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Pôr a tecnologia ao serviço do utente. O desafio da saúde

A “Saúde como cluster 
de competitividade” foi o tema que juntou Paulo Ferreira (moderador), Francisco Cary, Silvério 
de Sousa Mendes, 
Paulo Barradas Rebelo 
e Inácio Brito no principal painel da tarde

Nuno Fox

A necessidade de apostar em parcerias que reúnam os principais atores do sector para uma aposta na inovação esteve em destaque no XX Encontro Fora da Caixa

Juntar energias para definir uma estratégia corporativa comum não é tão simples como parece, mesmo quando falamos de algo tão estruturante como a saúde. E se é certo que os responsáveis pelo sector em Portugal são os primeiros a admiti-lo, também é certo que os núcleos de colaboração entre diferentes entidades — os chamados clusters — são cada vez mais importantes para que a inovação tecnológica tenha repercussões na sociedade. Vulgo, na saúde dos utentes.

Foi, pelo menos, o que sobressaiu das intervenções realizadas ao longo do XX Encontro Fora da Caixa em Coimbra. Em plena cidade dos estudantes, o Teatro Académico Gil Vicente recebeu mais uma edição do ciclo de conferências organizado pela Caixa Geral de Depósitos (com o apoio do Expresso) que tem percorrido o país ao longo dos últimos dois anos. E se o tema incidia nos clusters para aplicação de novas tecnologias nos tratamentos, então o palco não podia ser mais adequado.

“Em Coimbra temos um ecossistema único”, garante Catarina Resende Oliveira, do Centro Hospitalar da Universidade. Uma das responsáveis pela Unidade de Inovação e Desenvolvimento do hospital, explicou que tal se deve à ligação estreita entre instituições de ensino, empresas e estruturas de saúde que se construiu na cidade e que facilita “a transferência de conhecimento”, por exemplo. “Estar aqui é uma vantagem, quer pelo acesso a talento quer pela localização geográfica no centro de Portugal”, complementou o CBO da Take the Wind, Silvério de Sousa Mendes.

Paulo Barradas Rebelo também não tem dúvidas de que está numa área “com bons recursos humanos”. E apesar de o CEO da Bluepharma reconhecer a evolução positiva que se tem registado no estabelecimento de parcerias entre as diferentes entidades, não deixa de apontar para a situação curiosa de, enquanto produtora farmacêutica, nunca ter vendido a um hospital português. “É uma ambição”, confidenciou. Num sector (o da saúde) que representa 1/10 do PIB nacional e em que as exportações cresceram 123% entre 2017 e 2018, não deixa de causar alguma estranheza e Silvério de Sousa Mendes aponta também a “elevada carga fiscal” como grande inimigo, com direito a um apelo: “É possível fazer as coisas de outra forma. E Portugal tem capacidades para isso.”

Alterações que os atores do sector gostariam de ver chegar ao atual modelo de financiamento que, na opinião de António Lindo da Cunha, não oferece “nenhum incentivo à inovação.” Para o diretor executivo do Laboratório de Automação do Instituto Pedro Nunes, ainda existe uma “discrepância muito grande entre a tecnologia disponível e aquela que efetivamente chega ao mercado”, o que só se consegue corrigir com a aplicação “na prática clínica.” Se Coimbra é um bom exemplo do que pode ser feito neste campo, o responsável realça que isso não resulta “de políticas de fundo”, mas sim de mudanças “efetuadas de cima para baixo, a partir da sociedade civil.” Pelo que defende que “os problemas de base do financiamento deixam ainda muito por fazer.”

Mudar o paradigma
Na visão de Catarina Resende Oliveira, parece óbvio que estamos obrigados “a repensar a prestação de cuidados e a olhar mais para resultados do que custos.” Sem isso, “não há inovação no paradigma dos cuidados de saúde.” Trata-se de um modelo baseado na eficiência para permitir que as parcerias entre as entidades do sector tenham sucesso. E que passa também por tirar maior proveito do grande manancial de dados hospitalares disponível — “algo que não está a ser feito” — para que os hospitais sejam “verdadeiros centros de investigação” com reflexos nos tratamentos dos utentes. “Nunca nos podemos esquecer de que os hospitais são essencialmente assistencialistas”.

Com o crescimento exponencial do conhecimento, “vivemos o desafio de estar sempre ao corrente das melhores práticas.” Quem o diz é Inácio Brito, administrador da José de Mello Saúde, que olha também para a maior exigência do doente e o aumento constante da esperança média de vida como fatores a ter em conta no planeamento estratégico para o futuro. Que também deve visar o turismo de saúde, para aproveitar o investimento realizado e os frutos do desenvolvimento tecnológico. Para o conseguir, é preciso trabalhar na acreditação internacional das unidades de saúde, “um passo absolutamente essencial” e ao mesmo tempo “muito difícil.”

A aplicação da inteligência artificial nos diagnósticos, a utilização de big data e o recurso a tecnologias que ajudam a colocar a tónica na prevenção estão entre as previsões feitas para o futuro do sector que, mesmo com as reservas registadas, é encarado de forma positiva pelos principais intervenientes. Temos uma “atividade extremamente atrativa e desafiante”, lembra Inácio Brito. “Estamos a contribuir para conservar o bem-estar das pessoas e isso, só por si, entusiasma.”

DISCURSO DIRETO

“Como estudantes de Coimbra, pensamos qual podia ser o nosso contributo para este país. Agora exportamos mais de 80% da produção. Somos competitivos em tudo”
Paulo Barradas Rebelo
CEO da Bluepharma

“As estruturas hospitalares atuais não estão concebidas para agilizar a inovação e o desenvolvimento. Temos de ter em conta o envelhecimento com consequências nos custos”
Catarina Resende Oliveira
Unidade de Inovação e Desenvolvimento do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra

“A grande inovação vai ser colocar o utente do lado da solução, com tecnologias que permitem centrar na saúde e não na doença”
António Lindo da Cunha
Diretor-Executivo do Laboratório de Automação do Instituto Pedro Nunes

“Mais do que em qualquer outra indústria, é na saúde que vamos encontrar a maior mudança relacionada com a evolução da tecnologia”
Paulo Moita de Macedo
Presidente da Comissão Executiva da CGD

O Portugal que já deu “uma lição ao mundo” em tempo de crise

Nuno Fox

Aconteceu quando fizemos a saída limpa do programa de ajustamento financeiro da troika, segundo Álvaro Santos Pereira: “Ganhámos novamente autonomia total” e superámos as expectativas. Mas “apesar de ter melhorado nos últimos anos, Portugal é um país em que não há oportunidades para todos”. Dicotomia para a qual ainda se procura a melhor resposta e que marcou a apresentação de fundo do antigo ministro da economia à plateia do XX Encontro Fora da Caixa em Coimbra. O professor universitário teceu uma análise do panorama económico português com foco no impacto da crise financeira. A entrada no euro, em 2001, saldou-se em “três murros na economia”, que passaram pelo endividamento, competitividade e dívida pública — que no período imediatamente anterior à crise atingiu o nível mais elevado “dos últimos 150 anos.” O que se saldou num crescimento de “quase zero” ao longo de 15 anos, que conheceu o seu auge na crise, e teve o impacto “mais dramático” no desemprego, que no seu pico ultrapassou os 17%. A aposta nas exportações (que hoje representam 45% do PIB) foi essencial, assim como as reformas realizadas que permitiram regressar ao crescimento e à criação de trabalho, se bem que Santos Pereira faça questão de realçar que “nem tudo é de qualidade.” E que a média de salários ainda é demasiado baixa para garantir maior retenção de talento. Por outro lado, é preciso uma mudança de mentalidade para que Portugal tenha uma “cultura de menos subsidiodependência” e em que não se proteja tanto “certos grupos de interesses.”

Para o antigo ministro “temos de ter a ambição de nos transformarmos num dos países mais competitivos do mundo.” Se lhe dizem que não é possível, a resposta é pronta: “Eu discordo.”

Textos originalmente publicados no Expresso de 22 de setembro de 2018