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Conheça os segredos da Pegada Ecológica dos municípios portugueses

Pela primeira vez no mundo foi feito, em Portugal, um estudo que integra o conhecimento da Pegada Ecológica com o cálculo da Biocapacidade à escala do município. Para já envolve seis concelhos mas o objetivo é alargá-lo no futuro a todo o país

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Almada, Lagoa, Bragança, Guimarães, Vila Nova de Gaia e Castelo Branco são os primeiros seis municípios portugueses que aceitaram o desafio de serem sujeitos à medição da sua Pegada Ecológica e da sua Biocapacidade, num projeto pioneiro a nível mundial promovido pela associação ambientalista ZERO, a Universidade de Aveiro e a Global Footprint Network (GFN), responsável internacional pelo conceito de Pegada Ecológica e da sua métrica.

É um desafio porque, com a divulgação desta iniciativa, estes municípios ficam publicamente expostos a resultados eventualmente mais positivos para a sua imagem em termos ambientais no caso da Biocapacidade, mas mais negativos no caso da Pegada Ecológica. Em todo o caso, como explica o coordenador do projeto "Pegada Ecológica dos Municípios Portugueses", Paulo Magalhães, que é dirigente da ZERO, "há várias leituras possíveis dos resultados obtidos no nosso estudo".

A Pegada Ecológica mede o uso da terra cultivada, florestas, pastagens e áreas de pesca para fornecer recursos e absorver resíduos em cada município. A Biocapacidade mede a área biologicamente produtiva disponível para regenerar esses recursos naturais.

Vamos então aos números, que se referem ao ano de 2016. Esta sexta-feira, o projeto divulgou publicamente os resultados para Almada numa sessão de apresentação na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, no Monte da Caparica (concelho de Almada). Hoje de manhã, sábado, foi a vez da apresentação dos resultados em Lagoa (Algarve), numa sessão que decorreu no auditório do Convento de S. José.

Grandes pegadas por causa do consumo de carne e peixe

Nestes dois concelhos, a alimentação representa a maior componente da Pegada Ecológica dos seus residentes, seguida dos transportes, sendo o consumo de carne e peixe o principal responsável pela elevada pegada da alimentação.

Em Lagoa, a Pegada Ecológica é de 3,5 hectares globais por habitante, o que corresponde a 17% abaixo da média nacional e 16% abaixo da média da região do Algarve. Quanto à Biocapacidade, é de 0,89 hectares globais por habitante, isto é, 30% abaixo da média nacional. Como diz um comunicado da ZERO sobre Lagoa, "o saldo entre Pegada Ecológica e Biocapacidade demonstra os desafios locais para inverter lógicas de consumo prejudiciais ao ambiente".

Com efeito, este saldo é negativo (-2,61 hectares globais), o que significa que a capacidade do concelho de Lagoa para regenerar os recursos naturais é inferior ao consumo desses recursos pelos seus 23 mil habitantes. Dito de outra forma, "seriam necessários 1,9 planetas Terra se toda a população mundial vivesse como um cidadão de Lagoa", constata a ZERO. Ou seja, os recursos naturais deste município não chegam para todo o ano o que, feitas as contas, significa que o chamado Dia da Sobrecarga da Terra em 2016 teria ocorrido a 4 de julho. Este dia marca a data em que a população mundial passa a usar mais recursos da Natureza do que esta pode renovar em todo o ano. No caso do concelho de Lagoa simboliza, assim, o dia em que começou o seu défice ecológico de 2016.

O peso da alimentação na Pegada Ecológica dos residentes de Lagoa é de 27%, seguido dos transportes com 19%. O consumo de carne (26%) e de peixe (26%) são os principais responsáveis pela elevada pegada da alimentação. A proteína animal corresponde, assim, a mais de 50% do total.

O Dia da Sobrecarga da Terra

Os resultados para Almada, que o Expresso noticiou ontem, sexta-feira, não são muito diferentes: o peso da alimentação é de 28% , com 26% para o peixe e 23% para a carne, e o peso dos transportes 21%. Mas há algumas diferenças. Com efeito, seriam necessários 2,4 planetas Terra se toda a população mundial tivesse o consumo de Almada, em vez das 1,9 Terras de Lagoa. E o Dia da Sobrecarga da Terra recuava para 27 de maio (4 de julho em Lagoa).

A que se devem estas diferenças? Se olharmos para os números da população e da área de cada um dos concelhos temos a resposta: Almada tem 170 mil habitantes (95 mil na cidade) que vivem num território de 70 km2, enquanto Lagoa tem apenas 23 mil habitantes (6 mil na cidade) num território maior, com 88 km2. Por isso a densidade populacional é de 2429 habitantes/km2 em Almada e de 261 habitantes/km2 em Lagoa, quase dez vezes menos. E se o saldo Pegada Ecológica/Biocapacidade é negativo nos dois municípios, acaba por ser maior em Almada (-3,84 hectares globais) do que em Lagoa (-2,61).

Os recursos naturais de Almada, um concelho muito urbanizado, são mais escassos para a sua população e as suas áreas rurais, onde a Pegada Ecológica costuma ser mais baixa e a Biocapacidade mais elevada, são muito pequenas em comparação com as de Lagoa. E devido a todos estes fatores demográficos e territoriais, a Pegada Ecológica de Almada representa 1,7% da pegada total de Portugal e a Biocapacidade 0,3% , enquanto Lagoa corresponde a 0,2% nos dois casos.

Várias leituras para os mesmos números

"Uma coisa são os valores por habitante e outra são os valores no contexto nacional", avisa Paulo Magalhães. "E os números apurados no nosso projeto não significam que o município de Almada seja pior gerido do que o município de Lagoa em termos ambientais, porque Almada tem um trabalho fantástico nesta área e foi o primeiro concelho do país, em 2003, a calcular a Pegada Ecológica e a introduzir o conceito no seu PDM".

No fundo há várias leituras para os mesmos números e tudo depende de fatores como o peso da área urbana e da área rural em cada município, o número de habitantes e a densidade populacional, o nível do seu poder de compra e do seu consumo, o perfil da atividade económica (mais indústria ou mais serviços), as suas tradições alimentares, as políticas de ambiente a nível local e regional, etc.

Mas as contas não são fáceis de fazer, há limitações relacionadas com as estatísticas disponíveis e as comparações no contexto nacional podem ser complexas. O coordenador do projeto dá dois exemplos: "o total nacional da Biocapacidade inclui também as áreas marinhas; e um dos indicadores estatísticos do INE que usamos nos nossos cálculos, o Índice do Poder de Compra por concelho, não inclui os turistas".