Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“Investir na ciência é crítico para a Europa”

tiago miranda

Jean-Eric Paquet, diretor-Geral de Investigação e Inovação da UE

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

texto

Redator Principal

Tiago Miranda

Tiago Miranda

fotos

Fotojornalista

Portugal “precisa de organizar melhor a relação entre universidades e empresas”, afirma ao Expresso o diretor-geral de Investigação e Inovação da Comissão Europeia (CE). Jean-Eric Paquet foi um dos oradores do encontro “NOVA Science Day”, que decorreu esta semana na reitoria da Universidade Nova de Lisboa (UNL), precisamente com o objetivo de aproximar a academia da sociedade civil. E de “envolver os cidadãos no que de melhor se está a fazer em investigação”, diz um comunicado da UNL. O evento reuniu representantes das universidades, sociedade civil, CE e Governo.

Com o ‘Brexit’, o próximo programa-quadro da UE (2021-2027) poderá ser mais reduzido, mas na ciência sobe de €80 mil milhões (H2020) para €100 mil milhões (Horizon Europe). Porquê?
O Reino Unido vai sair do orçamento da UE, o que coloca grandes constrangimentos nas negociações do próximo programa-quadro. Mas a Comissão Europeia propôs um orçamento global muito ambicioso, que não é menor do que o anterior, porque a Europa tem de investir em novas prioridades. É neste contexto que se situa o Horizon Europe, uma das componentes do futuro orçamento da UE. O comissário da Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas, convenceu os seus colegas da Comissão a serem particularmente ambiciosos e apostarem no investimento de 100 mil milhões de euros na investigação e inovação, o que é plenamente justificado pelo valor acrescentado que os fundos europeus têm na investigação de excelência na Europa, no crescimento económico sustentável e na criação de emprego qualificado. Uma boa parte do investimento é feita pelos Estados-membros e pela indústria. Mas para estruturar este esforço há o investimento da UE. O Horizon Europe transmite, assim, uma mensagem importante.

Só que os €100 mil milhões têm de ser negociados com os Estados-membros.
As negociações ainda não começaram e são sempre tensas. O peso do orçamento da UE no PIB europeu é relativamente pequeno, mas em número de áreas abrangidas faz toda a diferença. Em Portugal, acredito que o Horizon Europe terá um papel-chave na continuação do desenvolvimento da ciência e da inovação.

Está otimista?
Estarei sempre. As negociações são um desafio, mas a proposta da Comissão foi considerada por todos os Estados-membros como um bom ponto de partida. É essencial começar por uma proposta sólida que é vista como equilibrada. Os líderes políticos europeus perceberam bem — como o presidente Juncker já argumentou — que um processo positivo nas negociações do novo programa-quadro da UE, que leve a um certo grau de consenso nos próximos meses, poderá ser útil para as futuras eleições europeias, mostrando aos cidadãos que os seus líderes políticos estão empenhados no projeto europeu. Neste contexto, a investigação e a inovação são identificadas por todos como uma característica-chave do que um orçamento europeu deve ser: ter impacto, valor acrescentado, complementaridade e estruturar o que os Estados-membros já fazem. E confirmando que investir na ciência e traduzir os resultados da investigação em inovação, desenvolvimento industrial e competitividade económica é absolutamente crítico para a Europa.

Portugal poderá beneficiar do Horizon Europe de modo a convergir com a UE no investimento em ciência em percentagem do PIB, passando de 1,33% para 2%?
No atual programa Horizonte 2020, o financiamento da investigação em Portugal aumentou de uma forma muito visível e o país mudou a sua posição, porque o seu peso no orçamento da UE para a ciência aumentou 30% em relação ao programa-quadro anterior (2007-2013). Aconteceu num período de tempo relativamente curto e ficou a dever-se ao reforço do investimento local, aos bons projetos propostos e ao bom uso dos programas existentes. Portanto, não há razão para não acreditar que Portugal vá continuar com este ritmo.

Mas como pode Portugal continuar a convergir com a UE?
Com as reformas estruturais em preparação e em execução. Depois Portugal precisa de investimento para estas reformas e melhorias nas instituições. Aqui há muitas fontes de financiamento, tanto a nível nacional como dos fundos estruturais e regionais europeus, que espero que tenham uma contribuição importante para o esforço de convergência. E o Horizon Europe pode contribuir também para este esforço. Se Portugal aumentar a sua participação em projetos de investigação e inovação neste programa terá benefícios imediatos. E criará também excelência, novas capacidades, visibilidade das instituições, que ao longo do tempo farão o país, a sua ciência e o seu sistema de inovação mais competitivos, contribuindo, assim, para a convergência com a UE.

Quais são os pontos fracos da ciência portuguesa?
Prefiro começar pelos pontos fortes e Portugal tem muitos. O mais forte de todos é a sua base de recursos humanos. O país tem sido particularmente bem-sucedido a atrair jovens estudantes para as áreas da engenharia e das ciências, destacando-se na Europa neste aspeto, porque o peso na população dos novos licenciados nestas áreas é superior à média da UE. Por outro lado, depois da crise tem havido uma atividade empreendedora muito intensa, com uma taxa de criação de empresas acima da média europeia. É claro que nem todas são tecnológicas, mas criam uma base muito forte para a inovação e para traduzir os resultados da investigação em crescimento económico. Quanto aos pontos fracos, é importante Portugal organizar melhor a interação entre universidades e empresas. O país tem criado muitas empresas, mas é necessário que uma boa parte seja impulsionada pelos resultados da investigação científica e pela interação entre academia e negócios.

JEAN-ERIC PAQUET

De nacionalidade francesa, é diretor-geral de Investigação e Inovação da Comissão Europeia (CE) desde abril e tem uma carreira de 25 anos como funcionário da CE, onde ocupou cargos em áreas tão diversas como a proteção de dados, o alargamento da UE, as relações com os países dos Balcãs, a mobilidade e transportes e a investigação.