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A última vez a decorar 1000 páginas: o fim do mais temido dos exames

A prova nacional de seriação assenta sobre a 19ª edição do livro “Harrison's Principles of Internal Medicine”

Ana Brígida

Quase 2800 recém-diplomados em Medicina fazem esta quinta-feira o último “Harrison”, o mais temido dos exames. A nota que tiverem é determinante para a escolha da especialidade. E não há vagas para todos. Este ano abriram 1665 para formação em hospitais e centros de saúde, deixando mais de 900 candidatos de fora. A partir de 2019, a prova de seriação será outra

Isabel Leiria

Isabel Leiria

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Jornalista

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uma fila com quatro cadeiras viradas para a parede estão quatro jovens de cabeça enfiada nas fotocópias e nos portáteis. De headphones, de tampões nos ouvidos, de capuz na cabeça, a concentração e o silêncio são totais. É naquela sala, a que os estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa se habituaram a chamar “aquário”, por causa do vidro que os isola do mundo exterior, que muitos dos recém-formados médicos têm passado os dias, todos os dias dos últimos meses, de manhã cedo até à noite, de segunda a domingo.

O mais temido dos exames realiza-se esta quinta-feira a partir das 15h. Nos últimos meses, leram e releram as matérias do "Harrison", o livro de quase mil páginas que têm de saber de cor. “Agora é só dar umas ‘voltas’ de reconhecimento para verificar o que se sabe ou não. Mais do que tentar perceber, temos de absorver o máximo de matéria em menos tempo possível”, explica David, que costuma chegar ao ‘aquário’ pelas 7h30 e sair apenas 15 horas depois. Desde o fim do estágio do curso, em junho, só tirou cinco dias para descansar. “As horas que restam é para dormir e comer”, confirma a colega da cadeira ao lado, Daniela.

Com o número de candidatos às vagas de formação nas especialidades a aumentar – para a prova de quinta-feira estão inscritos 2789 diplomados do curso de Medicina, entre os que o fizeram em Portugal e os que estudaram no estrangeiro e também os que repetem o Harrison por não terem conseguido entrar na especialidade – e os lugares a não chegarem para todos, a pressão aumenta de ano para ano.

OBJETIVO: 100%

Em 2017 fizeram a prova que serve para seriar os candidatos 2600 candidatos e abriram 1665 vagas em hospitais e centros de saúde. Os lugares para os diplomados deste ano só serão conhecidos em 2019, mas a desproporção será em princípio maior. Quem não conseguir ‘entrar’ na especialidade, poderá exercer mas como médico generalista.

Por isso, explica Daniela, a sensação que têm agora oscila entre o alívio por este período das suas vidas estar “finalmente a terminar” e a “pressão de ser bem-sucedido no exame, pelas implicações que a prova tem”.

Uma nota superior a 80% pode não ser suficiente para um médico que se queira especializar em Dermatologia, por exemplo, que é uma das áreas atualmente mais procuradas, tal como Cardiologia ou Oftalmologia, a especialidade pretendida por Bernardo. Mas pode chegar para Medicina Interna ou para Medicina Geral e Familiar, menos cobiçadas pelas novas gerações, provavelmente pela sobrecarga de trabalho nas Urgências, o excesso de utentes nos centros de saúde a pouca atividade privada possível.

Pelo sim pelo não, o objetivo de todos é tirar nota máxima ou o mais próximo disso. A prova, inteiramente baseada no livro “Harrison’s Principles of Internal Medicine”, é composta por 100 perguntas relacionadas com cinco temas (Cardiologia, Pneumologia, Nefrologia, Hematologia e Gastrenterologia), de escolha múltipla, e que tem de ser respondida em duas horas e meia (ver caixa com exemplos de perguntas). Para serem bem sucedidos têm de memorizar todos os conteúdos do livro e manter a concentração para responder a questões que são colocadas em termos de “escolhe a única hipótese correta”, “assinala a exceção” ou “identifica a única afirmação falsa”.

Apontamentos sublinhados, slides, questionários e aplicações no telemóvel ajudam a memorizar a matéria e a testar o que já se sabe

Apontamentos sublinhados, slides, questionários e aplicações no telemóvel ajudam a memorizar a matéria e a testar o que já se sabe

ana brígida

Daí a necessidade de todos os candidatos darem as chamadas “voltas” ao livro – quatro, cinco, seis ou sete nos casos mais extremos – para garantir a memorização de todos os pormenores. Muitos frequentam os cursos que surgiram entretanto para os ajudar a preparar para o “Harrison” e todos utilizam esquemas, ferramentas e técnicas para facilitar o processo, como slides, questionários, flash cards, mnemónicas.

DA CAFEÍNA AOS ANTIDEPRESSIVOS

E há quem não aguente a pressão, reconhecem Bernardo e Daniela, referindo-se à quantidade não negligenciável de colegas que estão sob medicação para a ansiedade e antidepressivos. Na versão mais “leve”, é a cafeína, em forma de café, Red Bull ou comprimidos, que vai ajudando a suportar as longas horas de estudo contínuo.

Mas este é também o último ano em que se realiza o “Harrison”, realizado pelo menos há 40 anos por todos os médicos portugueses no final do curso de Medicina e antes da entrada na especialidade. O facto de já não servir para seriar – há cada vez mais jovens a ter notas entre os 90% e os 100% – e de assentar quase exclusivamente na memorização levaram à mudança.

Em 2019, a nova Prova nacional de Acesso assentará mais sobre o raciocínio clínico e abrangerá mais áreas e livros de estudo. O número de perguntas também aumenta – de 100 para 150 –, bem como a duração da prova, que passará a ser de três horas.

A mudança é aplaudida pelos alunos, mas enquanto não houver lugar para todos, a “pressão não vai diminuir”, avisam Bernardo e Daniela.

PERGUNTAS RETIRADAS DA PROVA DE 2017, DISPONIBILIZADAS NO SITE DA “ACADEMIA DA ESPECIALIDADE”

NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA (IC), ASSINALE A AFIRMAÇÃO FALSA

a) Em 20% a 30% dos casos de IC com diminuição da função sistólica, a etiologia não é conhecida

b) Na IC com redução da função sistólica a utilização de fármacos antiarrítmicos como amiodarona ou a dofetilide é segura e eficaz

c) O tratamento com verapamil não está recomendado, dado o seu efeito inotrópico negativo

d) Na IC direita o péptido natriurético B (BNP) não se apresenta elevado, permitindo a diferenciação com a IC esquerda

e) A mortalidade é cerca de 30% a 40% no primeiro ano após o diagnóstico e cerca de 60% a 70% após 5 anos

SÃO CONSIDERADAS CAUSAS DE ANEMIA NA DOENÇA RENAL CRÓNICA TODAS AS SEGUINTES, EXCETO UMA. INDIQUE-A:

a) Hiperparatiroidismo/fibrose da medula óssea.

b) Mutação JAK2 V617F.

c) Inflamação crónica.

d) Deficiência relativa de eritropoetina

e) Deficiência de ferro

TODAS AS SEGUINTES CONDIÇÕES PODEM ORIGINAR ANEMIA MEGALOBLÁSTICA POR DEFICIÊNCIA SEVERA DE VITAMINA B12, EXCETO UMA. ASSINALE-A:

a) Gastrectomia total

b) Doença de Crohn com ileite

c) Sprue tropical

d) Infeção por Clonorchis sinensis

e) Síndrome de lmerslund

RELATIVAMENTE À ASMA, ASSINALE A AFIRMAÇÃO FALSA:

a) A síndrome de Churg-Strauss pode apresentar-se com sibilos, constituindo um diagnóstico diferencial

b) A PCO2 arterial encontra-se habitualmente diminuída na exacerbação

c) A 1L-13 induz hipersecreção de muco em modelos experimentais da doença.

d) A libertação brônquica de substância P (neurotransmissor anti-inflamatório) encontra-se diminuída na asma.

e) Nos doentes com doença controlada o exame objetivo pode ser normal

QUAL DAS SEGUINTES CAUSAS DE OBSTRUÇÃO MECÂNICA DO INTESTINO DELGADO É MAIS FREQUENTE?

a) Aderências (bridas) por cirurgia abdominal prévia

b) Estenose rádica (induzida por radiação)

c) Estenose por doença Crohn

d) A adenocarcinoma do intestino delgado

e) Estenose induzida por anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)