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Uma boa cerveja depende de água de qualidade, mas 60% das águas nacionais e da UE não são saudáveis

Sergei Bobylev/Getty Images

A revisão da diretiva quadro da água pode pôr em causa a qualidade deste recurso essencial à vida humana. De forma provocatória, a WWF/ANF lembra que a qualidade de cerveja vai diminuir se os europeus não exigirem água de qualidade. “As pessoas devem demonstrar o seu interesse e indignação pela forma como a Europa defende um recurso tão importante como a água”, sublinha o especialista Afonso do Ó

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Uma boa cerveja, depende de uma boa água e a garantia de que a água que nos chega à torneira continua a ser boa, está nas suas mãos. Esta é sinteticamente a mensagem da campanha provocatória #ProtectWater lançada esta terça-feira em em vários países europeus pela organização ambientalista WWF - World Wide Fund for Nature, que em Portugal é coordenada pela Associação Natureza Portugal (ANF/WWF).

O objetivo é alertar os cidadãos para a defesa da diretiva-quadro da água da União Europeia, que está em consulta pública até 4 de março de 2019, já que esta pode vir a ser fragilizada e, se assim for, teme-se que a proteção de todas as fontes de água, sejam rios, lagos ou aquíferos saia fragilizada.

"A implementação desmedida pelos Estados-membros da lei da água da UE é um crime em si, mas as tentativas desesperadas de enfraquecê-la são um passo demasiado grave”, alerta a WWF/ANF. A esta organização juntam-se outras associações ambientalistas europeias. Em conjunto lembram que apesar de os Estados-membros da UE se terem comprometido a garantir ter fontes de água de boa qualidade até 2027, certo é que “60% das águas nacionais e da UE não são saudáveis, porque os Estados-membros permitiram que fossem degradadas através das barragens e da agricultura insustentável”, entre outras ameaças. Em entrevista ao Expresso, Afonso do Ó, especialista em gestão da água e seca e consultor da WWF/ANF explica o que está em causa.

Lançaram uma campanha em defesa da água mas em que a cerveja está em destaque. Porquê?
Porque a cerveja é símbolo de um produto que exige muita água e para existir cerveja é preciso água de boa qualidade. Há cervejeiras que reconhecem que a sua capacidade de produzir boa qualidade depende da proteção e gestão sustentável das fontes de água da Europa e por isso é importante defender a diretiva quadro da água. Mas em defesa da água vão surgir outras campanhas com símbolos provocantes, um dos quais será o amor.

O que temem ou o que está em causa na revisão da diretiva quadro da água?
Pensamos que esta revisão pode permitir a redução das exigências de proteção ambiental existentes na atual diretiva. É muito importante que estas exigências se mantenham na lei. O objetivo da diretiva quadro da água é ter 100% das massas de água superficiais com bom estado ecológico.

Mas só 40% das águas superficiais europeias têm bom estado ecológico e 38% bom estado químico. Porque é tão difícil chegar aos 100%?
Tem a ver com o conflito entre diversos utilizadores. No Norte e Centro temos a indústria que liberta a sua poluição para as linhas de água e no Sul a agricultura intensiva. Em Portugal, por exemplo, a agricultura usa 80% da água que consumimos no país e tanto polui intensivamente essas fontes de água como é o sector que mais sofre quando há secas e escassez . Mas também existem outros problemas, como as barragens que criam bloqueios à vida dos rios e causam um impacto brutal ao nível da biodiversidade, mas também ao nível costeiro, impedindo os sedimentos dos rios de chegarem às praias.

Recentemente a associação Zero alertou para o facto de, apesar de 99% da água que nos chega à torneira em Portugal ser segura, continuarmos a ter problemas quanto à qualidade das nossas águas superficiais, já que cerca de 28% das águas de rios, lagos e albufeiras são más. E lembrava que apenas 58% das águas residuais recolhidas é efetivamente tratada. É assim?
Não tenho os números concretos, mas sim, anda por aí. Houve fundos comunitários para os municípios investirem em estações de tratamento de águas residuais (ETAR) que foram gastos, mas não há manutenção desses sistemas e cada vez que há falhas técnicas ficam a funcionar deficitariamente. Recordo que Lisboa só recentemente teve todas as casas ligadas à rede pública e que até há muitos poucos anos o esgoto de cerca de 100 mil habitantes ia parar ao rio Tejo.

Estima-se que 60% das águas nacionais e da UE não são saudáveis e não são monitorizadas. É assim?
A diretiva da água obriga a que sejam avaliados os parâmetros ecológico e bioquímico das águas. No caso português, por exemplo, a Agência Portuguesa do Ambiente cobre 90% dos indicadores bioquímicos, mas não vai além de 40% nos parâmetros ecológicos. É muito importante que as pessoas se preocupem e participem nestas discussões públicas e mostrem o seu interesse e indignação pela forma como a Europa defende um recurso tão importante como a água.