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Preso traficante de um cartel que escondeu coca em navio de ajuda humanitária. E é português

José Sena Goulão

Fernando Frutuoso fazia parte de um grupo sul-americano que traficava droga para a Europa, Ásia e África. Era procurado internacionalmente há vários meses e foi detido em Espanha esta semana

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Um golden retriever fez desabar uma das redes sul-americanas mais influentes de tráfico de cocaína, no verão passado. Ao farejar o carregamento de um navio de ajuda humanitária das Nações Unidas do programa "Fome Zero" que ia partir da Argentina para a Guiné-Bissau, o cão detetou a presença de cocaína nas 46 toneladas de arroz. A droga já tinha passado pela alfândega em Rosário (cidade situada a noroeste de Buenos Aires).

Depois dessa operação policial, foram sendo apanhados membros do cartel, entre argentinos, equatorianos, colombianos e portugueses. Havia até um médico oncologista especializado no sofisticado método de colar a cocaína nos grãos de arroz. Não é por acaso que a rede era conhecida por "Narcoarroz".

A prisão mais recente é de um português, Fernando Frutuoso, procurado pela Interpol há vários meses. De acordo com as autoridades argentinas, que tinham emitido o mandado de captura internacional em seu nome, o suspeito foi detido na última quarta-feira em Espanha. Uma informação confirmada ao Expresso por fonte da Polícia Judiciária.

Frutuoso era um dos elementos mais influentes desta rede que colaborava com o poderoso cartel colombiano Valle del Norte, para quem o português branqueava dinheiro.

A edição uruguaia do "El País" noticiou no ano passado que esta rede de traficantes de Fernando Frutuoso era composta por 72 pessoas e trinta empresas na Argentina que tinham já lavado mais de 5 milhões de euros. Dinheiro que segundo as autoridades locais servia em grande parte para financiar o terrorismo e o tráfico ilegal de armas em África.

Este grupo transnacional liderado por um ex-polícia colombiano enviava carregamentos de cocaína e metanfetaminas para a Guiné-Bissau, Nigéria, Marrocos e Costa do Marfim. Uma paragem prévia e estratégica antes da droga chegar ao mercado europeu.

A investigação a Frutuoso já tem vários anos e não se confina à Argentina. Um relatório do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, de 2006, revela o papel do português num grupo brasileiro de tráfico investigado pela Justiça do Rio de Janeiro.

As autoridades suspeitavam que Fernando Frutuoso e um cúmplice também português redistribuíam a cocaína importada de Manaus (norte do Brasil) pelas cidades de Lisboa e do Porto. E também por Espanha. Nessa altura a droga era camuflada em caixas de peças de porcelana ou de loiça ou dentro de embalagens de café brasileiro.

Sempre que a coca chegava a Portugal, Frutuoso pagava 400 mil euros a um funcionário do aeroporto de Lisboa para a mercadoria passar pela alfândega sem fiscalização.

O traficante já esteve detido em Portugal por crimes relacionados com o negócio ilegal de droga. Em 2015, a PJ deteve-o depois de ter recebido um pedido de ajuda internacional das autoridades argentinas, com vista à extradição para aquele país e cumprimento de pena de 27 anos de prisão. Frutuoso acabaria no entanto por ser libertado mais tarde pela Justiça portuguesa, depois de ter sido presente ao Tribunal da Relação de Coimbra, que entendeu não o manter preso.

[Notícia atualizada às 17h21]