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Sociedade

Cães e cultura da violação ou obesidade como 'bodybuilding': os falsos trabalhos académicos que chegaram às revistas de referência

Justin Sullivan

É mais um caso de "apanhados" que expõe os baixos padrões de certas áreas do mundo académico onde vigora uma ideologia dominante. Vinte e dois anos depois do exemplo mais famoso

Luís M. Faria

Três académicos norte-americanos conseguiram publicar uma série de 'papers' com temas absurdos (e, nalguns casos, propostas pouco éticas) em várias publicações respeitadas na área do "construtivismo social" - estudos de identidade e similiares. Um dos trabalhos, o que deu mais brado, assentava supostamente na observação de cães em parques públicos. A autora alegava ter observado "respeitosamente" os genitais de cerca de 10 mil animais para confirmar se eram macho ou fêmea e extraía conclusões sobre a "cultura da violação", as quais pretendia aplicar aos homens. Estes, tal como os cães, também poderiam ser treinados para se comportarem melhor.

Ainda na linha do combate à masculinidade tóxica, outro 'paper' sugeria que se os homens enfiassem dildos no rabo isso poderia ser uma forma de os tornar "menos transfóbicos, mais feministas, e mais preocupados com os horrores da cultura da violação". Não menos surpreendentes eram as conclusões de um 'paper' sobre a Hooters, uma cadeia de restaurantes onde as empregadas usam roupas reveladoras. Ao que parece, os homens frequentam esses restaurante para ver (ou espreitar) o peito das empregadas.

Ao todo, 20 'papers' foram escritos e apresentados por um grupo que inclui um matemático, um professor de filosofia e uma especialista em teologia medieval sobre mulheres. O objetivo dos três foi expôr os baixos padrões académicos nas áreas em questão, todas elas ligadas à chamada "cultura da queixa". Pelo menos sete dos trabalhos sairam em revistas de referência, e outros sete foram aceites. Só seis terão sido recusados.

Não é a primeira vez que este tipo de truque é usado para expôr o clima de vale-tudo em certas zonas das ciências sociais. O exemplo mais famoso aconteceu em 1996, quando o físico norte-americano Alan Sokal escreveu um artigo que só continha absurdos mais foi aceite de forma respeitosa por uma das principais revistas de Ciência Social. O que o indignava particularmente Sokal era a apropriação abusiva, por parte de autores como Lacan, Derrida, Foucault e outros, de conceitos oriundos das ciências exatas como forma de dar um ar "científico" aos seus textos mas sem qualquer espécie de rigor ou compreensão.

Na altura houve quem acusasse Sokal de desonestidade, como aos autores que agora publicaram os sete 'papers'. Mas o propósito dele, como o deles, foi pôr à prova o sistema através de um esquema satírico que ultrapasse todas as barreiras que deviam controlar a qualidade do que sai nas publicações mais importantes. Designadamente, o sistema de 'peer-review' (avaliação dos trabalhos pelos pares), que não fica nada bem visto na história.

Entre os trabalhos que chegaram a ser publicados ou aceites, além dos acima referidos, havia um que defendia a solidariedade feminina radical usando citações literais de um capítulo do Mein Kampf; um que pretendia substituir a astronomia tradicional por uma astrologia queer e feminista (com "dança feminista interpretativa" referente aos movimentos das estrelas); um que tratava a obesidade mórbida como uma forma de 'bodybuilding' merecedora de ser incluído em competições; e um que consistia exclusivamente em texto criado por um gerador automático de poesia para adolescentes

Um outro 'paper' trata como violência sexual o ato de um homem que se masturba a pensar numa mulher, ainda que ela nunca chegue a ter conhecimento disso. "Definindo a violência metassexual da objetificação através da masturbação não-consensual", como diz o subtítulo. Tal como nos outros trabalhos, o facto de o autor se filiar expressamente numa "cultura da queixa" permitiu-lhe escrever e publicar um ostensivo disparate sem que ninguém pusesse objeções.

Ao fim de 10 meses, os autores do embuste satírico tiveram de se revelar, quando o 'paper' sobre a violação e os cães chamou a atenção de um grupo que analisa trabalhos académicos manhosos. Alertado, o diário "Wall Street Journal" começou a investigar, e depressa se descobriu que nem o académico que assinava o 'paper' nem a instituição para que trabalhava existiam realmente. A experiência ficou a meio, reconhecem os três académicos. Mas o seu ponto está provado.