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Manuel Heitor, ministro da Ciência: “Queremos fazer de Portugal um laboratório vivo da democratização do Espaço”

José Sena Goulão/lusa

O ministro apresentou o projeto e o concurso internacional para a construção de uma base espacial na ilha de Santa Maria, nos Açores, no Congresso Internacional de Astronáutica (IAC 2018) em Bremen, na Alemanha, onde participam 4500 representantes de empresas e agências espaciais. O IAC é o maior congresso do mundo na área do Espaço

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

em Bremen (Alemanha)*

Redator Principal

O projeto e o concurso internacional para a instalação de uma base espacial em Santa Maria, no Açores, "é uma iniciativa que traz uma nova centralidade no Atlântico", afirmou Manuel Heitor no Congresso Internacional de Astronáutica (IAC 2018), o maior evento do sector espacial em todo o mundo, que está a decorrer em Bremen, na Alemanha, com a participação de 4500 pessoas. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior acrescentou que o objetivo do Governo "é fazer de Portugal um laboratório vivo da democratização do Espaço", numa altura em que estão a crescer oportunidades únicas de acesso ao Espaço para os pequenos países como Portugal, no mercado emergente dos minissatélites e lançadores (foguetões).

Manuel Heitor falava para mais de cem representantes de empresas e agências espaciais, bem como jornalistas dos principais media da área do Espaço, num dos auditórios do Centro de Congressos de Bremen, acompanhado por Paulo Ferrão, presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), e por Francisco Wallenstein, da Estrutura de Missão dos Açores para o Espaço (EMA-Space).

Há mais de 90 projetos ativos em todo o mundo para a construção de bases espaciais de lançamento de pequenos satélites como a prevista para os Açores, recordou o ministro, "mas são poucos os que têm uma localização estratégica como a ilha de Santa Maria no meio do Atlântico, entre a Europa, a América e África". Por outro lado, o sector espacial "não é estranho à ilha, porque esta já tem várias estações de rastreio de satélites instaladas e prepara-se para ter uma nova antena de 15 metros de diâmetro para reforçar a capacidade da estação da Agência Espacial Europeia" (ESA).

Há uma janela de oportunidade de seis meses

As manifestações de interesse de empresas e organizações espaciais no concurso lançado por Portugal têm de ser entregues até 31 de outubro, porque o tempo é curto face à concorrência de outros projetos no Atlântico (Escócia, Suécia e Noruega). "Mas há uma janela de oportunidade e o processo deverá estar concluído dentro de seis meses, de modo a que no verão de 2019 haja um consórcio que possa concretizar o projeto, para que os primeiros lançamentos de satélites ocorram em 2021", destacou Manuel Heitor.

O júri do concurso português esteve no congresso de Bremen e é constituído por Jean-Jacques Dordain, antigo diretor-geral da ESA (coordenador); Gaele Winters, ex-diretor da ESA para os lançadores; Dava Newman, que já foi astronauta, administradora da NASA e diretora do programa MIT Portugal; e Byron Tapley, fundador do Centro de Estudos do Espaço na Universidade do Texas em Austin (UTA).

O ministro recordou que o estudo inicial do projeto feito pela UTA e outros estudos preparatórios "foram discutidos durante um ano com instituições dos EUA, Europa, Índia, Brasil e outros países". Assinalou que Portugal tem um programa espacial aprovado pelo Governo, a Estratégia Portugal Espaço 2030, e prepara a criação de um agência espacial. E explicou que o concurso internacional "é um concurso aberto, sem restrições, onde todas as boas ideias são bem recebidas, e todo o processo foi articulado com a ESA".

Isto significa que o Portugal pretende "negociar com os promotores das propostas a concurso a forma mais adequada de as concretizar na ilha de Santa Maria". E aposta "numa base espacial aberta, onde haja uma partilha de responsabilidades entre as empresas, o Governo e o Governo Regional dos Açores".

O mercado está a mudar depressa

Numa visita de uma delegação portuguesa liderada por Manuel Heitor à sede da maior empresa espacial alemã, a OHB, em Bremen, o seu presidente executivo, Marco Fuchs, reconheceu que "o Espaço é um negócio que está a crescer depressa e a tornar-se cada vez mais relevante, em especial nas comunicações, na navegação e na observação da Terra". O gestor e empresário alemão reconheceu que com a emergência dos pequenos satélites e a evolução tecnológica, "o mercado dos lançadores está a mudar, há novas oportunidades, e hoje podemos fabricá-los de uma maneira muito diferente, que não tem de ser tão sofisticada mas baseada numa otimização que aposte na simplicidade e na elegância do design".

No Congresso Internacional de Astronáutica, Tiago Rebelo, do Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto (CEIIA), confirmou aos jornalistas portugueses o interesse no concurso para a instalação de uma base espacial nos Açores, mas em parceria com empresas industriais nacionais e internacionais. "O nosso objetivo vai muito para além do desígnio comercial, porque queremos também acumular valor e conhecimento no panorama nacional na área do Espaço, catapultando não apenas o CEIIA mas toda a indústria que está envolvida, com novos produtos e serviços".

Uma iniciativa como esta "permite o aparecimento de uma nova indústria, de novos atores, e a aquisição de novas capacidades e competências". O CEIIA vai, por isso, "utilizar as competências que já criou nas indústrias automóvel e aeronáutica, onde tem uma grande experiência a trabalhar com grandes empresas internacionais, para desenvolver as tecnologias de produção de um futuro lançador (foguetão), os novos materiais e a própria engenharia associada, porque é aqui que tem know-how". Tiago Rebelo acrescenta que o CEIIA "está também interessado em trabalhar na operação do futuro porto espacial".

Ivo Vieira, da Lusospace, também presente no Centro de Congressos de Bremen, recorda que a empresa espacial portuguesa já trabalha com os alemães da OHB na área dos satélites. Quanto à base espacial nos Açores, a Lusospace "está interessada na parte da montagem dos lançadores e dos satélites, se for feita com base na tecnologia da realidade aumentada" que a empresa desenvolve. "Com o uso de óculos de realidade aumentada conseguimos colocar informação virtual por cima de um satélite ou de um foguetão, a dar informações ao operador sobre como e onde colocar as peças, qual a ordem das tarefas, etc., aumentando a eficiência, baixando os custos de montagem, produzindo mais rapidamente e melhorando a qualidade do sistema, porque a realidade aumentada evita erros humanos".

* O jornalista viajou a convite da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)