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João Morais: “A insuficiência cardíaca será a epidemia dos próximos anos”

Cedric Ribeiro/ getty Images

As mortes por doenças do sistema cardiovascular têm vindo a descer continuamente nos últimos 15 anos, embora continuem a ser a principal causa de morte em Portugal. A aposta na literacia de saúde e a adoção de hábitos saudáveis serão vitais para alterar esse resultado, diz ao Expresso João Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC). Este sábado, dia 29 de setembro, assinala-se o Dia Mundial do Coração

Os portugueses têm noção do risco de vir a desenvolver doenças cardiovasculares?
Globalmente a resposta é não. Os portugueses ainda não têm a noção clara do risco cardiovascular. Mas há progressos muito grandes, nem tudo é negativo. Um inquérito recente da SPC feito a cerca de 1000 pessoas tinha uma pergunta muito ilustrativa – ‘Se tinham excesso de peso’ – e 43% das pessoas responderam que sim, mas apenas 10% admitiu que tinha uma má alimentação. Por sua vez, 32,8% reconheceram que a dieta é um dos principais comportamentos para a prevenção da doença cardiovascular. É uma discrepância muito grande. As pessoas não reconhecem que são parte do problema, que também são responsáveis por isso. A obesidade, a hipertensão arterial ou a diabetes não são obras do acaso.

No fundo, as pessoas não reconhecem que não são vítimas, que são também parte do problema. Há ainda um conhecimento reduzido sobre o tema. Ainda que seja visível que cada vez mais pessoas vão caminhar na praia e fumam menos, sobretudo homens. A população está a ser cada vez mais alertada pelos media e redes sociais. Todos estes meios têm um papel importante, há cada vez mais informação e mais respostas. Os médicos também têm alertado cada vez mais para a importância do exercício físico e da alimentação saudável e equilibrada. Antes era tudo mais tolerado.

Quais são os principais resultados do inquérito lançado pela SPC no âmbito do Dia Mundial do Coração?
Segundo esse inquérito, o stress, os antecedentes familiares de doença cardiovascular, o tabagismo, o sedentarismo e o excesso de peso estão no topo na lista de fatores de risco para as doenças cardiovasculares. A campanha “Sabe que tipo de coração é o seu?” da SPC incentiva as pessoas a medir o seu fator de risco para a Doença Cardiovascular. “Teste o seu risco cardiovascular e fique a saber que tipo de coração é o seu” tendo como objetivo a adoção por parte dos cidadãos de uma atitude mais consciente e preventiva.

A doença cardiovascular continua a ser a principal causa de morte em Portugal. É possível antecipar a evolução desta doença nos próximos anos?
É notória já uma evolução positiva, porque nos últimos 15 anos as mortes por doenças do sistema circulatório têm vindo continuamente a descer, embora continue a ser a doença mais mortal.

Acredito, contudo, que esta doença deixará de estar a médio prazo no lugar cimeiro das causas mortais em Portugal. Uma parte importante não está só na prevenção, mas na terapêutica. É importante ter isso em conta.

Qual é a importância da cardiologia preventiva?
A questão da prevenção é um problema geracional e educacional que deve começar logo em casa e exige o envolvimento de toda a sociedade – família e escola. Essa tarefa não cabe apenas ao Sistema Nacional de Saúde (SNS). Nas escolas já se fala sobre os riscos das doença cardiovasculares em algumas disciplinas, há 20 anos não se falava. Esse é um sinal positivo, mas é preciso investir mais a esse nível.

Quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que um dos objetivos é reduzir a morte prematura, por muito importante que seja a prevenção não menos importante a terapêutica. Quanto mais vivemos, mais queremos viver melhor. Hoje, com o aumento da esperança média de vida, queremos viver bem e ser tratados da melhor forma possível e a terapêutica é neste âmbito uma arma poderosa.

Em termos da terapêutica há que reconhecer que as doenças cardiovasculares têm sido privilegiadas ao nível da investigação. Em Portugal, nos últimos anos a mortalidade por enfarte de miocárdio tem vindo a diminuir – a mortalidade já se situou nos 18% e agora está nos 6%. Trata-se de uma evolução notável.

A cardiologia preventiva tem o seu primeiro patamar na medicina geral e familiar, que tem um papel muito importante. O hospital está mais no fim da linha. Nos centros de saúde há também bons serviços atualmente como programas específicos para diabéticos, crianças e grávidas, que ajudam a controlar o problema.

Quais são as doenças cardiovasculares que mais preocupam nesta altura a comunidade médica?
No nosso caso, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia desafiou a tutela para que se identificassem as novas prioridades neste campo e chamámos a atenção para dois problemas: a insuficiência cardíaca e a morte súbita

Por um lado, à medida que vamos envelhecendo aumentarão também os casos de doentes com insuficiência cardíaca. A insuficiência cardíaca será a epidemia dos próximos anos. Não tenhamos dúvida disso. Metade dos idosos já sofre de insuficiência cardíaca e têm um coração que não consegue executar as tarefas que lhe são exigidas de forma perfeita.

Mas este não não é só um problema dos mais velhos. É importante identificar adequadamente outros doentes mais jovens. Por outro lado, é fundamental melhorar a questão da prevenção e resposta nos casos de morte súbita. Fala-se muito desta questão no caso de jovens desportistas, mas este problema não se resume a isso.

E o que pode ser mais feito a esse nível?
É verdade que temos equipamentos, mas temos também muito para evoluir. A sociedade civil deve-se organizar. A questão da morte súbita, por exemplo, é um problema de 10 milhões que precisa de outra resposta. Todos corremos esse risco.

Se algo me pode salvar é mesmo a ajuda de outra pessoa. Se eu cair na rua, a primeira pessoa que passar por mim tem que me ajudar. Pode ser uma questão de minutos ou mesmo segundos. Cada cidadão deve ser responsável por este problema, saber identificar vítimas de paragens cardiorrespiratórias e prestar o devido auxílio. Trata-se de um problema cívico, mas passa também obviamente pelo SNS ter mais desfibrilhadores.

Existem diferenças notórias ao nível de outros países europeus em termos da prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares?
Portugal tem que muito a melhorar no campo de identificação e prevenção da morte súbita. Por seu turno, vamos viver todos mais anos. Cada vez mais haverá pessoas com 70, 80 ou 90 anos, mas queremos viver também com mais qualidade de vida. O problema não será só quantidade, mas qualidade. Não existem quase estudos que abordem a questão da qualidade de vida, mas essa será a principal preocupação.

Os países nórdicos dão lições ao mundo inteiro e nesta questão do envelhecimento não são exceção. Estes países têm os melhores lares, os melhores centros de acolhimento para idosos. Na Europa do Sul não garantimos um tratamento tão digno dos idosos. Temos que alterar a forma de olhar e tratar as doenças dos idosos e melhorar também o acesso cuidados de saúde no interior.

A SPC tem trabalhado com a tutela neste âmbito?
Os próximos 10 anos vão ser importantes. Acredito que o SNS vai colaborar. Devo dizer que temos tido pela primeira vez uma relação muito boa com a tutela. Pedimos sempre que ouçam os profissionais,mas muitas vezes não queriam ouvir porque acham que sempre vão ter que gastar mais dinheiro. Desta vez, o secretário de Estado da Saúde quis ouvir-nos e foram criados dois grupos de trabalho com cardiologistas: um para debater a necessidade de mais desfibrilhadores (morte súbita) e outro para debater a insuficiência cardíaca.

Fomos ouvidos e foram criadas condições para uma participação ativa. Tenho por isso alguma confiança para acreditar que os objetivos serão alcançados.

Onde provavelmente falta mais fazer é na Educação. Já se começa a alertar para esta problemática nas aulas, mas ainda é pouco. Estamos a falar de muitas escolas e de milhares de crianças. Não basta pegar em cinco páginas e dar só uma aula sobre o tema. Há que insistir mais nisto. Há ordens profissionais que podem trabalhar nisto. A SPC ainda não o fez, mas não descarta colaborar no futuro com o sector da Educação e com o próprio Ministério.