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Liga denuncia desigualdades no tratamento do cancro. São precisos mais 200 voluntários

Tiago Miranda

Acesso aos medicamentos não é igual para todos os doentes. “Não temos culpa que haja hospitais com défice”, alerta Vítor Veloso, presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro

O país tem múltiplas diferenças regionais mas há uma que "não é aceitável": "A desigualdade de critérios no tratamento dos doentes com cancro", afirma Vítor Veloso, presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro (LPCC). Ao Expresso, o médico denuncia que "alguns hospitais têm todos os medicamentos, outros não têm e outros ainda recusam-se a dar os mais caros".

A falta de igualdade nos critérios para a seleção das terapêuticas em oncologia nas unidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS) está a alarmar os responsáveis da LPCC, onde chegam muitos relatos de situações de injustiça no acesso ao tratamento. "Não temos culpa que haja hospitais com défice. O Ministério da Saúde devia obrigar os hospitais a dispensar todos os medicamentos ou a assumir que não pode assegurar os medicamentos mais caros, porque não é aceitável a desigualdade de critérios", afirma Vítor Veloso.

Às dificuldades no tratamento, somam-se outras. A Liga está empenhada em resolver os casos sociais de muitos doentes. "Estamos a lutar contra as juntas médicas ignorantes e perfeitamente indignas, pela integração no mercado de trabalho após o tratamento - são cada vez mais os casos em que os doentes podem trabalhar e o empregador tem a obrigação de encontrar uma solução - e pela questão dos seguros, com prémios completamente inacessíveis, tal como os bancos que fazem crédito com juros incomportáveis." Vítor Veloso é taxativo: "Há uma dificuldade extrema para o doente oncológico e o nosso gabinete jurídico é uma mais valia porque muitas vezes os direitos dos doentes são ultrapassados."

O presidente da Liga critica ainda a falta de planeamento para responder ao inevitável crescimento da doença. "Não existe uma estratégia para o aumento do número de cancros, atualmente com 500 mil sobreviventes, e sobretudo em doentes com idades cada vez mais avançadas." E dá exemplos: "continua a falhar a parte financeira, com o subfinanciamento da oncologia; o planeamento de recursos humanos e de equipamento pesado, sobretudo no Interior, e não é aceitável".

E quando o Estado não responde, a Liga tenta ajudar. Tem sido assim desde que foi criada e agora quer fazer mais. Vítor Veloso vai começar por cima, no caso pelo Norte do país. O núcleo regional vai repensar-se: "Precisamos fazer bastante mais para estarmos mais próximos do doente na dignidade, no apoio social e económico e na família."

Liga precisa de mais 200 voluntários

Entre os projetos, estão a abertura de mais 20 postos da LPPC, com mais valências, em locais estratégicos; aumentar a divulgação do trabalho da LPCC com visitas a hospitais, centros de saúde ou paróquias; reforçar a formação dos voluntários - 120 no Norte e mais 150 no resto do país - ; atrair mais 200 pessoas para o trabalho voluntário; ou criar um call center capaz de atender rapidamente e com eficiência quem pede ajuda.

O maior projeto será a construção de um novo centro. A infraestrutura vai crescer em terrenos cedidos pela autarquia de Matosinhos e a obra terá início no próximo ano. Um centro de reabilitação e um lar de acolhimento para doentes em tratamento em ambulatório serão as duas primeiras valências a avançar. Igualmente pensada, está uma rede de cuidados continuados no domicílio.

Há ainda o objetivo de reforçar a vertente de apoio financeiro aos doentes. "Só no Norte, em média, damos um milhão de euros por ano e queremos aumentar este valor. É uma fragilidade que muitos doentes têm e a Liga é fundamental para ajudar, por exemplo a pagar transportes, medicamentos, renda de casa, luz, gás, todo o tipo de despesas do dia-a-dia."