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O sismo-que-não-aconteceu no Montijo

Jose Fernandes

“Existe um dito popular que diz que onde a terra tremeu ela voltará a tremer”

Parece um bocadinho como a ida de Raul Solnado à guerra de 1908. Chegámos à Escola Secundária Jorge Peixinho, no Montijo, perto das 11h, e ao contrário do que chegou a acontecer na guerra de 1908, já estava aberta.

- Onde vai ser [a simulação do sismo]?
- É ali mais à frente…

A guerra de 1908 - a tal em que uns bombardeavam às segundas, quartas e sextas e os outros às terças, quintas e sábados - era mais acima. A escola que seria palco de um exercício de sensibilização para o risco sísmico, organizado pelo Governo e Autoridade Nacional de Proteção Civil, está sossegada. Algumas máscaras feitas à mão lembram a época do ano. Os corredores estão desertos. Os miúdos estão todos nas salas de aula.

Encaminhamo-nos, finalmente, para a sala onde políticos, convidados e imprensa vão confirmar como três verbos ganham movimento. É, digamos, um manual de boas maneiras para evitar tragédias quando “A Terra Treme” - é assim o nome da ação de sensibilização. A pequena sala está entalada entre outras duas, com janelas que deixam bisbilhotar o que se passa para lá da fronteira.

“Isto é uma aula de Físico-Química, certo? Vejo ali no quadro força, resistência. Quando dois corpos…”, vai explanando o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, dando cotoveladas ao silêncio que enchia aquele espaço. Matilde, uma aluna do 9.º ano, ouve com atenção e vai respondendo aos desafios . “Quero ser farmacêutica”, satisfaz a curiosidade do governante.

Jose Fernandes

Do sismo, nada. Vai-se olhando para o relógio. “É preciso esperar alguns minutos para que venha”, atira alguém sem perceber que podia ter sido Raúl Solnado a dizê-lo. “Os animais são os primeiros a fugir…”, continuava Brandão Rodrigues.

Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim!!

Aí está ele. Não sacode a estrutura do edifício, não traz gritos e muito menos abana a planta dos pés. Só os ouvidos estremecem. Os alunos, que sabiam a que horas chegava o sismo, foram rápidos e competentes na tarefa de “baixar, proteger e aguardar”, refugiando-se debaixo das mesas. Foi assim durante um minuto. Depois, numa fila bem coordenada e quase silenciosa, seguiram todos calmamente para um dos pátios da escola. Quando as turmas se juntavam, a agitação e burburinho cresciam. Centenas de alunos vão deixando aquele campo desportivo bem composto, dando por findo o exercício.

Mas nisto, já se sabe, navegamos entre dois mundos: virtual e real. É como a vida de um futebolista, por exemplo: uma coisa é chutar à baliza num treino, outra é num jogo. A ansiedade é diferente, o contexto é outro, o medo é um bicho que morde o pensamento e congela o corpo, o inesperado tem outra carapaça, o oxigénio que chega ao cérebro já não canta no mesmo tom e o pé não responde como devia. A natureza da resposta em situações extremas, com medo e pânico ao barulho, poderá ditar um desfecho (in)feliz, daí a importância destas ações e das repetições, mesmo em cenários tão distantes da realidade. Baixar, proteger e aguardar.

Esta campanha, que se espalhou pelo país e conheceu o epicentro nesta escola do Montijo, enquadra-se no âmbito do Dia Internacional de Sensibilização para os Tsunamis das Nações Unidas. Trata-se da tradicional sensibilização que lembra algo mais ou menos tido como certo pelos especialistas: Portugal, que tanto sofreu em 1755, voltará a ser castigado por um poderoso sismo.

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A ação promove sete passos para a construção de uma sociedade mais segura e consciente: identificar e corrigir os riscos de casa, organizar um plano familiar de emergência, preparar um kit de urgência, identificar e corrigir os pontos fracos do edifício, executar os três gestos (baixar, proteger e aguardar), cuidar de si e só depois ajudar outros, estar atento às indicações das autoridades (ver aqui com mais pormenor). Foi isto que foi transmitido pelos jovens num auditório antes de o exercício ter lugar. Numa dança de letras, que passava de mão em mão, os alunos de Escrita Criativa do 9.º F explicaram o que fazer antes, durante e depois de um tremor de terra.

“Existe um dito popular que diz que onde a terra tremeu ela voltará a tremer”, disse aos jornalistas Tiago Brandão Rodrigues já depois de exercício e número musical protagonizado por um grupo de alunos estarem finalizados. “Quando o chão vibrar, as janelas partirem, quando o chão estremecer, tudo aquilo que é basicamente um quadro bem complexo e poderoso, todos temos de saber reagir.”

De acordo com o ministro, esta ação contou com a participação de seis mil instituições. No Montijo “escaparam” ao sismo-que-não-aconteceu 1600 alunos.

Jose Fernandes

Este dia, ainda assim, começou com um alerta da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES), que teme que hospitais, escolas e habitações não tenham grande resistência perante um sismo.

“Nas construções novas basta que um técnico diga que cumpriu a legislação e ninguém vai verificar”, disse esta segunda-feira de manhã à TSF João Azevedo, o presidente da SPES, informando ainda que as reabilitações “também não são fiscalizadas”. Segundo Azevedo, as câmaras municipais deixaram de estar aptas a fazer esse “escrutínio”.

Jose Fernandes

“Temos quase a certeza que muitas obras de reabilitação estão a ser mal feitas, pois vemos todos os dias aqueles contentores com tijolos e paredes a serem deitadas abaixo e temos a sensação que nem um projeto haverá, algo que as pessoas que lá estarão nem vão notar, pois a seguir a um sismo ficarão debaixo dos escombros”, avisou.

O exercício no Montijo contou com a presença do secretário de Estado da Proteção Civil, José Artur Neves, que preferiu valorizar o caráter preventivo da ação. “Se um sismo surgir -- e ele poderá surgir a qualquer momento e é muito difícil de prever --, nós temos que estar preparados para nos defender. É esse o objetivo da elevação do patamar preventivo da proteção civil: primeiro prevenir, conhecer bem os riscos e as consequências para não sentirmos dificuldade em reagir no momento em que temos que reagir, porque muitas vezes não há tempo de a Proteção Civil chegar aos locais.”

Jose Fernandes

Matilde, a tal aluna do 9.º que quer ser farmacêutica, volta à carga e desarma Brandão Rodrigues.

-- Que curso é preciso para ser ministro?
-- Ah ah ah, é a melhor pergunta…

E lá explicou que não se estuda para ser ministro. O salto para o governo talvez tenha alguma semelhança com a chegada de um sismo: é inesperado. Por isso, até lá vai-se estudando a lição.