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Vá com um pé, venha com outro

A oferta de sapatos no mercado é cada vez maior, depende sempre de quanto se quer gastar e da exclusividade que se está disposto a pagar. Será o preço mais importante do que a qualidade?

A nobreza dos materiais, a mão de obra qualificada, o design, a qualidade de construção, o conforto, o volume de produção. Tudo características de uma indústria portuguesa cada vez mais forte dentro e fora de fronteiras: a do calçado. Portugal é hoje uma das potências mundiais no fabrico de calçado com qualidade e design, capaz de andar lado a lado com a sempre bem vista Itália. Em 2017, o sector exportou 82 milhões de pares de sapatos no valor de 1965 milhões de euros, o que correspondeu a um crescimento de 3% face a 2016, tendo como mercados mais fortes países como a França, Holanda e Alemanha. O sector do calçado exporta hoje cerca de 95% da sua produção para 152 países nos cinco continentes.

€55,95 Zara e €189 Ambitious

€55,95 Zara e €189 Ambitious

Um dos nomes mais fortes desta indústria é Luís Onofre, sinónimo de marca de luxo e presidente da APICCAPS, a associação portuguesa dos industriais do calçado. Para ele as grandes diferenças entre os sapatos portugueses e os de marcas de fast fashion como a Zara, Massimo Dutti, Mango ou H&M, entre outras, é a “mão de obra made in Portugal, 100% portuguesa, a qualidade de construção e a dos materiais utilizados. Materiais nobres que se calhar não são utilizados por marcas de grande consumo, daí conseguirem fazer um preço mais baixo. Isso por si só já faz a diferença”.

São vários os fatores de diferenciação entre marcas portuguesas de calçado e o calçado que se vende nas lojas de grande consumo, com linhas de produção muito mais rápidas e industrializadas, quase como linhas de montagem. É verdade que a diferença de preços entre uns e outros pode ser enorme, mas tudo depende daquilo que se quiser calçar. Prefere-se um par de sapatos que dure dois anos e que custe 39,90 euros, ou um que possa durar 10 ou 20 anos e custe 390? É luxo ou compra inteligente? Massificação ou exclusividade?

€99,95 Massimo Dutti e €270 Centenário

€99,95 Massimo Dutti e €270 Centenário

As marcas de grande consumo têm cada vez mais gabinetes dedicados ao design próprio dos sapatos que vendem. De vez em quando ainda se encontram artigos muito parecidos com as últimas tendências que vão aparecendo nas semanas de moda internacionais. As opiniões dividem-se nestes casos: há quem ache absurdo porque são cópias, outros há que veem o fenómeno como um trabalho de democratização da moda. É a qualidade versus a tendência e o consumo imediato. E, talvez mais importante, a diferença muitas vezes abismal de preço.

Calçado para algumas carteiras

Luís Onofre, Centenário, Friendly Fire, Dark Collection e Ambitious. Peguemos nestes cinco exemplos de marcas portuguesas e façamos um exercício comparativo, de valor, com o que se pode encontrar nas lojas de algumas marcas de fast fashion. Nas opções mais formais, de clássicos para homem, a Centenário, uma empresa de Cucujães, Oliveira de Azeméis, com 77 anos, sem linhas automáticas de fabrico, aposta tudo na qualidade da matéria-prima e no tempo de construção.

€99,95 Massimo Dutti e €150 Dark Collection

€99,95 Massimo Dutti e €150 Dark Collection

“Não fabricamos ao segundo, gastamos mais ou menos tempo num par de sapatos consoante seja preciso para que no final a qualidade seja a máxima”, diz Hugo Ferreira, um dos responsáveis da empresa. É por essa razão que uns Goodyear da Centenário, uns sapatos que levam duas coseduras, uma interior e outra exterior, tornando-os mais resistentes e capazes de, “se bem tratados, durar uma vida”, feitos com uma pele de boa qualidade, custam, em média, 250 euros.

Num estilo mais desportivo, mais virado para a moda e com alguma intenção de proporcionar alguns sapatos no gender (sem género definido), a Ambitious, existente há 25 anos, procura “o cliente que cuida da imagem e ao mesmo tempo gosta de ter qualidade nos pés; uma boa pele, uma sola confortável e um bom forro. As nossas sapatilhas são feitas à mão”, garante Miro Teixeira, responsável comercial da marca.

Para as mulheres que gostam de sapatos personalizáveis, a Friendly Fire nasceu em Guimarães, em 2015, e é o reflexo irreverente das suas criadoras, Alexandra Castro e Rute Marques. A ideia da marca é ser capaz de proporcionar “atrevimento e arrogância às clientes que calçam os sapatos. Arrogância porque não são para qualquer mulher, tem de ter atitude, um estilo próprio e que não tenha medo de arriscar. A ideia é que uma mulher calce os nossos sapatos e não encontre ninguém com uns iguais, diz João Fernandes, comercial da marca.

€34,99 H&M e €197,50 Friendly Fire

€34,99 H&M e €197,50 Friendly Fire

Já aqui falámos de Luís Onofre, sinónimo de sapatos de luxo e exclusividade para mulheres. “É importante que as pessoas reconheçam o trabalho dos criadores. A propriedade industrial, a criatividade e o esforço que é preciso fazer para que se consiga oferecer os melhores sapatos possíveis. Eu tento que nos meus sapatos haja um fator de diferenciação enorme para que as pessoas sintam que o que têm nos pés é um produto exclusivo.”

€39,95 Zara e €690 Luís Onofre

€39,95 Zara e €690 Luís Onofre

A história da Dark Collection nasce em Felgueiras e começa com os sapatos formais para homem. Peles vegetais, mais naturais, com as “raízes” da pele a ver-se. Sem grandes camadas de cor, mais virgens e, por isso, mais caras. “Acho que o consumidor final consegue perceber a qualidade da pele e, por essa razão, consegue entender que o preço dos sapatos tem de ser de 150 euros e não pode ser mais barato”, explica Pedro Sampaio, diretor comercial da marca.