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Casa do Gaiato de Paredes acusa Segurança Social de ato “quase selvagem”

Casa do Gaiato refere-se à retirada dos utentes, todos doentes, depois de ter sido realizada uma ação de fiscalização que concluiu que não há condições de funcionamento na referida instituição

A Casa do Gaiato em Beire, Paredes, acusou esta quinta-feira a Segurança Social da prática de um ato "quase selvagem" na forma como retirou os utentes da instituição, todos doentes, quando procedia ao seu encerramento.

"Aquilo que preocupa é que eles [doentes] sofrem com esta retirada perfeitamente desumana que lhes fizeram. Depois de tantos anos nesta comunidade, para onde alguns vieram ainda muito novos com doenças crónicas, retirá-los assim, desta forma quase selvagem, isto causa sofrimento", afirmou o padre Júlio Pereira, que dirige a instituição, em declarações à Lusa.

A Segurança Social (SS) procedeu na quarta-feira ao encerramento da Casa do Gaiato em Beire, no concelho de Paredes, na sequência de uma ação de fiscalização que concluiu pela não existência de condições de funcionamento, disse hoje à Lusa fonte da tutela.

O responsável pela instituição considera, porém, que a ação da Segurança Social não se justificava. "Não há justificação nenhuma para esta atitude e não concordamos com ela", sublinhou, destacando que antes deste processo "não havia nada, estava uma vida normal na Casa do Calvário".

Questionado sobre a conclusão da Segurança Social que aponta para a falta de condições das instalações em Beire, Júlio Pereira respondeu: "Não tem qualquer fundamento essa afirmação. A nossa Casa do Calvário tem todas as condições para funcionar, como já funciona há 60 anos". O responsável explicou, contudo, que a Casa do Gaito tem "um modelo de funcionamento que não é o da segurança social".

"Querem-nos encaixar à força no modelo da segurança social. Nós não encaixamos num modelo que não é o nosso, que tem todas as virtudes para realizar a sua missão", acentuou, prosseguindo: "Temos doentes connosco há mais de 40 anos, alguns vieram em condições péssimas e nunca ninguém quis saber".

Avançando que a Casa do Gaito vai recorrer da decisão da tutela com "tudo aquilo que a lei permitir", Júlio Pereira criticou ainda a ação realizada na quarta-feira não ter sido acompanhada de qualquer documento que a autorizasse ou com a presença de uma força policial.

O responsável disse à Lusa que a SS não chegou a levar todos os doentes, porque a Casa do Gaito, no decurso da operação, constatou a ausência de um documento ou força policial que garantisse autoridade para o ato.

"Eles começaram a levar os primeiros doentes. O que é certo é que a polícia nunca apareceu. A partir desse momento, eu disse: não levam mais doentes, têm de trazer um documento ou a polícia a atestar a autoridade para fazerem isto", contou.

O padre António Pereira explicou que a instalações de Beire são formadas por duas casas. Na Casa do Calvário estão 14 utentes, ali designados "rapazes com incapacidade de autonomia, todos acima dos 40 e 50 anos de idade". Esses, precisou, ainda se mantêm na Casa do Calvário.

Quanto à Casa do Gaiato de Beire, onde estavam 50 utentes, todos com doenças crónicas, restam sete ou oito, precisou. Os restantes foram transferidos para outras instituições. A Lusa solicitou mais esclarecimentos ao Instituto da Segurança Social, aguardando a resposta.