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Se o consumo de três concelhos portugueses fosse igual ao consumo mundial, duas Terras não chegavam para vivermos

Vila Nova de Gaia: a Pegada Ecológica deste concelho com 300 mil habitantes representa 2,9% da pegada portuguesa

Getty Images

A Pegada Ecológica por habitante dos município de Castelo Branco, Vila Nova de Gaia e Guimarães é muito superior à sua Biocapacidade, revela o projeto “Pegada Ecológica dos Municípios Portugueses”, liderado pela ZERO

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

A Pegada Ecológica por residente dos concelhos de Castelo Branco, Vila Nova de Gaia e Guimarães é muito superior à sua Biocapacidade, revelam os resultados do projeto “Pegada Ecológica dos Municípios Portugueses”, a que o Expresso teve acesso. E se toda a população mundial vivesse como os residentes destes três municípios portugueses, seriam necessários mais de dois planetas Terra para garantir de forma sustentável o consumo de recursos naturais.

Mais concretamente, seriam necessárias 2,4 Terras no caso de Castelo Branco, 2,3 para Vila Nova de Gaia e 2,2 para Guimarães. E o chamado Dia da Sobrecarga da Terra em 2016 aconteceria a 30 de maio para Castelo Branco, a 3 de junho para Gaia e 13 de junho para Guimarães. Este dia marca a data em que a população mundial passa a usar mais recursos da Natureza do que esta pode renovar em todo o ano, simbolizando, assim, o dia em que começa o défice ecológico desse ano.

Este projeto, pioneiro a nível mundial, é liderado pela associação ambientalista ZERO e envolve ainda a Universidade de Aveiro e a Global Footprint Network (GFN), organização que trabalha junto da ONU e é responsável internacional pelo conceito de Pegada Ecológica e da sua métrica. Esta iniciativa é pioneira porque pela primeira vez mede a Pegada Ecológica e a Biocapacidade à escala do município. Para já envolveu seis concelhos do Continente: Almada, Lagoa, Bragança, Guimarães, Vila Nova de Gaia e Castelo Branco. Mas numa segunda fase o objetivo é estender o projeto a todos os municípios portugueses.

A Pegada Ecológica mede o uso da terra cultivada, florestas, pastagens e áreas de pesca para fornecer recursos e absorver resíduos em cada município. A Biocapacidade mede a área biologicamente produtiva disponível para regenerar esses recursos naturais.

Os resultados do projeto dizem respeito a 2016. A pegada de Vila Nova de Gaia corresponde a 3,92 hectares globais por habitante, isto é, 0,4% abaixo da média nacional e 5% acima da média da Área Metropolitana do Porto. A Biocapacidade, por sua vez, é de 0,17 hectares globais por pessoa, estando 87% abaixo da média nacional. A pegada de Guimarães é de 3,66 hectares globais por residente (7% abaixo da média nacional e 0,1% acima da média da Região do Ave) e a Biocapacidade de 0,19 hectares (85% abaixo da média nacional). E Castelo Branco tem um pegada de 4,02 hectares (2% acima da média nacional e 1% acima da média da Região da Beira Baixa) e uma Biocapacidade de 2,31 hectares (80% acima da média nacional).

Inverter lógicas de consumo prejudiciais ao ambiente

O saldo entre os dois indicadores é sempre negativo, o que “demonstra os desafios locais para inverter lógicas de consumo prejudiciais ao ambiente”, refere um comunicado da ZERO. Estes desafios concentram-se principalmente na alimentação e nos transportes. Com efeito, em Gaia a alimentação representa a maior componente da Pegada Ecológica dos seus residentes (31%), seguida dos transportes (21%). E o consumo de carne (28%) e de peixe (26%) é o principal responsável pela elevada pegada da alimentação. Em Guimarães a situação é semelhante na alimentação (29%, com 28% para o consumo de carne e 26% para o de peixe) e nos transportes (21%). E o mesmo se passa em Castelo Branco: 30% na alimentação (com o consumo de peixe a pesar 26% e o de carne 25%) e 23% nos transportes.

A apresentação pública dos resultados foi feita no dia 29 de outubro em Gaia (na Câmara Municipal) e Guimarães (no Laboratório da Paisagem), e a 30 de outubro em Castelo Branco (no Centro de Empresas Inovadoras). O Expresso já noticiou os resultados de Almada, Lagoa e Bragança (ver no final deste artigo em “Relacionados”).

Entretanto, o Relatório Planeta Vivo divulgado esta semana pela organização ambientalista WWF, revela que a crise económica que atingiu Portugal na primeira metade desta década levou a um recuo da Pegada Ecológica nacional que ainda hoje é visível, porque passou de 3,9 hectares globais por habitante em 2012 (59 ª maior do mundo) para 3,69 em 2018 (66ª), embora as políticas públicas relacionadas com o ambiente e a energia possam explicar também uma parte deste recuo. A Biocapacidade do país atinge apenas 1,27 hectares globais por pessoa, o que significa que há um saldo claramente negativo.