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“Quero que este novo site seja uma espécie de Google da verdade”

O jornalista Fernando Esteves está à frente do novo projeto

José Fernandes

Nasce esta terça-feira, durante a Web Summit, um novo órgão de comunicação social. Chama-se Polígrafo e é um site especializado em fact-checking: a verificação de factos. Entrevistámos o responsável

O ex-editor de política da revista “Sábado” Fernando Esteves importa para Portugal um modelo de jornalismo especializado na verificação de factos. O novo site, que nasce esta terça-feira, vai classificar a informação transmitida por políticos e líderes de opinião em cinco categorias: verdadeira; verdadeira mas; imprecisa; falsa; e pimenta na língua (quando a mentira é escandalosa).

O que é o Polígrafo?
É um órgão de comunicação social como outro qualquer mas com a particularidade de só fazer fact checking [verificação da veracidade do que é dito], que é um fenómeno razoavelmente desconhecido em Portugal mas em explosão no mundo inteiro, onde já existem cerca de 140 experiências do género. Por exemplo, no Brasil os sites de fact checking foram os grandes destaques da cobertura da campanha porque houve uma grande proliferação de fake news.

Então, o Polígrafo vai desconstruir as fake news?
O termo fake news [notícias falsas] também tem muito que se lhe diga. É uma expressão que está a ser, cada vez mais, banida porque se é fake [falso] não é news [notícia] e se é news não é fake. Não vamos desconstruir notícias, vamos desconstruir o que está na base das notícias. Não vamos fazer fact cheking de notícias, ou seja, do trabalho dos outros jornalistas, mas de protagonistas.

O projeto nasce num contexto de proliferação de fake news...
Houve uma grande proliferação de desinformação e um problema terrível na distribuição da informação. O fact checking é uma variante do jornalismo que nasceu há cerca de 12 anos nos EUA, com uma experiência chamada Politifact (www.politifact.com). Neste momento é o maior site de fact checking do mundo e uma espécie de farol para todos os outros. Foi-se desenvolvendo, foi premiado com um Pulitzer e explodiu nas últimas eleições presidenciais entre Trump e Hillary. No último debate entre os dois candidatos, o Politifact teve 100 milhões de pageviews. Os jornais norte-americanos fizeram fact checking em direto dos debates e percebeu-se que é um tipo de jornalismo que pode desempenhar um papel fundamental na purificação das democracias.

Porque é que isso é importante?
Neste momento, 60% da informação que as pessoas consomem vem a partir das redes sociais. Trata-se de informação que não tem triagem jornalística. É um meio onde corre muita desinformação, alguma por negligência do cidadão comum, outra que é posta a circular por fontes profissionais. Há pessoas que ganham a vida a construir informação falsa para alimentar as redes sociais em favor de um objetivo.

A função dos media é relatar a verdade, os factos. Em que é que este projeto é diferente?
A imprensa tradicional que tem vindo a ser esvaziada de capacidade nos últimos anos, por não segurar as pessoas com mais experiência. As redações perderam também porque encolheram, não têm tantos meios humanos para fazer uma triagem mais séria e mais aguda da informação que chega. Não estou a falar de falta de seriedade, estou a falar de falta de meios. Se à falta de meios da imprensa tradicional se junta a desinformação que circula nas redes sociais, então temos um fenómeno explosivo para o cidadão deixar de acreditar na informação que lhe chega.

É um problema das redes sociais?
O cidadão desinformado não vê grande diferença entre a informação que lhe chega das redes sociais ou dos media tradicionais. E a informação que lhe chega das redes sociais, sendo manipulável, acaba por influenciar aquilo que ele pensa. Há um estudo do Poynter Institute, feito depois das eleições americanas, que concluiu que se uma pessoa for impactada três vezes por uma informação falsa, acaba por acreditar nela. Isto se a informação falsa for contra as suas convicções, porque se for ao encontro das suas convicções acredita à primeira. Isto é muito perigoso, pode ser utilizado por candidatos a ditadores. Donald Trump foi o primeiro político da era democrática a ser eleito através das redes sociais. E Bolsonaro foi o primeiro político da era democrática a ser eleito através do Whatsapp. Há um marketing político antes e outro depois do Bolsonaro.

Como vai funcionar o Polígrafo?
Vai ser fact checking puro. Vamos avaliar dezenas de protagonistas em permanência: primeiro-ministro, membros do Governo, líderes na oposição, deputados. Estamos a falar de influenciadores, personagens com capacidade de gerar debate nas redes sociais, como Marques Mendes ou Francisco Louçã. No fundo, todas as pessoas que têm uma voz na sociedade portuguesa.

Como é que vão coexistir com os media tradicionais?
Imaginemos a cobertura do debate quinzenal no Parlamento: nós vamos lá estar numa lógica diferente. Fazemos um estudo prévio, vamos já com dados muito concretos, como estatísticas e vamos ter um interlocutor especialista no tema em debate em cada bancada parlamentar. Vamos fazer fact checking em tempo real. É uma forma de colocar exigência em cima das pessoas que se movimentam no espaço público.

O fact checking é uma resposta ao ressurgimento do populismo?
A democracia enfraqueceu e com o surgimento destes movimentos autoritários, as pessoas deixaram de confiar no sistema. As pessoas que votaram em Bolsonaro não são fascistas, não votaram nele, votaram contra o sistema. Estão a deixar de acreditar na democracia, porque se habituaram a políticos que fazem promessas nas campanhas e depois não as cumprem. Vamos identificar quais são as promessas que o Governo fez em campanha eleitoral e verificar se são cumpridas em termos discursivos e na prática.

Querem ser uma espécie de fiscais da verdade?
Não nos queremos constituir como polícias. Não temos uma lógica policial, não somos inimigos dos políticos e das pessoas que se movimentam no espaço público. Somos amigos dos leitores e dos eleitores, que se sentem defraudados pelo nivelamento por baixo do discurso público. E, ao terem um jornal que, permanentemente, os está a avaliar, os políticos vão começar a ter mais cuidado com aquilo que dizem. No limite, este processo resulta numa higienização da democracia.

Quais são as fontes de financiamento do projeto?
A maior parte destes projetos são financiados por fundações e ONG, mas também há projetos comerciais. No caso do Polígrafo, percebi que as fundações privadas não têm capacidade financeira para um projeto destes. Vai ser um projeto comercial, associei-me ao Sapo, a Altice vai tomar conta do departamento comercial do site.

O modelo de negócio é o tradicional?
Sim, como nos outros jornais, as receitas vêm da publicidade, patrocínios, conferências. Vamos fazer o que qualquer órgão de comunicação social faz. Mas vamos acrescentar uma faceta nova: temos um programa chamado Polígrafo Educação, que consiste na realização de workshops de literacia mediática em escolas do ensino básico e secundário. O problema das crianças é que acreditam em tudo o que lhes chega através dos youtubers, têm de aprender a duvidar. Estou a preparar uma parceria com o maior site de fact checking do Brasil, a agência Lupa, que tem um programa semelhante: 60% dos seus lucros vem da realização destes workshops.

O Polígrafo vai estar ligado às associações internacionais de fact checking?
Sim, o fact checking tem regras muito estritas definidas internacionalmente pela International Fact Checking Network, que tem um código de princípios muito rigoroso. Uma das orientações é que não se podem aceitar fontes anónimas. A acreditação por esse organismo é essencial para sermos elegíveis para fundos da Google e da Comissão Europeia. Todas as pessoas da estrutura fixa são convidadas a assinar um documento em que garantem que não são militantes de nenhum partido. Isso é incompatível com o jornalismo e com o fact checking.

A estrutura do Polígrafo é de quantas pessoas?
Temos uma estrutura fixa pequena, andará à volta das 10 pessoas, e uma rede de colaboradores de 20/25 pessoas. Tenho um protocolo com a Escola Nacional de Saúde Pública e com um jornal de saúde, por exemplo. Vamos fazer quatro fact checks por dia, que espero serem conteúdos de grande qualidade e incontestáveis. Também vamos fazer cine checking, para verificar erros nos filmes e das séries.

O investimento é de quanto?
Algumas centenas de milhares de euros, mas não quero avançar números. Temos três acionistas: eu, a Be Creative Media - uma empresa de audiovisuais - e o Emerald Group, uma multinacional de consultadoria financeira com sede em Londres e de origem angolana.

Como vai ser a vossa política de distribuição de informação?
Agressiva. Não vamos limitar-nos à postura clássica da imprensa tradicional de publicar as notícias e esperar para ver o que acontece, vamos publicá-las e colocar os factos verificados onde está a origem da desinformação, como por exemplo respondendo a um tweet com uma informação falsa. É espalhar ao máximo a verdade no espaço público.

De que forma os leitores poderão interagir?
Vamos ter um serviço de Whatsapp e Telegram. Hoje, quando estamos na conversa de café e divergimos em algo, o que fazemos é ir ao Google. Mas fazemos uma pesquisa e aparece-nos uma coisa e o seu contrário, não há filtragem. Nós vamos ter uma linha de Whatsapp e outra de Telegram para onde as pessoas podem enviar mensagens com pedidos de fact checking. Se nós acharmos que existe relevância jornalística, fazemo-lo, e a pessoa que enviou o pedido recebe o resultado 15 minutos antes ele ir para a linha. O que quero é abrir todas as janelas possíveis para as pessoas entrarem no site. Quero que o Polígrafo seja uma espécie de Google da verdade. Não estamos à procura das mentiras, estamos à procura da verdade.