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Estudo mundial expõe falhas preocupantes na segurança dos implantes mamários

MIGUEL MEDINA/GETTY

Implantes produzidos com materiais não listados, mulheres que deixam de ser seguidas a longo prazo após as cirurgias, desvalorização dos riscos, relação com doenças raras. É longa a lista dos problemas encontrados na pesquisa do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação

Uma investigação mundial sobre a indústria dos implantes mamários concluiu que existem falhas graves em matéria de segurança clínica, com problemas que vão desde a forma como os implantes são aprovados para uso cirúrgico até à falta de seguimento a longo prazo das mulheres intervencionadas. Como resultado disso, a dimensão e gravidade dos efeitos adversos corre o risco de, por exemplo, estar subavaliada, dizem os especialistas, alertando para riscos pouco conhecidos.

O estudo resulta de um trabalho do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação e foi esta segunda-feira dado a conhecer. Com base no acesso a dados clínicos de vários países e em várias entrevistas realizadas, os dados mostram-se assustadores.

No Reino Unido, e segundo o “The Guardian”, um dos jornais envolvidos na pesquisa, um total de 1.459 casos de problemas relacionados com implantes mamários chegaram ao regulador desde 2015. Desses, 1.200 foram considerados graves, ainda que não tenha sido possível aceder a informação sobre a origem dos problemas. O regulador disse ainda não estar autorizado a revelar detalhes sobre que implantes (e de que empresas) provocaram o quê.

A “separação de materiais” aparece mencionada num terço dos relatos, escreve o jornal britânico, com a descrição de casos de derrame do conteúdo do implante a ser comum a um quarto das queixas. Onze dos casos envolveram a ‘migração’ dos implantes, e seis simplesmente rebentaram, alguns dos motivos que obrigaram à realização de novas cirurgias.

O cenário é tão grave, que um dos especialistas ouvido, o cirurgião plástico Nigel Mercer, defende a criação de um registo nacional “obrigatório” para que se possa conhecer a real dimensão do problema.

Por outro lado, uma investigação conduzida pelo regulador holandês, há dois anos, centrou-se na análise dos implantes fornecidos pelas dez empresas europeias líderes no mercado. As conclusões foram também preocupantes.

Por um lado, foram detetados nos artigos materiais não listados (num dos casos um tipo de silicone industrial muito parecido àquele descoberto nos implantes da marca PIP, cujas próteses defeituosas tiveram de ser retiradas do mercado e levaram à abertura de vários processos judiciais). Por outro, o estudo percebeu que metade das empresas desvalorizou na documentação produzida os riscos associados à colocação dos implantes.

França vai reavaliar segurança em 2019

Já nos Estados Unidos, um estudo muito abrangente - que seguiu cerca de 100.000 mulheres - confirmou a ligação entre a colocação de implantes e uma série de doenças raras, algumas de natureza autoimune. Ainda que a maioria destas mulheres tivesse afirmado estar contente com a cirurgia, a incidência de artrite reumatóide e melanoma, por exemplo, revelou-se maior do que comparando com os dados da população em geral.

Coincidência ou não, três dias antes da divulgação da pesquisa do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, a agência francesa do medicamento (ANSM) anunciou que vai reavaliar no início de 2019 a segurança dos implantes mamários usados em cirurgia cosmética e reconstrutiva, depois de ter detetado uma forma rara de cancro nas mulheres que os utilizaram.

Entre as 500 mil mulheres portadoras de implantes em França foram identificados 53 casos de linfoma anaplásico de células grandes (LACG na sigla em inglês), envolvendo principalmente implantes em envelope texturizado, segundo a ANSM. Estes modelos representam 85% do mercado francês, contra 15% dos implantes de envelope liso.

A agência reunirá, entre 7 e 8 de fevereiro, um comité de peritos encarregados de auscultar os pacientes, os profissionais de saúde e outros intervenientes nesta matéria, para beneficiarem de um esclarecimento global sobre a utilização deste tipo de implantes. Após a audição do comité de peritos, será tomada “uma decisão sobre a utilização dos implantes, sobretudo de envelope texturizado, em cirurgias estéticas e reconstrutivas".

Enquanto isso, a agência recomenda aos profissionais de saúde que utilizem preferencialmente os implantes mamários de envelope liso.