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Inovar para lá da ciência

A inovação nos medicamentos levou a uma maior esperança média de vida, mas agora é preciso cuidar dessa população mais envelhecida

Getty Images

Saúde: inovação não é só digitalização e medicamentos disruptivos. É mais eficiência e uma melhor gestão de recursos

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Há 15 anos, na Austrália, fizeram um inquérito a doentes de cancro em quimioterapia e perguntaram-lhes que problemas é que queriam ver resolvidos durante o tratamento. A resposta da maioria foi ter algo para minimizar as náuseas e os vómitos. Entretanto inovou-se e esses efeitos foram, de facto, minimizados e, portanto, voltou a fazer-se esse inquérito e a resposta das pessoas em tratamento foi que precisavam de mais estacionamento, ou seja, procuram mais conforto.

A história foi contada pelo presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), Paulo Cortes, já no final do terceiro “Conversas de Inovação”, uma parceria entre o Expresso e a Gilead, que esta semana era dedicado à saúde. E serviu para ilustrar que, neste momento, a inovação em saúde não passa só por criar aplicações para telemóveis para, por exemplo, ter consultas onde se quer, nem passa só pelo desenvolvimento de medicamentos de última geração que curem doenças ou que permitam ter menos efeitos secundários durante o tratamento.
Atualmente, inovar em saúde também deve incidir na melhoria da organização do próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS) e dos vários procedimentos e sistemas que, apesar de melhorias, ainda têm muitas ineficiências.
Inovar na organização

“Temos um sistema que tem tudo para funcionar melhor, mas podemos ganhar eficiência na forma como organizamos as nossas equipas de trabalho e como rentabilizamos o trabalho em equipa ou mesmo reforçar a autonomia de alguns técnicos”, sugere a subdiretora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), Marta Temido.

De facto, acrescenta Paulo Cortes, não se justifica “ter médicos a fazer trabalho administrativo e ainda há muito disso. Isso, sim, é um desperdício, porque eles podiam estar mais tempo com os doentes e podiam estar a investigar e a inovar”. E também podia haver muitos ganhos de eficiência e otimização de recursos se as pessoas que ficam curadas de cancro pudessem ser acompanhadas pelos médicos de família em vez de o serem nos sistemas centrais. Ou, ainda, se existisse mais autonomia para contratar para os centros de investigação, sugere o mesmo responsável.

Inovar em saúde é ainda apostar na inovação continuada, diz o diretor-geral da Gilead, Vítor Papão. “Não temos de ser sempre disruptivos”, diz. Ou seja, não temos de estar sempre a descobrir medicamentos novos que curem doenças, também temos de aplicar esses medicamentos de forma alargada ou apostar em medicamentos que tragam mais qualidade de vida às pessoas. Por exemplo, na hepatite C já descobrimos a cura, mas agora temos de procurar outros locais onde atacar o problema porque senão a inovação perde-se”, conclui. E isto é ainda mais relevante num momento em já se descobriram muitos medicamentos e se criaram novas tecnologias e novos métodos de diagnóstico que permitiram aumentar a esperança média de vida. E se as pessoas vivem cada vez mais vão precisar de mais cuidados na velhice, nota.

Mas o sistema vai precisar também de mais informação clínica sobre os doentes, os tratamentos que receberam e os resultados que tiveram para que depois se possa aplicar isso na prevenção. Porque a inovação também será muito na prevenção da doença.

Gerir melhor os recursos
Óscar Gaspar é vice-presidente do conselho-geral da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) e presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP) e para ele não há dúvidas: “A inovação tem sido essencial para vivermos melhor” e por isso é que tem de se deixar de olhar para a saúde enquanto despesa.

Aliás, a questão do financiamento foi um dos temas mais debatidos no encontro. Para Óscar Gaspar falta uma estratégia nacional que permita que o público e o privado funcionem ainda melhor em conjunto: “Tem de se direcionar os gastos do Orçamento do Estado para o que é realmente necessário.” No “investimento em equipamentos ou meios complementares de diagnóstico não precisamos do último grito da moda”, comenta. Mas, depois, “há medicamentos que, mesmo aprovados pelo Infarmed, não saem cá para fora porque isso traz despesa”, nota. Vítor Papão concorda, porque, “por definição, um medicamento quando chega ao mercado é porque é sustentável para o sistema”.

E, diz Óscar Gaspar, “esta discussão não tem nada que ver com a esquerda ou com a direita”, ou seja, tem de ser transversal a ideologias políticas. Na verdade, basta haver coragem política “para fazer determinadas escolhas”, conclui Marta Temido.

O QUE DISSERAM OS ORADORES

“Aumenta a esperança média de vida, logo há mais pessoas aptas para trabalhar e menos absentismo”
Óscar Gaspar
Vice-presidente do conselho-geral da CIP

“É confortável dizer que precisamos de mais dinheiro, mas primeiro temos de gerir melhor os recursos”
Marta Temido
Subdiretora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical

“Temos de melhorar a informação e os registos clínicos dos resultados obtidos”
Vítor Papão
Diretor-geral da Gilead Sciences

“Vamos ter mais população envelhecida... Podíamos desviar o apoio continuado para o privado”
Paulo Cortes
Presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia

O que se discute em saúde

IMUNOTERAPIAS
TENDÊNCIA: é um dos grandes temas em debate na classe médica e farmacêutica e ainda mais agora que foi anunciado, esta semana, que esta terapêutica ganhou o Nobel da Medicina. As pandemias, como o vírus Zika, são outros dos desafios que este sector tem pela frente atualmente

53
anos é a esperança média de vida de um doente com VIH. Há 30 anos era de 20 anos e com menos qualidade de vida. Isto mostra bem os benefícios que existem em inovar nos medicamentos

Um dos desafios do sector é saber como digitalizar a saúde sem perder o lado humano e ético

Textos originalmente publicados no Expresso de 6 de outubro de 2018