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Caso Infarmed: “O Governo foi sabotado por interesses corporativos”

Ricardo Valente diz que reviravolta contribui para a descredibilização dos políticos e leva a que apareçam os ‘Trumps’ desta vida

Rui Duarte Silva

Ricardo Valente avisa que a cambalhota do Infarmed ficará na história como uma anedota política. Vereador do pelouro da Economia, Turismo e Comércio da Câmara do Porto, e membro da candidatura da cidade à Agência Europeia do Medicamento, não tem dúvidas de que o Estado foi desrespeitado pelas suas próprias instituições, numa má decisão para o Porto, o Norte e o país

Foi o primeiro-ministro quem comunicou ao presidente da Câmara do Porto que afinal o Infarmed não seria deslocalizado?
Até hoje, ninguém do Governo comunicou nada ao Executivo municipal. Como todos os portugueses, fomos surpreendidos com a notícia através da comunicação social, quando o ministro da Saúde anunciou a decisão no Parlamento.

E entretanto houve algum um telefonema por parte de Adalberto Campos Fernandes?
Até agora (13h) não.

Percebeu o que quis dizer o ministro da Saúde com alteração de contexto político?
Não temos ideia. Que o país saiba, não houve nenhuma alteração do contexto político.

Pode ter sido uma represália pelo facto de a Câmara do Porto ter rejeitado a transferência do pacote de competências do processo de descentralização em curso?
Não quero pensar nesses termos. O que a Câmara do Porto fez foi recusar-se a passar um cheque em branco num processo que ainda está a ser negociado. O que está em causa não é a rejeição da descentralização, é o formato em que está a ser feita. A Câmara não fecha a porta a receber novas competências, o que não aceitamos é ser caseiros de equipamentos do Estado que depois serão pagos pelos portuenses.

Então o que justifica a reviravolta na anunciada mudança do Infarmed para o Porto?
Primeiro é preciso que toda a gente saiba que ninguém no Porto pediu para sediar o Infarmed. Foi uma opção pública, do Conselho de Ministros, que colocou a decisão final nas mãos de uma comissão independente, que a validaria ou não. Foi tomada por um órgão colegial da República portuguesa onde está o primeiro-ministro e restantes ministros. E a comissão independente, integrada por 27 pessoas, entre elas ex-presidentes do Infarmed, e sem qualquer participação do município do Porto, concluiu que a deslocalização não só era racional do ponto de vista económico, como funcionaria de uma forma mais eficaz. Isso com base um estudo externo, feito pela Universidade de Lisboa e do Porto.

O único senão era a resistência dos trabalhadores na mudança?
O único senão era uma linha vermelha com a qual temos de parar de brincar. Se essa era a linha vermelha, então já o era desde o primeiro dia em que os trabalhadores disseram não à mudança. Nada de novo. Dizer agora que o Infarmed afinal fica onde está é brincar com as pessoas e uma falta de respeito institucional. A questão é: a partir de hoje, quem está disponível para participar numa comissão independente? Para quê?

Ricardo Valente diz que a decisão tomada pelo Governo “fica na história política do país como uma anedota

Ricardo Valente diz que a decisão tomada pelo Governo “fica na história política do país como uma anedota

rui duarte silva

É um insulto à inteligência dos portuenses, conforme referiu o movimento independente afeto a Rui Moreira?
É uma tentativa, mas falhada, porque os portuenses só são insultados por quem acham que tem algum valor. Repito: é acima de tudo uma enorme falta de respeito pela cidade, pela região, mas sobretudo pelo país. Fica na história política do país como uma anedota.

Rui Moreira usou a expressão anedota quando ainda não se conhecia o chumbo, mas já se adivinhava que o que seria transferido era insignificante.
Há muito que nos apercebemos disso. Quando há uns meses recebemos o grupo de trabalho, avisámos que o Porto nunca aceitaria receber uma placa num edifício...

A advertência pode ter pesado no recuo?
Sempre dissemos o mesmo. O que aceitaríamos era uma deslocalização efetiva, total, embora faseada. Não tínhamos a lógica bacoca de no dia 1 de janeiro ver mudar o Infarmed em peso. O que houve neste processo foi uma falta de sentido de Estado e percebeu-se que o Estado português é desrespeitado pelas suas próprias instituições. O que se percebeu no meio disto é que temos uma decisão política do Governo que foi sabotada por interesses corporativos.

Boicote da parte de quem?
Do conselho diretivo do Infarmed. O que percebemos é que a lógica do interesse nacional, do que é uma política de país e para o país, é o que interessa a Lisboa. Desde o primeiro dia que se percebeu quem boicotou isso tudo. É claríssimo.

O líder da Distrital do Porto, Alberto Machado, pediu a demissão do ministro da Saúde. Deve ser demitido, tem condições para continuar?
Não falo em nome da autarquia, mas as atitudes do ministro neste processo dizem muito da credibilidade dos órgãos políticos. Nesta questão da saúde, os portuenses e a região têm muitas razões de queixa. O que se passou e passa na ala pediátrica do Hospital de São João, pergunto-me, se fosse num hospital de Lisboa teríamos há anos as crianças em contentores? O que me parece é que há uma falta de dever de gestão pública em relação à cidade e à região, que tanto contribuem para o desenvolvimento e riqueza do país.

O PS, pela voz de Manuel Pizarro, acusou o ministro da Saúde de leviandade...
É muito mais do que leviandade. É descredibilização da política.

“Foi António Costa quem disse que se o Porto era a melhor opção para localizar a EMA, seria a melhor cidade para ter a agência local. É o raciocínio de qualquer pessoa com bom senso”, diz Ricardo Valente

“Foi António Costa quem disse que se o Porto era a melhor opção para localizar a EMA, seria a melhor cidade para ter a agência local. É o raciocínio de qualquer pessoa com bom senso”, diz Ricardo Valente

rui duarte silva

Estavam à espera deste desfecho?
Não, até porque, repito, o Porto nunca pediu nada. O Porto quando entrou na candidatura à EMA (Agência Europeia do Medicamento) apenas pediu estudos para saber se Lisboa era a melhor opção. Foi o primeiro-ministro quem decidiu convidar o Porto. E quando a candidatura não sai vencedora é também António Costa quem telefona a Rui Moreira a anunciar a deslocalização do Infarmed. Foi quem disse que, se o Porto era a melhor opção para localizar a EMA, seria a melhor cidade para ter a agência local. É o raciocínio de qualquer pessoa com bom senso.

Houve outros lóbis de pressão ou vingou apenas a posição dos trabalhadores?
O que se viu foi uma contrarreação inacreditável por parte do sistema corporativo, que representa o pior do país.

A descentralização está condenada à morte?
Revela que o centralismo tem custos, mas há decisões que têm de ser tomadas em nome do país. A Alemanha mudou a capital para Berlim e, imagine, o que era fazer um inquérito aos funcionários que estavam em Bona, a questionar se queriam mudar. Na área da comunicação social ou no sector empresarial, quantos trabalhadores do Porto ou de outras zonas do país não trabalham em Lisboa? A questão da vontade dos trabalhadores é uma não questão.

A reviravolta vem provar que só existirá descentralização de serviços quando forem criados de raiz?
Não se vai desconcentrar nada. Mesmo nos serviços a criar temos um lado anedótico. Como sabemos, foi criada uma empresa para gerir a floresta após os grandes incêndios do verão passado. Onde foi criada? Em Lisboa. Ou seja, nem esse novo organismo o Estado criou fora da capital. Que, como se sabe, não tem floresta. Infelizmente, o centralismo está para dar e durar.

Embora António Costa seja um defensor da descentralização...
O lamentável neste caso é que o PS tem sido o único partido regionalista desde a sua génese. O próprio primeiro-ministro tem um passado de autarca e uma visão a favor da política de proximidade, mas chegada a hora da verdade nunca se passa das palavras aos atos. Mesmo estando em causa a palavra do chefe do Governo. O problema, infelizmente, é que quando os governantes minam a confiança dos cidadãos, o resultado são novos populismos e os ‘Trumps’ desta vida.