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Diretores clínicos do Hospital de Gaia à espera que Ministro da Saúde assine o cheque

Adalberto Campos Fernandes

RUI MINDERICO/LUSA

No dia em que Adalberto Campos Fernandes vai ser ouvido na Comissão Parlamentar de Saúde, os 51 clínicos clínicos demissionários aguardam que o Governo passe das promessas às obras e ponha fim ao sub-financiamento crónico e à galopante falta de condições

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Depois de os diretores de serviço e do presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Gaia/Espinho, António Dias Alves, terem sido ouvidos na Comissão de Saúde da Assembleia da República, esta sexta-feira chegou a vez de Adalberto Campos Fernandes explicar o que se passa num dos maiores hospitais do país.

Ao Expresso, Marques Batista, diretor do Serviço de Neurocirurgia, repete o que afirmou terça-feira na Comissão de saúde: “Os médicos estão fartos de tratar doentes em condições indignas, num hospital que vive há mais de uma década em sub-financiamento permanente, sub-dimensionado para o trabalho que faz e as valências que tem”.

Marques Batista diz que o Hospital de Gaia atravessa a “tempestade perfeita", ou seja, “é um hospital central a sobreviver um orçamento de hospital distrital, com o número de camas reduzido a metade das necessárias, recursos humanos, técnicos de diagnóstico escassos e condições físicas miseráreis. “Basta cá entrar e ver como se trabalha num hospital com áreas médicas de excelência e diferenciadas”, diz o clínico demissionário.

Cansado de esperar por obras prometidas desde que o antigo sanatório foi transformado em hospital há duas décadas, Marques Batista afirma que os demissionários esperam que o ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes passe, hoje, das palavras aos atos e assine o cheque para a retoma das obras, paradas há mais de dois anos.

“Primeiro prometeu-se um hospital a construir de raiz, depois, com a crise, passou-se a um projeto que passava pela construção de quatro edifícios para colher os serviços existentes nos blocos degradados", refere Marques Batista, frisando que dos quatro previstos entre 2014 e 2018, apenas um está de pé, vazio e inacabado”, lembra o clínico que recusa politizar a questão, “que atravessa várias tutelas e remonta ao Governo Sócrates".

"A manta é cada vez mais curta para cobrir as crescentes necessidades, o que levou, por exemplo, a que o nosso rácio de camas seja de 1,6 por mil habitantes, enquanto a nível nacional é de 3,4 camas por mil", refere o diretor de neurocirurgia, situação que “leva a sistemáticos adiamentos de cirurgia” e a situações de doentes colocados em corredores ou a que uma enfermaria de 20 pacientes tenha apenas uma casa de banho.

Embora António Dias Alves tenha admitido na Comissão de Saúde, quarta-feira, a existência de cirurgias adiadas devido a falta de camas ou o défice de pessoal, o Expresso apurou que o administrador do Centro Hospitalar de Gaia/Espinho terá tentado imputar culpas de desorganização ao diretor clínico do hospital, José Moreira da Silva, situação que os médicos refutam.

“O que se passa não tem nada a ver com o diretor clínico. Não tentem fazer deste problema uma guerra de médicos”, frisa Marques Barista, sublinhando que não há organização que resista aos meios atualmente disponíveis.

“Não façam de nós idiotas”, apelam os médicos

De acordo com um chefe de equipa do serviço de urgência, que prefere o anonimato, a eventual tentativa de fintar culpas para o diretor clínico é inverter a questão de fundo, que passa pelo desagrado dos diretores de serviço com as más condições estruturais e de sub-financiamento crónico que duram há mais de uma década. “É um problema que seria decente ser visto de outra forma por parte da tutela", refere um dos clínicos com longa experiência no hospital que lembra ser reconhecido a nível nacional pelo seu elevado nível assistencial, polivalente e com valências de excelência que respondem a 40% dos utentes a norte do Vouga, conjuntamente com o São João.

“É um hospital central e de fim de linha no concelho mais populoso e mais jovem do país, onde a pediatria acolhe 52 mil crianças dos zero aos 18 anos, mais do dobro do Porto", salienta, concluindo que está mais do que na hora “de resolver o enguiço” do sub-financiamento permanente.

O médico que integra o grupo dos demissionários em bloco acha “inacreditável” que o presidente do CA do Hospital tenha referido na Comissão Parlamentar de Saúde que não recebeu nenhum pedido de demissão. "É fazer de nós idiotas, 52 pessoas responsáveis assinaram um documento sem má fé e para dizer basta de condições indignas para quem trabalha e para os doentes", frisa, advertindo que o que pretendem os demissionários não é abandonar os pacientes, mas colocar o Ministério da Saúde numa posição que o obrigue a passar das palavras aos atos.

"Estamos fartos de ouvir falar em fases e planos de obras paradas há mais de dois anos. É um projeto inacabado não desde agora como dos anteriores governos", afirma a mesma fonte, que lembra que já no Governo Passos Coelho os diretores clínicos manifestaram o seu desagrado pela manifesta escassez de recursos e meios humanos, numa instituição de saúde com valências diferenciadas, como a cardio-torácica ou de cirurgia plástica".

A partir de 6 de outubro, se o Governo não der um sinal positivo, os clínicos que se demitiram em bloco deixarão de exercer funções de chefia, o que trará consequências muito graves ao centro hospitalar" anunciou esta semana o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães.