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Lições de bem guardar

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Um utilitário que é também um dos primeiros sonhos de consumo das crianças, a mochila escolar tem dois lados: o de fora é feito de cores, padrões e tendências; o de dentro é um pretexto para discutir o modelo de ensino

São sempre diferentes os sons de campainha que tocam em setembro — depende de quem os ouve. O tiro de partida para mais um ano letivo soa dispendioso para pais, entusiasmante para filhos e conveniente para marcas, principalmente as que são ricas em material escolar e esperam pelo fim do verão para se fazerem ainda mais ricas. Apesar das quebras na taxa de natalidade, Portugal tem hoje perto de 2 milhões de jovens abaixo dos 20 anos e, segundo dados da Pordata, só no sistema público estavam inscritos, em 2017, mais de 1 milhão e 600 mil portugueses, entre os ciclos pré-escolar, básico, secundário e superior. Para todos eles, há objetos quase indispensáveis.

Adriana Escorcia é profissional de gestão e distribuição da Totto, marca especializada em mochilas escolares, e explica que as personalidades aparecem vincadas cada vez mais cedo. Se é comum ouvir dizer que os 40 são os novos 30, nas crianças o processo é inverso: “Agora os teens [adolescentes] são os miúdos entre os 9 e os 12 anos, que já decidem por eles próprios”, e a mochila serve como “a continuação da identidade de cada um”. Em 2011, esta colombiana originária de Barranquilla ajudou a trazer para Portugal a conterrânea Totto, que saiu da capital Bogotá para se destacar no segmento das bolsas de escola na América Latina.

Quando chegou, lembra, “os lojistas olhavam para as nossas mochilas e achavam que éramos ET”. As cores vivas, garridas, espantavam quem estava habituado a ver a sobriedade às costas. Mas sete anos é muito tempo. “Agora os unicórnios e os arco-íris são a grande moda”, partilha a responsável, numa tendência já visível em anos anteriores, em que ananases, palmeiras e demais exotismos começaram a criar raízes na estética europeia. “A cor faz muito sucesso porque deixa as pessoas felizes. Com tantas más notícias, precisamos de um balanço”, arrisca Escorcia. Em conjunto com o marido, o diretor Manuel Fernandes, garante que a marca está atenta às necessidades de cada faixa etária e tenta tornar compatíveis os conceitos de “mochila gira e mochila boa”. Os mais de 70 padrões, entre trolleys e mochilas de asa, tornam a logística “uma loucura”, mas o segredo está mesmo na variedade. “Tem de haver opções para o hippie, para o rockeiro, para quem gosta de corações, para quem gosta de desporto, para os desenhos animados”, enumera a responsável. O Google ajuda a manter vivos modelos mais antigos, que são procurados mesmo quando saem de cena nas centenas de pontos de venda pelo país.

A sede da Totto fica em Trajouce, São Domingos de Rana, na linha de Cascais. Apontássemos o GPS para o Japão e a conversa perderia sentido. Por lá, as crianças começam a escola com um presente que serão encorajadas a fazer durar, pelo menos, durante os seis primeiros anos. A randoseru é uma mochila robusta, feita de couro, aparentemente indestrutível, de estampa lisa e com um preço quase sempre acima dos três dígitos, uma forma de ensinar aos petizes a importância de estimar. Originariamente, as randoseru existiam apenas em vermelho para as meninas e preto para os meninos, mas hoje a paleta de cores abriu-se, e o padrão uniforme já vai dando lugar a pequenos apontamentos de design. Porém, ainda longe dos super-heróis que as crianças portuguesas levam às costas, que podem “perfeitamente durar anos”, mas que nem sempre lá chegam.

Adriana Escorcia conta que, certo dia, descobriu que uma criança “cortava a mochila porque queria uma de outra marca”. Foi preciso conversar com os pais para que percebessem que o defeito não era de fabrico e que a publicidade e “as modas” são apelos aos quais é difícil resistir. Sem citar nomes, a profissional lembra que há marcas, sobretudo de surf, que fazem “mochilas lindíssimas”, só que impróprias para transportar pesos, feitas mais à medida “de um passeio ou de uma ida à praia”. A falta de tempo de alguns pais propicia escolhas desinformadas, feitas para agradar aos filhos, até porque “é difícil recusar um pedido de uma criança”. A menos que estivéssemos no Japão.

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Um peso nos ombros

Serão “perto de 500 mil” as crianças e adolescentes que todos os anos compram uma mochila nova, arrisca Adriana Escorcia, a maioria nas grandes superfícies. Na Totto, o valor ronda as 25 mil e, exceção feita aos trolleys, um pouco mais caros, “uma boa mochila custará entre 26 e 50 euros”. Falta descobrir o que garante o adjetivo. “Precisa de ser resistente e bem acolchoada, para que os materiais não piquem as costas”, explica. Só para o excesso de peso não existe solução, a não ser tirá-lo.

É uma discussão antiga, aqui como noutros países. Já em 2003, Marta Suplicy, à data prefeita de São Paulo, criou uma lei que proibia os estudantes da cidade de transportar mochilas que tivessem mais de 10 por cento do próprio peso, acompanhando as recomendações da Organização Mundial da Saúde. É dizer que um aluno de 40 quilos não poderia levar uma mochila que pesasse mais do que quatro quilos, ficando os professores responsáveis por notificar os pais em caso de incumprimento.

Deste lado do Atlântico, o passo é mais lento. O ano passado foi criada uma petição pública sobre o tema, que chegou à Assembleia da República e uniu os partidos numa recomendação de 11 medidas ao Governo, entre a colocação de cacifos nas escolas, os manuais escolares com indicação de peso e a utilização de “suportes digitais na sala de aula”. Um ano depois, os principais responsáveis pela petição notam que pouco mudou. Um deles, Jorge Ascensão, diretor da Confederação Nacional das Associações de Pais, diz ao Expresso que seria ingénuo pensar o contrário. “Não existe uma solução única, porque isto implica repensar o próprio modelo de ensino”, aponta. A tecnologia é apenas uma muleta a ajudar num caminho que “pode durar décadas”, e que implica também “organizar o ano letivo de outra maneira”, ter manuais escolares “mais leves”, “trabalhos de casa esporádicos” e usar os livros das disciplinas como apoio, não como “o único guia de onde se estuda”. Mesmo com o atual modelo de ensino, e apesar de exemplos de boas práticas em algumas escolas, “é possível fazer melhor”, acredita o dirigente, bastando para isso que haja vontade e que os pais, além do “acompanhamento direto” dos filhos, se unam e “percebam quem os defende e quem os representa na escola”. Por enquanto, persiste “uma cultura de baixa participação cívica, que se estende às escolas”.