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Intenção de venda de terrenos a uma herdade de caça coloca a direção da Quercus sob fogo

Contra a venda das propriedades no Tejo Internacional surgiu esta terça-feira uma petição que conta já com mais de 600 assinaturas. Sócios atuais e antigos da organização ambientalista consideram a intenção uma abominável traição

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

A direção nacional da Quercus, presidida por João Branco, quer vender mais de 100 hectares de terrenos dispersos no Tejo Internacional ao proprietário de uma zona de caça local. Sócios atuais e antigos da organização ambientalista consideram a intenção uma “abominável traição” e puseram a circular, esta terça-feira, uma petição pública para travá-la.

A decisão de venda ainda não está fechada e depende de um parecer do conselho fiscal da Quercus. Em poucas horas, a petição soma mais de 600 assinaturas.

No texto da petição é lembrado que os terrenos em causa — que incluem matagais e escarpas onde nidificam ou nidificaram espécies em risco como a águia de Bonelli, o abutre do Egipto, a cegonha-preta , ou o grifo — foram adquiridos nas décadas de 80 e 90 do século XX “para fins exclusivos de conservação da natureza” e “com fundos comunitários, donativos de centenas de cidadãos nacionais e estrangeiros e de organizações não governamentais de ambiente europeias”. Também é sublinhado que a sua venda “é uma abominável traição a todos quantos acreditaram na idoneidade da Quercus e depositaram na associação toda a confiança para gerir o seu dinheiro em prol da conservação da natureza e não da caça”.

Os subscritores do abaixo-assinado dizem sentir-se “escandalizados” com a hipótese de alienação destes terrenos que incluem uma frente de rio, do Tejo e seus afluentes, e esperam que a venda não se efetue. Entre eles está Francisco Ferreira, que foi presidente da Quercus de 1996 a 2001 e membro da direção até 2011.

O agora presidente da Zero (mas ainda sócio da Quercus) já manifestou publicamente a sua oposição a esta alienação, lembrando que “foi um trabalho de mobilização enorme para se adquirirem terrenos cruciais para a conservação da natureza e que têm de continuar nas mãos de uma organização não-governamental, independentemente da vitória que foi a criação do Parque Natural do Tejo Internacional e o estatuto de alguma proteção que foi assegurado”. O ambientalista reforça também que “eventuais dificuldades financeiras não podem pôr em causa esta joia da coroa da história da Quercus”.

O atual presidente da Quercus, João Branco, rejeita as acusações e considera a petição “maliciosa”. Em declarações ao Expresso diz que a proposta foi colocada à direção da Quercus, mas que esta só pode ser autorizada se o parecer do conselho fiscal for positivo. Mas não revela qual o valor que está em jogo, afirmando que “o segredo é a alma do negócio”.

O ex-dirigente do núcleo da Quercus de Castelo Branco, Samuel Infante, garante que “os membros regionais da Quercus estão contra a venda destes terrenos a uma zona de caça que tem práticas já denunciadas ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)”, como a construção de uma vedação de dois metros que cria barreiras à circulação da fauna e das pessoas em percursos pedestres.

João Branco afastou os elementos do núcleo regional de Castelo Branco, despediu o seu dirigente Samuel Infante, alegadamente “por justa causa”, e assumiu-se como responsável máximo da Quercus pelos projetos para “valorizar” o Parque Natural do Tejo Internacional e “compatibilizar a gestão cinegética com a conservação da natureza” nesta área protegida. Estas ações integram o projeto-piloto de “gestão colaborativa” — que envolve também as autarquias locais, o ICNF e entidades ligadas à caça — e conta com financiamento do Fundo Ambiental, no valor de €300 mil.

Questionado pelo Expresso sobre o porquê de ter assumido o cargo de “responsável máximo” da Quercus pelo projeto e afastado os dirigentes regionais, João Branco responde simplesmente: “Porque sim”.