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Transplante de órgãos. Eis o meu corpo, em nome da vida

Os transplantes de órgãos e de medula podem constituir o último lampejo de esperança para muitos doentes. É o gesto, esboçado com números e relatos, de d(o)ar a vida sem olhar a quem

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

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Jornalista infográfica

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“Mesmo que tudo acabe ali, eu fui muito feliz.” Inspire. Encha o peito. Prepare-se para mergulhar na odisseia de Ana Filipa Ferreira, a quem a vida reservou a hercúlea tarefa de passar um cabo das tormentas individual, iniciada na infância. Era uma menina “muito magrinha, muito pálida” , que “estava sempre muito constipada, cheia de tosse e não fazia bem a digestão dos alimentos”. O pai e a mãe, Amândio e Fernanda, levavam a filha mais nova num périplo de médico em médico, mas nenhum era capaz de descortinar o que se passava com aquela criança natural da Trofa. A possibilidade de se tratar de um caso de tuberculose foi colocada — uma vez que os sintomas eram coincidentes —, mas nunca se confirmou. Até que uma pungente resposta chegou. Ana Filipa tinha apenas cinco anos. “Fiz o teste de suor e deu positivo.” O diagnóstico era conclusivo: fibrose quística, uma doença rara, genética, hereditária e sem cura, com mais de 2 mil mutações conhecidas. Estima-se que esta patologia possa afetar entre 300 a 400 portugueses. A nível mundial, o número pode ascender as 60 mil pessoas.

No caso de Ana Filipa, o cenário não podia ser mais complicado, tratando-se da variante mais grave de todas — delta F508 —, debilitando gravemente os pulmões e traduzindo-se numa aguda insuficiência respiratória. “Comecei a tomar aproximadamente 30 ou 40 comprimidos diários e tinha de levar a medicação para a escola.” A partir dos 15 anos, a botija de oxigénio que a acompanhava 24 horas por dia tornou-se uma rotina, assim como os sucessivos internamentos no Hospital Maria Pia, no Porto. Foi com essa idade que a necessidade de um transplante dos dois pulmões se tornou uma realidade incontornável. Entrou para a lista de espera em outubro de 2008. Aguardou durante meio ano, numa corrida contra o tempo, em busca de um último e revigorante sopro de vida, até que a 5 de abril de 2009, num domingo de ramos, chegou o “folar” tão desejado para a jovem de 17 anos. Tinha surgido um dador compatível e a urgência da intervenção era máxima. “Fui levada de ambulância para o Hospital de Santa Marta, em Lisboa, e, durante o caminho, foi um misto de emoções. Era a última esperança que tinha, mas, por outro lado, sentia muito medo. Se corresse mal, tudo acabava ali.” O capítulo decisivo chegaria no dia seguinte. Stop. Expire. Recupere o fôlego.

Nada se perde, tudo se transforma

O princípio de Lavoisier (1743-1794) ensina-nos que, na natureza, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A morte de alguém pode assumir-se como um sinónimo de vida para outrem. Tal como Ana Filipa Ferreira, os números relativos a 2017 revelam que 88 portugueses esperavam por um transplante pulmonar, 24 aguardavam por um coração novo, 85 necessitavam urgentemente de um fígado, enquanto 44 precisavam de um pâncreas e mais de dois mil cidadãos nacionais clamavam por um rim compatível. Os dados são, contudo, animadores e colocam Portugal na segunda posição, a nível mundial, em termos de dadores falecidos. Os números constituem níveis históricos, com 1011 órgãos colhidos em 2017, representando um acréscimo de 8 por cento face ao verificado no ano anterior, de acordo com o relatório “Doação e Transplantação de órgãos — Atividade Nacional”, apresentado pelo Instituto Português do Sangue e Transplantação (IPST). O mesmo levantamento revela que foram realizados 895 transplantes — mais 3,5 por cento do que aqueles realizados em 2016 —, apenas possíveis graças ao surgimento de 440 dadores.

“Atingimos o maior número de dadores falecidos [351] de sempre e o maior número de órgãos colhidos. Estes resultados, apesar de animadores, aumentam a nossa responsabilidade e exigência na resposta a todos os que necessitam de órgãos para viver com qualidade”, começa por dizer, ao Expresso, João Paulo Almeida e Sousa, presidente do IPST. “O desenvolvimento e êxito da doação e da transplantação em Portugal nos últimos anos deve-se muito ao esforço dos profissionais envolvidos”, salienta, esclarecendo que “podem ser dadores de órgãos todos os cidadãos que não se inscrevam no Registo Nacional de Não-Dadores (REENDA), calculando-se que, todos os anos, aproximadamente 50 portugueses se oponham a fazer parte de uma solução coletiva e que agrega sinergias internacionais.

Play. Estamos de regresso à história de Ana Filipa Ferreira. “Quando cheguei ao hospital, entrei juntamente com outra pessoa, que também precisava do transplante. São sempre chamados dois pacientes e essa é a parte mais complicada. É nesse momento que os médicos verificam bem a dimensão dos pulmões. Se não pode ir para uma pessoa, vai para a outra, de forma a não desperdiçar órgãos.”Moeda ao ar e a cara de Ana Filipa sorriu. A intervenção cirúrgica tornava-se, finalmente, uma certeza. A operação correu bem. A jovem, atualmente com 27 anos, podia finalmente suspirar de alívio. Podia respirar melhor, mas tinha de aprender a fazê-lo. “Eu não sabia muito bem como se fazia. Era uma confusão muito grande”, recorda, em entrevista ao Expresso. “Não sei o que fazer a tanto ar”, exclamou, depois de despertar para uma nova vida, definindo esse momento como “um dos mais especiais” que guarda na memória.

Quase uma década volvida, Ana Filipa ainda é seguida no Hospital de Santo António, no Porto, mas garante ter “uma vida perfeitamente normal, apenas com mais cuidados”. Acima de tudo, o transplante permitiu que, a partir do dia 6 de abril de 2009, pudesse “começar a pensar a longo prazo”. Os pulmões, esses, “convém estimá-los bem e não estar a estragá-los”, ciente da dádiva que o destino preencheu com um ar mais puro.

Um “bocadinho que corre dentro” de si pode parar o sofrimento de outros

É impossível sobreviver sem a medula. Este tecido esponjoso que preenche a cavidade interna dos ossos produz praticamente todas as células do sangue, nomeadamente os glóbulos vermelhos, plaquetas e a maior parte dos glóbulos brancos. Existem atualmente, a nível mundial, mais de 26 milhões potenciais dadores de medula óssea e em Portugal o número atinge as 400 mil pessoas (61 por cento de mulheres e 39 por cento de homens). Por outras palavras, 4 por cento da população portuguesa já se voluntariou para doar vida até ao tutano, fazendo com que o nosso país possua “o terceiro maior registo por milhão de habitante, entre os países com mais de 10 milhões de habitantes”, frisa João Paulo Almeida e Sousa, notando um “crescimento, de forma sustentada, nos últimos anos”. No ano passado foram obtidas 89 colheitas de dadores portugueses, das quais 40 destinaram-se a transplantes para recetores nacionais.

Tem três anos. Chama-se Evandro e a sua enfermidade não tem nome. É um menino “sempre bem-disposto, com uma força enorme”, descreve a mãe, Cristiana Leite, que juntamente com Fábio Cardoso se deixa contagiar pela vivacidade deste pequeno grande herói. “É ao nosso filho que vamos buscar as nossas forças. Basta olhar para ele e torna-se impossível ir-nos abaixo”, acrescenta.

“Como não se sabe o que é ao certo, até hoje não faz tratamentos. Não se sabe ainda de onde vem aquilo que está a causar esta doença. E como ainda não foi possível identificar o problema, os médicos asseguram que a única solução é mesmo o transplante” de medula óssea, conta Cristiana, em declarações ao Expresso. O filho nasceu com um volume de sangue no corpo de apenas 3 por cento, um valor considerado demasiado baixo, que faz com que as suas defesas sejam extremamente permeáveis. As febres e as infeções são uma constante. “O Evandro tem umas células anormais no corpo. O que não funciona nele é a medula, incapaz de produzir glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas”, devido a uma aplasia medular, explica a mãe.

Evandro Cardoso, residente em Vila Nova de Gaia, tem sido submetido, desde novembro de 2017, a transfusões semanais de plaquetas e, de três em três semanas, faz transfusões sanguíneas. Os internamentos são os únicos momentos em que pode sair de casa, protegido com uma máscara. A hipótese de leucemia nunca chegou a confirmar-se com as duas biópsias realizadas. Embora não exista um diagnóstico definitivo, a necessidade de um transplante de medula óssea é uma certeza, afirma a mãe, à medida que “a doença se vai agravando cada vez mais”, sendo que no caso do Evandro só um dador cem por cento compatível pode ser a solução.

E é por isso que esta mãe, de 28 anos, sensibiliza a sociedade portuguesa para uma causa, tornada pública através da página de Facebook “Somos Todos Evandro”, lançando o apelo para que as pessoas não tenham medo de se tornarem dadores de medula. Pede ajuda pelo filho. Pede por tantos outras doentes numa situação semelhante. “É um processo indolor e bastante rápido. Salvar o próximo também nos faz bem”, salienta Cristiana Leite. “É só um bocadinho de nós, um bocadinho que corre dentro de nós, que pode ser tudo para a vida de outra pessoa”, sintetiza.

Parar o sofrimento dos outros pode depender de si, ao correr por quem precisa, fazendo a diferença contra a indiferença. Porque somos a capacidade de ser os outros. Porque os outros somos nós. Todos juntos. Na vida. Em nome dela.