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A família é um lugar perigoso

Quem são estas pessoas que matam e têm o sangue frio de tentar mostrar que nada se passa? São doentes mentais? São psicopatas? Todos os homicidas são psicopatas? O psicólogo clínico e forense Mauro Paulino dá as explicações (im)possíveis

Mauro Paulino

O início do mês de setembro ficou marcado por um crime cuja brutalidade e contornos suscitaram incredulidade e inquietação. Do que se sabe, a filha, em conjunto com o seu marido, planeou e executou a morte da sua mãe afetiva, mulher que procurou conceder a uma então criança de 9 anos uma nova oportunidade de vida.

Segundo o que foi noticiado, após tirarem violentamente a vida de uma pessoa, seguiu-se uma série de artimanhas, encabeçadas pela filha da vítima, tais como partilhas nas redes sociais, distribuição de cartazes e, até mesmo, entrevistas televisivas. Num comportamento totalmente suspeito para o meritório Departamento de Investigação Criminal de Setúbal da Polícia Judiciária, os autores do crime foram contribuindo, sem aparente noção, para a conclusão do puzzle da investigação que estava a ser realizada.

Pela sua visibilidade, mas também pela sua relevância, muito se falou sobre a postura da arguida ao longo dos contactos quer com os inspetores, quer com a imprensa. A título exemplificativo, um discurso demasiado detalhado, como se de um guião estudado se tratasse, em que cada uma das falas e dos momentos eram sabidos e relatados ao pormenor; palavras de suposta carga afetiva e preocupação em completa desarmonia com o comportamento não verbal; referências feitas à vítima no passado, como se já não existisse, quando para os efeitos, naquele momento, estava desaparecida e incontactável.

Indícios denunciadores

A juntar a isto, há também o revelador histórico de violência com apresentação de queixa à Polícia de Segurança Pública por parte da mãe, que serve de indicador de tensão e problemas consideráveis no relacionamento familiar. Aqui chegados seria importante perceber o que sucedeu com esse processo. Quais os trâmites percorridos e qual o seu desfecho? Poderia uma medida diferente ter resultado num desfecho diferente?

Também denunciador foi o registo informático obtido do computador utilizado pelos alegados homicidas, segundo o qual existiam pesquisas relativamente a métodos tidos por eficazes para concretizar o desaparecimento de um corpo e, assim, ludibriar as autoridades, iludir tudo e todos e concretizar uma motivação de índole económica.

Sem qualquer laivo de inibição conhecido, com maior ou menor participação, filha e marido doparam, agrediram com um martelo na cabeça e queimaram a vítima, deixando uma série de elementos de prova que a investigação criminal e a criminalística vieram a recolher e a sistematizar.

Uma situação extremamente rara

Resumido o sucedido e com a necessária cautela por, em rigor, se estar a presumir como válida a informação noticiada, pairam no ar diversas questões convidativas ao contributo da Psicologia. Quem são estas pessoas que matam e têm o sangue frio de tentar mostrar que nada se passa? São doentes mentais? São psicopatas? Todos os homicidas são psicopatas?

Do ponto de vista ético e até mesmo científico, não é aceitável tecer considerações diagnósticas sobre os visados. Ainda assim, a investigação internacional sobre matricídios, designação utilizada para filhos que matam mães, destaca que a morte das mães por ação das filhas é um fenómeno extremamente raro. Os casos estudados apontam que as homicidas viviam com as mães num ambiente familiar descrito por raiva e zanga significativa, havendo registo de abusos prévios ou uma escalada de violência da filha contra a mãe.

Perturbações de personalidade não são o mesmo que doenças mentais

Despistadas as recomendações de atender a fatores contextuais importantes (como por exemplo, abuso de substâncias) e de apurar eventual doença mental, importa deixar aqui claro para os leitores menos familiarizados com estas matérias que as perturbações de personalidade não são o mesmo que doenças mentais, nem uma personalidade com traços antissociais ou psicopáticos significa que estejam preenchidos todos os critérios associadas ao conceito de psicopatia.

Este é um ponto importante porque, por um lado, alguém que tenha uma perturbação da personalidade tem as suas capacidades de entendimento preservadas, sendo imputável do ponto de vista médico-legal, e, por outro, a configuração de personalidade de uma determinada pessoa pode registar determinados traços potenciadores de comportamentos criminais sem que daí resulte obrigatoriamente um diagnóstico de psicopatia.

Comportamentos de desprezo e despreocupação

Que traços são, então, esses, de acordo com a investigação, e que ajudam a lançar luz sobre o crime que motivou este texto?

Uma postura marcada por um encanto superficial cuja emoção não parece genuína e a apresentação é superficial e pouco credível. Pode suportar-se em estratégias manipulativas com o intuito de obter ganhos pessoais, nem que para isso tenha que incorrer em comportamentos de desprezo e despreocupação pelos seus efeitos na vítima.

A insensibilidade e frieza emocional é particularmente notória durante o crime, perante o desprezo para com os gritos da vítima ou os pedidos para parar, por exemplo. Ainda que possa existir uma tentativa de transmitir remorsos, não aparenta sinceridade e rapidamente pode empurrar as culpas para a vítima ou para as circunstâncias.
Pode tender ainda para um estilo de vida cujo objetivo é o de tirar partido dos outros, existindo pouco compromisso com atividades laborais.

Mentiras persistentes, absentismo escolar, furtos

Estes traços, não raras vezes, manifestam-se na infância e pré-adolescência, tais como mentiras persistentes e continuadas, furtos, absentismo escolar, consumo de substâncias, comportamento agressivo e contactos com a polícia.

Quanto mais cedo se reconhecer esta realidade, maiores as potencialidades de intervenção, de modo a promoverem-se comportamentos prossociais e corrigirem-se trajetórias de vida.

Considere-se as recentes palavras proferidas pelo Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Francisco Miranda Rodrigues, por ocasião da abertura do 4º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses segundo as quais “quando os psicólogos são esquecidos, não são eles, nem a classe e nem a Ordem que são esquecidos - são, sim, os portugueses”.