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“Há qualquer coisa em nós de que não gostam, talvez o riso, esse desperdício”: Manuel Alegre, honoris causa

“É com uma certa aflição que me apresento hoje, grato e comovido. Honra de grande significado e desassossego porque me obriga a ser mais do que eu próprio”, apresentou-se Manuel Alegre esta terça-feira, dia em que foi distinguido na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa com o título honoris causa. “A homenagem da universidade foi uma homenagem de Portugal”, disse Marcelo

Com poemas de Alegre, cantados e proclamados, e palavras carregadas de memória e desassossego: foi assim que Manuel Alegre recebeu esta terça-feira o título de doutor honoris causa pela Universidade de Lisboa pelo "reconhecimento do papel da poesia de Alegre, que se constitui um marco do que de melhor o género lírico em Portugal apresenta". Foi um poeta com "aflição" mas agradecido, sereno mas vigoroso e vigilante no verbo.

A cerimónia não começou à hora prevista. Antes das 15h começaram a chegar algumas personalidades próximas do poeta e também do Partido Socialista. Este evento marcava também o reencontro entre António Costa e Joana Marques Vidal, a ainda procuradora-geral da República que foi alvo de debate nacional sobre a sua recondução ou não e que vai ser substituída por Lucília Gago. Se se cumprimentaram (é provável, mas não foi possível registar o momento), Costa e Marques Vidal não trocaram muitas palavras, ao contrário do que fizeram Carlos César, o presidente do PS, e Ramalho Eanes com a futura ex-PGR.

No palco, ao lado de Alegre, surgiram Leonor Beleza, Marcelo Rebelo de Sousa, António Serra (reitor da Universidade de Lisboa) e Paula Mourão, investigadora e madrinha do laureado.

A Aula Magna da Universidade de Letras recebeu algumas dezenas de convidados e permitiu a entrada de alunos e curiosos. A cerimónia começou praticamente após a chegada de António Costa, passavam 15 minutos da hora marcada para o início do evento (15h), com o fundo do palco duro e esbelto a subir, como se fossem cortinas, convidando a entrar os protagonistas. O primeiro-ministro sentou-se ao lado do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues.

Paula Mourão foi a primeira a intervir. A investigadora começou por assinalar a “justa homenagem, que nobilita a instituição”. Mencionou também a “consciência literária nas raízes de múltiplas tradições” do ex-candidato à presidência da República (2006 e 2011). Mourão falou numa obra, que arrancou em 1965 com o livro “Praça da Canção”, que “luta contra o apagamento da História” e que “representa na literatura portuguesa um caso de coesão e consciência”. Manuel Alegre, define a investigadora, é um “homem de um só parecer, de um só rosto e de uma só fé, antes quebrar do que torcer”.

ANTÓNIO COTRIM/Lusa

Seguiu-se a entrega das insígnias. Às 15h26, Manuel Alegre ganhou um novo título, algo que já acontecera com a italiana Universidade de Pádua, em novembro. Em fevereiro, já este ano, recebeu o Prémio Camões 2017.

Antes de se dirigir aos presentes, Manuel Alegre ouviu o ator Diogo Dórdio declamar alguns dos seus poemas. O silêncio absoluto na sala engrandecia o momento. Alegre ia ajeitando-se na cadeira, quem sabe estranhando as suas palavras saírem de um outro homem.

“Há qualquer coisa aqui de que não gostam
da terra das pessoas ou talvez
deles próprios
cortam isto e aquilo e sobretudo
cortam em nós
culpados sem sabermos de quê
transformados em números estatísticas
défices de vida e de sonho
dívida pública dívida
de alma
há qualquer coisa em nós de que não gostam
talvez o riso esse
desperdício”

“Resgate” foi um dos poemas ouvidos na Aula Magna. Depois de alguns minutos embalados pela poesia do poeta político, Manuel Alegre assumiu finalmente o lugar para onde disparavam os holofotes. Não sem antes cometer uma pequena gafe, regada com alguns risos sonoros da audiência (começou a falar numa mesa de apoio, que tinha um microfone, e não no púlpito onde deveria estar).

“É com uma certa aflição que me apresento hoje, grato e comovido. Honra de grande significado e desassossego porque me obriga a ser mais do que eu próprio”, começou por dizer. Depois de assinalar o regresso à universidade, “não à de origem” (de onde foi “obrigado a exilar”), e de deixar algumas palavras elogiosas sobre Paula Mourão, chegou ao palco o poeta vigilante, o político de 100 batalhas.

ANTÓNIO COTRIM/Lusa

Naqueles 20, 25 minutos, a sua voz tocou na história do movimento estudantil, na necessidade de não diminuir epopeias nem esquecer os fantasmas e atrocidades do passado lusitano, no 25 de Abril e ainda na Guerra Colonial, que “é difícil explicar” aos mais novos. “Eu fui, ouvi o assobio da bala, escrevi poemas na guerra… Aprendi que cada um de nós tem várias vidas, vários eus e vários outros.”

E continuou: “O meu poema rimou com a minha vida. (...) Nunca deixei de ter uma visão poética de Portugal, uma visão integradora em que se misturam poemas e batalhas. (...) Vivi sempre a um certo ritmo, um ritmo de escrita e de ação. E se o ritmo é uma visão do mundo, como escreveu Octávio Paz no seu ‘O Arco e a Lira’, ambos estiveram sempre ligados em mim a um grande sentido de urgência. Sempre que ouvia dizer que a paciência é revolucionária, eu retorquia que revolucionária só a impaciência”.

"Solitário” na hora de escrever (“nunca pertenci a nenhuma corrente, nenhum café literário, nenhum grupo”), Alegre esboçou um quadro do mundo atual. “Vivemos um período em que a única certeza é a incerteza. Esquecimento a ganhar à memória, populismo como novo fantasma. Os poetas são mais precisos”, sentenciou, lembrando que Portugal vai morando longe desses cenários. Afinal, “as nossas principais forças são a língua, História e cultura”.

O homem que espera continuar a “rimar” o seu poema com a sua vida definiu-se em poucas palavras pelo meio desta intervenção. “Perguntam-me porque, sendo poeta, me envolvi na política…”, lançou a dúvida, esperando poucos segundos para revelar a resposta: “Por isso mesmo!”. Ganhou dezenas de sorrisos.

Os aplausos demorados e sentidos, de pé, chegaram depois da última palavra do poeta. Cristina Branco, a fadista, fechou a cerimónia com dois fados que deram voz a poemas do novo doutor honoris causa da Universidade de Lisboa, Manuel Alegre.

Depois do "porto de honra" no Salão Nobre, Marcelo Rebelo de Sousa, até ali muito discreto, reagiu finalmente à distinção da Universidade de Lisboa. "Há muitas décadas, desde o tempo da ditadura, foi constituinte, escreveu o preâmbulo da Constituição. Na [Assembleia] Constituinte, pude ver quão importante foi o seu contributo. Nunca deixou de rimar o poema com a vida, a poesia com a vida. Quer enquanto poeta, quer enquanto protagonista da vida portuguesa, [Manuel Alegre] esteve durante estas décadas ao serviço de Portugal. A homenagem da universidade foi uma homenagem de Portugal."

ANTÓNIO COTRIM/Lusa