Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

42% dos portugueses acredita que um grupo secreto governa o mundo

ILUSTRAÇÃO PAULO BUCHINHO

Universidade de Cambridge analisa confiança nas instituições em oito países europeus e nos EUA. Portugal é onde menos se acredita em notícias falsas

A maioria dos portugueses não confia nos governos, nem nos militares, jornalistas, sindicalistas ou líderes religiosos. Mas confia nos cientistas. Portugal é o país onde menos se embarca em teorias da conspiração muitas vezes difundidas através de notícias falsas, como as que negam, por exemplo, a importância das vacinas e a responsabilidade humana no aquecimento global ou as que veiculam sentimentos anti-imigração. É esta uma das conclusões de um estudo da Universidade de Cambridge realizado em oito países europeus e nos EUA.

De acordo com os resultados do estudo “Conspiracy and Democracy”, do Centre for Research in the Arts, Social Sciences and Humanities e a YouGov Cambridge, só 10% dos portugueses defendem que os verdadeiros efeitos das vacinas estão a ser escondidos — em França, por exemplo, ultrapassa os 25%; e apenas 13% acreditam que o Governo esconde o número real de imigrantes no país — lá fora, a média é 28% (ver infografia).

Paradoxalmente, Portugal é o país onde mais se crê que existe um grupo que secretamente governa o mundo — 42%, o dobro da média — e onde mais se considera que, apesar de vivermos em democracia, haverá sempre uma mesma elite a mandar (66%).

“É a correlação entre estas duas posições que surpreende”, conclui Hugo Leal, investigador que participou no estudo. “Por um lado, há razões histórico-sociais que justificam a crença de que o país não está nas mãos dos eleitos, mas nas mãos das elites. Por outro lado, não há condições sociais e políticas para a emergência de fenómenos de base nativista ou nacionalista que espalhem essa desinformação pela internet.”

Os níveis de desconfiança nas instituições já vêm de trás. “A grande maioria dos portugueses está acostumada às elites. São sempre os mesmos a mandar”, afirma o historiador Manuel Loff. Já Pedro Magalhães, politólogo, explica que o sentimento de ‘desafeição política’ — “uma combinação entre a perceção de que quem tem poder não ouve o cidadão comum e de que se é pessoalmente impotente para mudar as coisas” — é já uma característica da cultura política nacional.

O que surpreende é que essa descrença na política não leve os portugueses a embarcar na desinformação que circula na internet, à semelhança do que tem acontecido nos Estados Unidos, Brasil ou Reino Unido. O estudo vem confirmar que a imigração “é a menor das preocupações” dos portugueses, diz o sociólogo João Peixoto, especialista em migrações. “Não é de recear uma onda xenófoba.”

UM OÁSIS E UM ALERTA

Manuel Loff encontra uma justificação no passado: “A imigração tem uma percentagem reduzida e uma parte vem através da África portuguesa. Há um sentimento pós-colonial que se enquadra na narrativa de que temos uma relação especial com os povos tropicais, o que torna muito difícil dizer que o perigo vem de lá.”

Apesar de Portugal ser visto como “um oásis” no que diz respeito aos sentimentos anti-imigração, é importante não dar o assunto como resolvido. “Estes números, ainda que baixos, devem servir para obrigar as políticas públicas a estarem alerta”, defende João Peixoto. “É preciso garantir que a integração de estrangeiros se mantém na agenda política e evitar discriminação positiva em relação aos estrangeiros. Qualquer política que lhes dê mais do que aos nacionais pode despertar tensões.”

O sociólogo elogia a forma como os partidos portugueses têm tratado o tema da integração. “Da esquerda à direita, os partidos não têm politizado o assunto, nem o têm usado como arma eleitoral. Somos um bom caso de estudo.”