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A tecnologia vai dominar as empresas. É o fim das profissões tal como as conhecemos?

85% das profissões que deverão existir em 2030 ainda não foram inventadas mas a automação está a reconfigurar o mundo do trabalho. Há já quem fale no fim do conceito de profissão tal como hoje o conhecemos.

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Nas contas do Institute for the Future e da Dell Technologies, cerca de 85% das profissões que deverão existir em 2030 ainda não foram inventadas. E apesar da generalidade das investigações conduzidas em torno do impacto da automação no emprego apontarem para a destruição de postos de trabalho humanos, o Fórum Económico Mundial defende — no estudo The Future of Jobs Report 2018 — que, na verdade, a tecnologia ajudará a criar, em termos líquidos, 58 milhões de novos empregos em quatro anos. Podem é não ser os empregos a que estamos habituados. Já pensou num cenário onde não existam profissões e os trabalhadores sejam referenciados apenas pelas suas competências?

A questão dos efeitos da automação no mercado de trabalho é muito mais profunda do que a contabilização de ‘vítimas’ entre os humanos que perdem emprego a favor das máquinas. É todo o conceito de emprego e de carreira que está em mudança. E, sim, fala-se no fim das profissões tal como hoje as entendemos, para dar lugar a uma lógica de competências que habilitam um profissional a exercer várias carreiras ao longo da vida ou em simultâneo (graças à crescente flexibilidade dos modelos contratuais). O cenário pode parecer-lhe irreal, mas o próprio Fórum Económico Mundial coloca a possibilidade em cima da mesa. Uma das grandes teorias que emergem do relatório The Future of Jobs 2018 é, exatamente a de que o futuro do trabalho não passa pela construção de uma carreira, mas sim de várias microcarreiras em profissões distintas.

Os números divulgados recentemente por Mordy Golding, diretor de conteúdos da plataforma de formação do LinkedIn, o LinkedIn Learning, parecem apontar no mesmo sentido. Hoje, explica, um profissional muda de carreira em média 15 vezes ao longo do seu percurso profissional. Nos profissionais millennials (nascidos entre meados da década de 90 e a viragem do milénio) o número será superior, já que pelas contas do gestor estes mudam pelo menos quatro vezes só nos primeiros dez anos. A tendência, defende Golding, é para que a velocidade de mudança acelere nos próximos anos. Com ela deverá surgir uma nova forma de organização do talento no mercado laboral. As competências dirão mais sobre um candidato e sobre o seu potencial de empregabilidade, do que a profissão para a qual se formou e que, certamente, não irá manter vida fora.

Um profissional será o seu mapa de competências

É exatamente isso que sugere a Universidade de Oxford, num estudo realizado em parceria com a Fundação Europeia para a Inovação (Nesta, sigla original), onde defende a necessidade de os profissionais trabalharem para consolidar um leque de competências críticas que, independentemente da sua formação técnica de base, lhes permitam manterem-se permanentemente competitivos no mercado e atrativos para os empregadores.
Por outras palavras, o que os investigadores de Oxford sugerem é que os profissionais do futuro valerão pelo seu mapa de competências e que um canudo em Engenharia servirá de pouco se o engenheiro não tiver desenvolvido um conjunto de skills que falem por si, em resultados práticos e concretos, no mercado. Nesse mapa estarão, segundo o Fórum Económico Mundial, competências como o pensamento analítico e a inovação, a criatividade, as competências de programação e análise, a influência social, a aptidão para a resolução de problemas complexos, a inteligência emocional, programação e outras que rapidamente se tornarão imperativas para as empresas. E garante o fórum, em 2022 é isto que ditará as contratações.

Para os especialistas em recrutamento, preparar-se para ter competências e não necessariamente uma profissão, é a estratégia de gestão de carreira que faz mais sentido num cenário de acelerada mudança tecnológica e crescente flexibilidade laboral. Mas pensar em competências em vez de profissões coloca desafios acrescidos aos profissionais. O maior é estar, permanentemente, à frente das necessidades das empresas e qualificar-se antecipadamente para lhes dar resposta. Segundo as contas do FEM, a mudança do paradigma das profissões para o paradigma das competências fará dos profissionais do futuro eternos aprendizes que, “em média, necessitarão, em 2022, de mais 101 dias de formação do que atualmente para se manterem competitivos no mercado”.