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Tancos. Ex-diretor da PJM desmente memorando que compromete ministro

Rafael Marchante

O coronel Luís Vieira confirma reunião no Ministério da Defesa mas garante não ter conhecimento do documento que o major Vasco Brazão diz ter entregado ao chefe de gabinente de Azeredo Lopes. Leia mais na edição de sábado do Expresso

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Joana Pereira Bastos

Joana Pereira Bastos

Editora de Sociedade

O ex-diretor da Polícia Judiciária Militar (PJM) desmente a versão contada pelo major Vasco Brazão ao juiz de instrução criminal, negando ter sido entregue ao chefe de gabinete do ministro da Defesa um memorando a relatar a operação de encobrimento montada em torno da recuperação das armas furtadas em Tancos.

O Expresso sabe que o coronel Luís Vieira, em prisão preventiva no âmbito da Operação Húbris, confirma ter estado, juntamente com Vasco Brazão no Ministério da Defesa, numa reunião com o então chefe de gabinete de Azeredo Lopes. Mas esse é o único dado que coincide com a versão do ex-porta voz da PJM.

Segundo o coronel, a reunião realizou-se logo a 19 de outubro do ano passado, um dia depois da recuperação das armas, tendo sido entregue ao chefe de gabinete do ministro, tenente-general Martins Pereira, um documento timbrado com o símbolo da PJM, em que não se relatava qualquer encobrimento mas apenas a versão oficial que a Judiciária Militar apresentara publicamente na altura: que a descoberta do arsenal se devera a uma chamada anónima para o piquete da PJM, indicando a sua localização num baldio na Chamusca.

Nesse "Relatório de Ocorrências", composto por várias páginas e anexos, relatavam-se as diligências feitas pelos inspetores para localizar o material de guerra que havia sido furtado quatro meses antes nos paióis de Tancos e encaminhá-lo para a base de Santa Margarida. Não se referia em lado nenhum que o telefonema anónimo tinha sido encenado por elementos da própria polícia, numa operação de encobrimento feita à revelia da PJ e do DCIAP.

Uma fonte contactada pelo Expresso assegura que o coronel Luís Vieira só soube dessa operação de encobrimento já no final do ano. Segundo a RTP, o ex-diretor da PJM enviou um segundo documento ao ministro em dezembro. Nesse relatório, estava escrito que a recuperação das armas tinha como objetivo uma antecipação à Policia Judiciária.

Já na versão do major Vasco Brazão, o encontro com o chefe de gabinete ter-se-à realizado algumas semanas após a recuperação do armamento, tendo sido entregue um memorando de apenas uma página e meia, sem assinatura, data ou timbre oficial da PJM, no qual se explicava a encenação, deixando explícito a verdadeira origem do suposto telefonema anónimo.

Nove arguidos na Operação Húbris

De acordo com o Ministério Público, a PJM e a GNR de Loulé fizeram "um pacto de silêncio" sobre a verdadeira história da recuperação das armas, que não foi conseguida através de uma denúncia anónima, como anunciaram oficialmente na altura, mas através de um acordo ilegal com um dos suspeitos do furto.

A Operação Húbris, desencadeada pelo DCIAP e Polícia Judiciária, tem nove arguidos, entre eles o ex-diretor da PJM, que se encontra em prisão preventiva, e o major Vasco Brazão, em prisão domiciliária. Há ainda mais três elementos daquele órgão de polícia criminal e três militares da GNR de Loulé. Foi também constituído arguido, atualmente em prisão preventiva, o ex-fuzileiro que segundo a PJ é um dos autores do furto e que terá feito o acordo com os militares para a entrega do arsenal em troca da sua imunidade.

A PJ soube do esquema através de uma carta anónima que descreve com minúcia toda a operação montada pela PJM e GNR de Loulé.

[atualizado às 14h55]