos que ainda hoje a incomodam, mas já perdeu o medo de andar de carro. Só ainda não gosta da sensação de andar na estrada e ver um automóvel a ultrapassar o seu e a permanecer durante algum tempo a seu lado. Procura sempre fugir dali.

Hoje, Maria João anda, vai ao ginásio, faz caminhadas, voltou a fazer esqui. Só não corre e ainda não consegue escalar montanhas, um dos seus desportos preferidos. Não sente a perna esquerda do joelho para baixo. Como diz, a sorrir, já não consegue "saltar ao pé-coxinho".

(Texto original publicado na Revista Única da edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010)