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Tudo o que já se sabe sobre a queda do helicóptero que vitimou quatro pessoas

OTÁVIO PASSOS / Lusa

É o acidente aéreo mais grave do ano. Seguiam a bordo dois pilotos, um médico e uma enfermeira, que regressavam a Macedo de Cavaleiros depois de terem transportado uma doente com problemas cardíacos graves. MAI já ordenou abertura de um inquérito

Era um fim de tarde de sábado com chuva e nevoeiro, o que logo à partida dificultava o voo. Mas João Lima, Luís Rosindo, Luís Vega e Daniela Silva – os dois primeiros pilotos, os segundos elementos da equipa médica ao serviço do INEM – tinham sido chamados para uma emergência que envolvia uma mulher com problemas cardíacos graves e puseram-se a caminho. Foi no regresso que o helicóptero em que se deslocaram para assistir a doente se despenhou, em Valongo, Porto, provocando a morte dos quatro, como ficou confirmado durante a madrugada deste domingo.

As notícias começaram a ser avançadas por volta das 21h20: uma aeronave ao serviço do INEM estava desaparecida, de acordo com o alerta dado por um habitante daquela zona. Mas, à medida que as horas passavam, começaram a ser conhecidas novas informações sobre o acidente que acabou por vitimar toda a equipa – e o que falhou num processo que já motivou uma ordem do Ministério da Administração Interna para a abertura de um inquérito.

A equipa deslocou-se num helicóptero que tem base em Macedo de Cavaleiros durante a tarde, para assistir uma doente de 76 anos com problemas cardíacos graves que precisava de ser transportada do Hospital Distrital de Bragança para o Hospital de Santo António, no Porto. De acordo com um comunicado do INEM enviado às redações durante a noite de sábado, esse transporte teve início às 15h13, tendo a paciente sido “entregue aos cuidados das equipas médicas do Hospital de Santo António” pelas 18h10.

Restava, por isso, regressar à base, apesar de as condições atmosféricas não serem as mais favoráveis. Pelas 18h30, a tripulação contactou a Torre de Controlo do Porto para informar de que descolaria em direção a Macedo de Cavaleiros nos cinco a seis minutos seguintes. Não foi o último contacto: a Torre de Controlo voltou a falar à aeronave, pelas 18h39, para saber qual a altitude que pretendia manter, tendo a tripulação informado que voaria a 1500 pés, escreve a Lusa. A primeira perda de sinal radar aconteceria pouco depois, pelas 18h55.

Helicóptero chocou com antena

Esperava-se que o helicóptero aterrasse pelas 19h20, mas, como não voltou a haver contacto da parte da tripulação, às 19h, segundo informou a empresa que gere a navegação aérea (NAV), e "de acordo com protocolo de atuação que determina que 30 minutos após o último contacto expectável se iniciem tentativas de contacto com a aeronave", a NAV começou a tentar chegar à fala com os Comandos Distritais de Operações e Socorro (CDOS) de Porto, Braga e Vila Real, que não terão atendido a chamada. É aqui que começa uma história de encontros e desencontros ainda por esclarecer: fontes dos CDOS de Braga e Vila Real já vieram desmentir esta informação à Lusa, dizendo considerar "muito esquisito" que a NAV não tenha de facto tido resposta, uma vez que estas unidades têm operadores de chamadas em permanência.

O resultado foi que apenas às 19h40, uma hora depois do último contacto com o helicóptero, a Força Aérea, “que é quem ativa a busca e salvamento”, recebeu a informação sobre a queda da aeronave. E as forças de resgate, incluindo equipas da Proteção Civil, só chegaram ao terreno já passava das 20h. A missão não era fácil: o helicóptero, confirmou-se mais tarde, caiu numa zona de montanha de difícil acesso, e por entre a chuva e o nevoeiro as equipas de buscas tiveram dificuldades em chegar ao local.

Pelas 2h da manhã, acabou por ficar confirmado o pior. Foi por essa hora que foram encontrados os destroços da aeronave e os corpos dos quatro tripulantes, já sem vida, e retirados já na tarde deste domingo. Começam agora a saber-se as primeiras explicações para o acidente: o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários, num comunicado enviado à Lusa, explica que a sua avaliação preliminar indica que a queda terá acontecido depois de o helicóptero ter chocado com uma antena emissora existente na zona, podendo essa colisão ter “diversas causas possíveis”, ainda por apurar. Os trabalhos de investigação no terreno arrancaram este domingo, mas estão a ser dificultados devido ao “elevado grau de destruição da aeronave”.

Guerra entre bombeiros e Proteção Civil continua

Certo é que o Ministério da Administração Interna já ordenou a abertura de um inquérito técnico urgente ao funcionamento dos mecanismos de reporte de ocorrência e de lançamento de alertas. O secretário de Estado da Proteção Civil, José Artur Neves, já veio dizer que, conforme a informação disponível até agora, “a operação de proteção civil decorreu de acordo com os normativos legais, reportando todos agentes” à Autoridade Nacional de Proteção Civil “nas condições que a lei prevê”.

A guerra entre a Liga dos Bombeiros Portugueses, presidida por Jaime Marta Soares, e a Proteção Civil continua, e isso voltou a ser bem notório na sequência deste acidente. Depois de semanas de desacordo relativamente às estruturas da Autoridade Nacional de Proteção Civil - uma vez que os bombeiros voluntários reivindicam uma estrutura independente com orçamento próprio e por isso abandonaram a ANPC - Marta Soares veio dizer que houve mesmo descoordenação e que a Proteção Civil “falhou”, pedindo um “inquérito rigoroso” ao acidente. É que, segundo Marta Soares, os bombeiros de Valongo, avisados às 20h35, ter-se-ão deslocado imediatamente ao local da queda - por outro lado, os CDOS só terão chegado mais tarde para ajudar nas operações de buscas e resgate, o que diz indiciar uma “confusão muito grande” na mobilização de meios, nomeadamente por parte das estruturas da ANPC.