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Não são só os jovens que não se interessam pela política. Os políticos também não consideram os jovens uma prioridade. Afinal, são sobretudo os mais velhos que os elegem. Os jovens preferem os ativismos, as causas

Cristina Margato

Cristina Margato

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Jornalista

Carlos Esteves

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São os jovens que não se adaptam à política? Ou é a política que não acompanha os jovens e, logo, não se adapta às suas necessidades? É costume dizer-se que os jovens não se interessam por política, mas seria mais justo afirmar que os jovens não se interessam pela política tal como as gerações anteriores a conceberam: a política formal, do partido, da hierarquia rígida, da reunião, do congresso, da disciplina de voto. Afinal, foram os jovens que estiveram na origem da primeira manifestação (e uma das maiores) realizada em Portugal contra a austeridade.

A “Geração à Rasca” — assim ficou conhecido o conjunto de protestos — aconteceu a 12 de março de 2011 e teve por base um movimento apartidário, laico e pacífico com origem no Facebook. Apesar dessa visível mobilização, a abstenção eleitoral dos jovens não diminuiu e a sua participação nas instituições políticas não aumentou. Nas eleições europeias de 2014, por exemplo, só 19% dos jovens entre 18 e 24 anos e 24% entre 25 e 34 anos votaram. Entre o primeiro Parlamento democrático e o atual, a percentagem de deputados com menos de 35 anos diminuiu consideravelmente. Em 1975-1976, os jovens até aos 35 anos ocupavam cerca de 38% do Parlamento. Na XIII legislatura, iniciada em 2015, os jovens representam apenas 14% (45% têm entre 35 e 50 anos e 41% mais de 50 anos). Para Nuno de Almeida Alves, professor no ISCTE, esta realidade diz mais sobre os políticos do que sobre os jovens: “Não é um indicador da maior ou menor participação dos jovens na política, ainda que os jovens estejam menos interessados em participar na chamada política formal. O que esse dado demonstra é que os partidos estão a escolher menos jovens para os lugares de deputados do que no passado.” Pedro Magalhães, do Instituto de Ciências Sociais, considera ainda o contexto histórico: “É natural que nos primeiros anos da democracia os quadros dos políticos fossem muito jovens, tendo em conta o afastamento da elite política e autoritária.”

Mais do que interessados em partidos, os jovens interessam-se por causas, ativismos, e é para aí que dirigem os seus esforços. Segundo dados de Inquérito Social Europeu, de 2016, partilham onlineconteúdos sobre política (38%), assinam petições (27%), contactam políticos (15%), boicotam produtos (8%), usam símbolos de uma campanha (8%) e participam em manifestações (8%). Nuno de Almeida Alves acredita que os jovens estão menos disponíveis para se filiarem em partidos estruturados, como é o caso dos partidos do arco da governação, cujas práticas “são enfadonhas”: “Os jovens consideram mais relevantes causas das quais se sentem mais próximos, como são as questões LGBT ou os direitos dos animais.” O nível de instrução, lembra Pedro Magalhães, é também importante: “Tendo os jovens maiores níveis de instrução do que a geração que os precede, preferem partilhar valores de maior autonomia individual, o que é pouco compatível com instituições com uma forte componente hierárquica e de disciplina. Optam por formas de participação que não exijam esse tipo de compromisso e que garantam maior liberdade individual”. O investigador Nuno Sampaio, da Universidade Católica, tem uma opinião semelhante: “Há um desalinhamento que não é de agora. Vem dos anos 80. Os partidos tradicionais têm dificuldade em captar e agregar as preferências dos jovens. Há outras formas de participação mais ligadas a causas, a ativismos, que são intermitentes e não exigem um compromisso, nomeadamente partidário. É tudo mais volátil.”

Têm surgido, em toda a Europa, movimentos que vão ao encontro desta realidade líquida. Portugal escapou a este fenómeno. O sistema partidário tradicional, consolidado no último quartel do século XX, tem sido resiliente. Ao contrário do que aconteceu na vizinha Espanha, e noutros países europeus, onde apareceram movimentos como o Podemos ou o Ciudadanos, a estrutura partidária criada pela democracia portuguesa não foi desafiada. Os políticos, por seu lado (salvo raras exceções), também não se dirigem aos jovens nos seus discursos nem colocam os problemas deles no topo das prioridades, a começar pelas juventudes partidárias, que nalguns casos dizem “não haver assuntos de jovens”. Em termos de relevância eleitoral, lembra Nuno Sampaio, o peso dos jovens é cada vez menor: “Os partidos sabem disso e, mesmo inconscientemente, são muito pragmáticos.” Orientam, por isso, os discursos e as políticas para as pessoas que mais votam, ou seja, as mais velhas. “Não é por acaso que a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu estão a começar a dirigir-se aos jovens. Sabem que é uma preocupação. Se os jovens da geração Erasmus (próximos dos valores europeus) não votarem, outros votarão por eles”, continua o investigador da Universidade Católica.

QUERES SER AUTARCA?

Caso raro é o de Mação. O concelho do centro de Portugal já vai na segunda edição do programa “Queres Ser Jovem Autarca?”. Segundo o presidente da autarquia, Vasco Estrela, a iniciativa pretende “contrariar a baixa participação dos jovens nas instituições políticas”. Os jovens nascidos entre 2000 e 2003 foram convidados a apresentar um projeto e a candidatar-se ao lugar de autarca durante um ano, tendo como orçamento uma verba disponível de 7500 euros. “A ideia é estimular, incentivar, fazer com que os jovens façam parte da solução e saibam que há limites orçamentais.” No ano passado, a adesão foi reduzida, embora tenha acabado por vencer uma proposta que realizou um torneio de futebol entre as várias associações do concelho, desenvolvendo assim “laços de partilha”. Vasco Estrela garante que, este ano, há mais propostas. “Aquilo que estamos a fazer é muito simbólico, mas queremos despertar esse interesse, criar condições.”

A questão é saber se são os jovens que têm de adaptar-se ao sistema partidário ou se são os partidos que têm de rever a sua forma de existir perante a nova realidade. Pedro Magalhães diz que não sabe se alguma vez existiu uma forma de organizar partidos que fosse compatível com uma vasta participação juvenil. Ainda que admita que sim, lembra que “muitos dos jovens ainda estão a estudar, não têm experiência do mercado de trabalho, vivem em casa dos pais, logo, é natural que sintam menos que as decisões políticas tenham a ver com eles do que os mais velhos. É preciso ter tempo para adquirir uma identidade política. Como é mais difícil mobilizar os jovens, a relação custo-benefício dessa mobilização para os partidos é pior, o que por sua vez faz com que os jovens votem menos”. Nuno de Almeida Alves prefere não ser muito severo em relação a este tipo de avaliações: “As coisas são muito dinâmicas. À medida que os jovens vão trilhando a sua vida, vão tendo mais responsabilidades, vão-se ligando a outros elementos da vida física e política que atribuímos normalmente aos mais velhos.”