Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Salvar vidas e ganhar com isso. Porque não?

A upCells, unidade-piloto de produção para terapia celular, foi inaugurada pelo ministro 
da Ciência, Manuel Heitor

Nuno Fox

Terapia: investigadores da Universidade de Coimbra estão a desenvolver uma vacina para tratar tumores do pâncreas e do pulmão em parceria com uma empresa farmacêutica

Cristina Bernardo Silva

Quando uma universidade pública se alia à indústria farmacêutica, o resultado pode ser mais do que o simples ganho financeiro. Pode ser uma vacina contra o cancro que irá beneficiar doentes oncológicos, contribuindo para uma melhor saúde pública.

É pelo menos o que esperam a Universidade de Coimbra (UC) e a Tecnimede, que inauguraram esta semana na cidade dos estudantes o laboratório upCells. Trata-se de uma unidade-piloto de produção para terapia celular, que ambiciona desenvolver — através do projeto de investigação immunoDC@cancerstemcells — “uma vacina de células dendríticas direcionada para células estaminais cancerígenas dos tumores pancreáticos e das não pequenas células do pulmão”. A explicação foi dada na Reitoria da UC pela investigadora Teresa Cruz, que apresentou o projeto durante a conferência “Novas Fronteiras da Saúde — Do Saber à Investigação”, promovida pelo Expresso e pela Tecnimede.

A abertura do encontro coube ao ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, pouco depois da inauguração daquela unidade pioneira instalada na antiga Faculdade de Medicina. Manuel Heitor realçou que se debate atualmente na Europa “um novo programa-quadro de investigação e inovação, no âmbito do qual estão a ser pensados mecanismos de financiamento da atividade de investigação em torno de grandes missões”. Uma delas é o objetivo europeu de “reduzir na próxima década para metade as mortes por cancro”. E este laboratório é “particularmente importante para melhor nos inserirmos naquilo que de melhor se faz na Europa e nas redes europeias”, afirmou.

O painel centrou-se na importância para a saúde pública das relações entre as universidades e as farmacêuticas. Na opinião de Amílcar Falcão, vice-reitor da UC, uma das grandes vantagens da cooperação com a Tecnimede é poder ultrapassar-se mais facilmente “uma barreira grande quando se quer dar o salto” da investigação básica para a pré-clínica. Também Pedro Vilarinho, diretor-geral da HiSeed Tech — organização sem fins lucrativos financiada por empresas privadas para promover a inovação e o empreendedorismo —, considera ser este o maior obstáculo. “A investigação pré-clínica é muito cara. Se vamos falar com investidores para investirem nas nossas startups, todos eles nos dizem: façam os ensaios pré-clínicos e depois apareçam”, contou.

Confiante na saída da investigação do laboratório e na sua aplicação em doentes oncológicos, a CEO da Tecnimede, Maria do Carmo Neves, disse acreditar na futura utilização da vacina em ensaios clínicos. “O que não está garantido é que a investigação seja eficaz. Isso resultará dos dados estatísticos dos ensaios.” Já quanto à associação com a universidade, a empresária assegura não ter dúvidas: “A academia é o lugar próprio para este tipo de investigação. Eles é que têm o conhecimento, não somos nós.”
Investigadores empresários

Teresa Mendes, diretora do Instituto Pedro Nunes — criado por iniciativa da UC para fazer a ligação entre a investigação e as empresas —, explicou que a instituição que representa tenta “identificar potencial de investigação” na universidade, “trazendo-o para mais perto do mercado”, além de servir de “incubadora de empresas”. Segundo a responsável, “normalmente, os investigadores estão focados na sua investigação, e a muitos deles passa ao lado a possibilidade de haver uma aplicação prática”. Mas outros há que “têm sensibilidade” para a aplicação. “Tenho na nossa incubadora imensos casos de investigadores que se tornaram empresários”, garantiu.

Amílcar Falcão, que se define como um “otimista moderado”, alertou ainda para as consequências negativas de se estar a viver uma fase de grande expansão de transferência de tecnologia e uma fase de contração de investimento em investigação. “Acho que chegará um momento em que a montante não se tem nada para pôr a jusante”, vaticinou.

Os vários intervenientes debateram também a questão da transparência no acesso a apoios do Estado. Artur Mimoso, vogal executivo da administração dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, defendeu que muito do que se pode fazer em Portugal “tem empancado por falta de conhecimento”, devido à dúvida sobre “se podemos ou não estabelecer parcerias público-público, público-privadas”. Alertando para a criação, este ano, da figura da Parceira para a Inovação, Artur Mimoso explicou que “o que sempre se fez está agora regulado” e que “o Serviço Nacional de Saúde tem um papel, nem que seja de clarificação desta questão nas universidades”.

Citações

A investigação é paga pelos impostos de todos nós. Portanto, deve ser devolvida à sociedade. Devemos ter a preocupação de alinhar a investigação com aquilo de que a sociedade precisa
Amílcar Falcão
Vice-reitor da Universidade de Coimbra

Neste momento, penso que as empresas de aproximaram da academia, a academia das empresas, e acho que há casamentos perfeitos, como é o nosso caso
Maria do Carmo Neves
CEO do grupo Tecnimede

Há uns anos, falava-seque o saber vinha da universidade para a empresa. Isso está completamente esbatido. Neste momento, a universidade sabe que também vai aprender com a empresa
Teresa Mendes
Diretora do Instituto Pedro Nunes

É impossível um país ter progresso se não se falar com quem sabe do negócio. E, se alguém quer ver, as inspeções que inspecionem
Artur Mimoso
Vogal dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde

Devemos incidir na investigação básica, mas falta passar a primeira barreira — da investigação científica aos ensaios pré-clínicos e, mais tarde, à parte inicial dos clínicos
Pedro Vilarinho
Diretor-geral da HiSeed Tech

Laboratório

2022
é o ano em que a upCells espera começar a testar a vacina em humanos, através de ensaios clínicos ou sob regime de isenção hospitalar

50%
de redução das mortes por cancro em dez anos é um objetivo europeu ao qual projetos como o da upCells podem dar um contributo importante

10
milhões de euros foram investidos neste laboratório nacional de terapia celular, que está a desenvolver um tratamento para combater tumores do pâncreas e do pulmão

9
pessoas compõem a equipa alocada ao projeto upCells até ao momento

Textos originalmente publicados no Expresso de 29 de setembro de 2018