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Omnidea, a pequena empresa portuguesa que triunfou na cidade do Espaço

A Omnidea-RTG forneceu componentes para o satélite de observação da Terra Sentinel-3B, da Agência Espacial Europeia

ESA/ATG medialab

É uma situação pouco frequente mas aconteceu na região de Bremen, a grande cidade espacial da Alemanha, onde uma pequena empresa espacial portuguesa comprou uma empresa industrial alemã onde está a fabricar componentes para satélites e foguetões

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Chama-se Omnidea-RTG, está localizada a 9 km de Bremen, na Alemanha, e é uma empresa industrial comprada pela empresa espacial portuguesa Omnidea, que tem a sua sede no Madan Parque, o parque tecnológico da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, no Monte da Caparica.

A PME alemã faz a montagem, integração e teste de componentes para satélites e lançadores como o Vega, o foguetão mais pequeno usado pela Agência Espacial Europeia. E desenvolve a sua atividade na grande cidade espacial da Alemanha, considerada um dos principais centros espaciais da Europa devido à concentração de empresas do setor.

"Fazemos a montagem completa de sistemas de propulsão para satélites e o nosso mercado funciona para pequenas séries", explica Nuno Fernandes, diretor-geral da Omnidea-RTG, numa visita à empresa organizada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). É por isso que as válvulas para a passagem de gás nos propulsores produzidas na empresa, apesar de poderem caber na palma da mão, chegam a custar 35 mil euros cada uma. Há várias razões para isso: "além de fabricarmos pequenas séries, usamos materiais caros como o titânio, equipamentos também caros como as salas limpas e uma campanha de testes muito extensa, que obviamente encarece os nossos produtos".

Componentes sujeitas a 25 testes antes de serem vendidas

Com efeito, ao contrário de outros setores industriais, "quando as válvulas e outras componentes vão para o Espaço não pode haver manutenção", adianta o gestor. Ricardo Penedo, engenheiro aeroespacial e gestor de projeto na Omidea-RTG exemplifica: "Se um automóvel se avaria vai para a oficina, mas no Espaço não podemos fazer isso com um satélite". Por isso as válvulas são sujeitas a uma campanha de 25 testes antes de serem vendidas. A empresa está equipada com salas limpas ( "clean rooms"), onde o ambiente é controlado em termos de temperatura e partículas no ar. E a "clean room" mais sofisticada "tem uma estação de limpeza ultralimpa que garante que nenhuma peça é contaminada", assegura Nuno Fernandes.

"Esta câmara limpa torna-nos competitivos face à Airbus, que tem fabricado os mesmos componentes do que nós, e na Europa em geral". Mas isto acontece nas pequenas séries, "porque quando falamos do mercado das constelações de satélites e da produção em massa, a realidade é outra", esclarece o diretor-geral. A Omnidea-RTG fatura um milhão de euros por ano, o que corresponde a cerca de 40% das vendas do Grupo Omnidea (2,5 milhões de euros).

Quanto ao concurso internacional para a instalação de uma base espacial na ilha de Santa Maria, nos Açores, que Portugal apresentou esta semana em Bremen no Congresso Internacional de Astronáutica, Nuno Fernandes diz que a sua empresa está interessada "em fornecer componentes para um possível lançador que venha a ser desenvolvido". Paulo Ferrão, presidente da FCT, acrescenta: "Seria bom que a maior empresa espacial alemã, a OHB, ou outra grande companhia, viessem a integrar componentes da Omnidea-RTG num possível lançador e em pequenos satélites de 50 kg a 200 kg, bem como em constelações de satélites".