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“A população mais jovem tem maior capacidade de recuperar a esperança média de vida”. E é também isso que está a acontecer nas ilhas

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Açores e Madeira são as regiões do país em que se verifica um maior aumento da esperança média de vida nos últimos anos. Ao mesmo tempo, continuam a ser os locais onde à nascença se espera morrer mais cedo. As razões para o fenómeno são dadas por Maria Filomena Mendes, demógrafa e presidente da Associação Portuguesa de Demografia

A esperança média de vida no continente é superior à das ilhas (Madeira são 78,18 anos e nos Açores 77,48). Porque é que isto acontece?
Estes são valores que estão muito dependentes das condições de saúde e das condições de vida em geral. É importante perceber que talvez ainda se tenha de percorrer um caminho nas ilhas semelhante àquele que já foi percorrido no continente. Poderá também ser importante perceber se a nível das causas de morte existem diferenças substanciais que permitam ter o impacto desta diferença da esperança média de vida à nascença nas diferentes regiões do país.

E que caminho é esse que ainda tem de ser percorrido nas ilhas?
Primeiro, era importante perceber se existem determinados tipos de patologias ou outras situações que possam provocar mortes evitáveis [pessoas com menos de 70 anos]. Esse é, por exemplo, um trabalho que tem de se fazer em todo o sistema de saúde e ter recursos e cuidados hospitalares que permitem evitar essas mortes evitáveis, em que o número de anos de vida perdidos são muito elevados. Portanto, identificar se nas várias regiões há doenças a contribuírem para uma mortalidade precoce e, consequentemente, tiram muitos anos à esperança média de vida no seu conjunto. Muitas vezes as pessoas mais idosas não têm as melhores condições de vida (reformas baixas, habitação pouco adequada).

O facto de estarmos a adiar a idade da morte, e sendo estas pessoas mais suscetíveis a problemas de saúde, se houver outro tipo de condições de vida em geral, pode também aumentar o número de anos de vida. Quando falamos em esperança média de vida reportamos à idade média em que se espera que a pessoa morra. Hoje, quando chegamos aos 55 anos, há ainda um número significativo de anos que se espera viver. Portanto, além das condições de saúde e de vida, que podem ser proporcionadas na região onde se vive, cabe à própria pessoa ter hábitos de vida saudáveis, uma gestão da doença mais informada, mais instrução e melhor rendimento. Tudo isto pode implicar viver mais anos. E se isto acontecer no conjunto da população, pode ter repercussões na esperança média de vida de determinada região.

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Apesar de a esperança média de vida nos Açores e na Madeira ser mais baixa do que no resto do país, são também as regiões onde aumentou mais nos últimos anos. Como se explica isto? O que mudou?
Significa que o caminho tem sido percorrido e a recuperação dos anos de vida acelerou mais nessas regiões - também porque havia um caminho maior a percorrer. Há sempre os que iniciam o caminho primeiro e outros que demoram um pouco mais de tempo a iniciar. Os pioneiros no processo demoram mais tempo e os que lhes seguem os passos, aprendem e aceleram um pouco o processo (adoção de medicação, novos equipamentos tecnologicamente mais evoluídos, a prevenção nos cuidados de saúde primários, etc.).

No fundo, a ideia é a de comprimir a mortalidade para idades cada vez mais avançadas. Se tivermos duas pessoas, uma que morre aos 40 anos e outra aos 80, a esperança média de vida é de 60 anos. No entanto, se tivermos uma pessoa que morre aos 59 anos e outra aos 60, a esperança média de vida continua a ser 60. Aquilo a que estamos a assistir é a uma compressão da mortalidade, em que há uma grande redução da mortalidade nas idades mais jovens e, consequentemente, as idades em que as pessoas morrem ficam muito concentradas à volta desta média mais alta.

Por exemplo, o número de anos de vida perdidos é enorme num jovem que morre aos 15 anos. Ao conseguirmos evitar essas mortes precoces, estamos a dar muitos anos de vida à nossa esperança média de vida. Pelo contrário, numa população envelhecida em que se morre aos 90 anos e se passa a morrer aos 92, o número de anos de vida que se ganha é muito mais baixo. Quando tenho uma população mais envelhecida, como acontece em algumas regiões do continente, os ganhos que se conseguem ter têm menor reflexo do que numa população jovem - e as ilhas são zonas com populações mais jovens -, em que, reduzindo a mortalidade dessas pessoas mais novas, se tem um grande impacto nos ganhos médios de vida daquela população. Têm uma maior capacidade de recuperar a esperança média de vida quando as suas condições de vida são melhores. Claro que não é a única razão para explicar [o aumento da esperança média de vida nas ilhas].

Ana Baião

Em maio, já tinha sido anunciado o aumento da esperança média de vida. E foi confirmado agora pelo INE: 80,78 anos. A tendência vai manter-se próximos anos ou irá estabilizar?
A expectativa é a de que iremos continuar a aumentar e a manter a tendência que vem sendo observada,até porque estamos com valores muito elevados de esperança de vida, mas outros países conseguem ainda ter valores mais elevados do que Portugal. Significa que podemos ainda ter a expectativa de continuar a aumentar.

Este aumento da esperança média de vida global que tipo de desafios traz ao país, à sociedade?
Tem implicações em várias áreas, mas é uma sociedade inevitavelmente mais envelhecida e esse envelhecimento é irreversível. É inevitável esta aceleração do envelhecimento se o continuarmos a medi-lo como sendo a percentagem de pessoas com 65 ou mais anos no total da população ou pelo índice relativamente aos jovens com menos de 15, que pela diminuição da natalidade está a reduzir esta base de comparação...

Se pensarmos em termos prospectivos, estamos a empurrar a idade da morte para idades cada vez mais avançadas em que as pessoas quando tomam as grandes decisões da sua vida são em função dos anos que ainda têm a expectativa de viver. Muito provavelmente, a sociedade terá de fazer uma adaptação e está a fazer uma adaptação àquilo que pode ser este aumento gradual da esperança de vida. Não pensamos apenas em termos coletivos, mas também em termos individuais é importante fazer a reflexão. O que vamos fazer desses anos que nos são oferecidos? Aos 65, mais ou menos, é a idade da reforma e isso tem impacto também no sistema da Segurança Social e de Saúde - pessoas mais idosas são mais necessitadas, daí a importância da educação das pessoas e da sua literacia para poderem gerir as suas situações de saúde e doença.

marcos borga

Neste momento, o país está preparado para as pessoas viverem até aos 80 e muitos anos? Estamos preparados para o país envelhecido para que caminhamos?
Há muito tempo que falamos nesse país envelhecido e penso que todos já percebemos que é uma realidade cada vez mais notória na sociedade portuguesa. Temos de nos preparar para isso tudo. Neste momento, já começa a haver, não só um discurso, mas também uma acção e uma actuação para essa nova realidade - apesar de ser anunciada há bastante tempo por demógrafos, em particular, mas também por todos aqueles que se interessam por estas temáticas e pelos órgãos de comunicação social. Cada vez mais, mesmo se não seja explicitamente e implicitamente, todos nós já estamos a viver integrados numa sociedade mais envelhecida, diferente. O que é importante é que as pessoas tenham mais anos de vida, mas tenham também mais saúde, mais qualidade de vida e que se sintam mais felizes por isso.