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Onde vai acontecer o próximo grande sismo?

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De Portugal a Vanuatu, na Melanésia, distam 17.380 quilómetros. Estes dois países têm em comum a probabilidade de poderem vir a sofrer um sismo, algo que um dia há de acontecer. Resta saber como iremos reagir

A vida é feita de incertezas. Até se diz que certo, certo só a morte e os impostos. Entre as inúmeras incertezas há uma que os portugueses podem ter: um dia, o diabo chega em forma de sismo. O problema não é se, é quando. Diz-nos a história — foi há três séculos, mas está bem presente na memória dos lisboetas o terramoto de 1755 — e diz-nos a ciência. As falhas que estão debaixo do nosso país hão de deixar de conseguir segurar a tensão, provocando um sismo.

Sabemos o que é o fenómeno. Estamos mentalizados de que um dia acontecerá de novo. Mas não o podemos prever nem a forma como iremos reagir. Nessa altura — e provavelmente só aí — se verá a capacidade de resistência dos edifícios que fomos construindo ao longo dos anos.

“Um dia a sorte acaba”, frisa Mário Lopes, investigador e professor no Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa. E quando esse dia chegar vai contar a zona do país onde estamos. “Lisboa e o Algarve são, em Portugal, os sítios onde o perigo de atividade sísmica é mais elevado”, diz Fernando Carrilho, especialista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Os sismos maiores costumam ser aqueles que acontecem no mar, a sul e sudoeste de Portugal continental, e cujos efeitos se propagam a terra. Situações diferentes do sismo sentido em janeiro, um dos que mais impacto tiveram nos últimos anos. “Os sismos em terra não têm tido magnitudes tão elevadas como este. Recebemos relatos de praticamente todo o país”, conta Fernando Carrilho. Um sinal de que Portugal está em grande risco?

Comparando com outros países europeus — como a Turquia ou a Grécia, situados no centro das placas tectónicas de África e da Eurásia — o risco é mais baixo, não deixando de ser elevado para os padrões da bacia do Mediterrâneo. Se olharmos para a Turquia ainda vemos efeitos do terramoto sentido na província de Van, em 2011, responsável por 604 mortes. E na memória dos turcos paira também uma catástrofe recente — o sismo que se sentiu em Izmit, em 1999, fez mais de 17 mil mortes.

Lisboa e o Algarve são zonas de risco, porém se olharmos à volta do globo, podemos ver que o perigo aumenta de intensidade na Ásia (ver infografia). De acordo com o World Risk Report, um estudo das Universidade de Ambiente e Segurança das Nações Unidas, a Grécia e a Turquia são os dois países europeus com maior perigo, apresentam um risco de 7,36% e 5,52%, respetivamente. Ficam à frente de Itália (4,88%), Croácia (4,24%), Rússia (3,78%), Reino Unido (3,71%), Espanha (3,38%), Alemanha (3,24%), França (2,79%), Suíça (2,61%) e Suécia (2,26%).

Mas mesmo assim estão muito abaixo de Vanuatu (36,4%), Tonga (28,2%) ou Filipinas (27,5%), os três países com maior probabilidade de sofrerem um abalo sísmico (ver tabela). O mundo abanou logo no início do ano, intensamente, por três vezes. Primeiro no Alasca, depois nas Honduras e a seguir no Peru, três sismos de intensidade superior a 7, já considerado grave, e com probabilidade de causar danos em zonas vastas. Acontecem apenas 120 vezes por ano. Equivalem um pouco mais à energia libertada pela bomba atómica de Hiroxima.

Portugal não ficou indiferente aos abalos. “Deve-se à localização especial junto à fronteira de placas da Eurásia e de África, uma componente de compressão que provoca tensões. E as falhas deixam de ser capazes de suportar essas tensões e libertam energia”, explica Fernando Carrilho. É então que se sente o chão a tremer.

E, ultimamente, os portugueses têm sentido o chão a tremer mais vezes. Ou, pelo menos, têm tido essa perceção, porque há sismos tão pequenos, como os de intensidade inferior a dois, que nem sequer são sentidos pelos humanos. E outros, como os de intensidade dez, dos quais não há registos. E cuja devastação seria impossível de prever.

Quando Portugal tremeu a 14 de janeiro, houve tremores e ruídos, mas não houve danos físicos. Foi o resultado de um sismo de intensidade de 4,9, que acontece 6200 vezes por ano. Nessa altura, abateu-se sobre as populações do sul e de Lisboa e Vale do Tejo. A culpa é da falha de Arraiolos. Resultou — como em todos os sismos – de um movimento súbito de uma falha geológica pré-existente, com alguma profundidade, na zona de Arraiolos e seguiu a direção oeste-este. O tempo fez com que aquela zona tivesse acumulado tanta tensão que se tornou impossível aguentar e, então, libertou-se. Bastou um movimento súbito entre os blocos da falha e a terra tremeu.

Com o terramoto de 1755 sempre a pairar na cabeça, os lisboetas (e os portugueses) começaram a procurar resposta para as dúvidas. Será que entrámos numa escala em crescendo? E o próximo será de intensidade 5 (moderado, podendo acontecer 800 vezes por ano); 6 (pode chegar até 160 quilómetros do epicentro); 7; 8 (pode causar danos a centenas de quilómetros do epicentro e só acontece uma vez por ano); ou 9 (com um raio de devastação a milhares de quilómetros, dos que presenciamos uma vez a cada 20 anos)?

Será que estamos preparados?

Mais do que saber quando vai acontecer é importante saber se os prédios em que habitamos e as infraestruturas por onde nos movimentamos aguentarão quando a terra abanar. “Depende da construção. Se o prédio tiver sido construído depois de 1958 — altura em que a legislação mudou e as regras de construção passaram a prever a resistência aos sismos — então, está-se mais protegido”, explica Mário Lopes.

O que faz com que, por exemplo, no centro de Lisboa, se estiverem dois prédios lado a lado e um tiver sido construído antes de 1958 e outro depois, o impacto do sismo será diferente. Se não tiver resistência, colapsa. Se tiver, treme mas não colapsa. “Quando se muda o regulamento, normalmente, a bitola aumenta. O problema é a fiscalização. Se não houver fiscalização... Há muitas pessoas incompetentes e desonestas que se aproveitam da falta de fiscalização. E, neste caso, só se notam os efeitos em caso de tragédia, quando o sismo acontecer”, frisa Mário Lopes.

As dúvidas do investigador recaem tanto na construção nova como na reconstrução: “Põe-se o mercado imobiliário à frente das pessoas.” Durante o período da troika, em caso de reconstrução deixou de ser obrigatório ter em conta a legislação anterior ao período de construção. Na prática, há o risco de edifícios que parecem novos (e que de alguma forma o são, já que foram reconstruídos) se tornarem em baralhos de cartas quando o chão tremer.

Um estudo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil indicava que se o sismo de 1755 se repetisse (na altura em 2006, o ano em que os dados foram divulgados) poderia causar entre 17 a 27 mil mortos. “A probabilidade de um sismo causar grandes danos é maior em Lisboa porque produz 40% do PIB e tudo está situado aqui. Iria afetar o resto do país que teria de socorrer Lisboa. Em Istambul, na Turquia, o perigo de atividade sísmica é maior, mas no resto do país também é maior, logo tem maior capacidade de socorro”, frisa o professor do IST.
Em caso de sismo, o ideal seria ficar na rua, em campo aberto e sem prédios ou postes de eletricidade é que nos poderemos considerar a salvo. Cenário difícil em cidades como Lisboa, que são testadas no momento em que o sismo se dá. “Só nessas alturas — de catástrofe — é que se pode ver se os prédios estavam construídos de acordo com as regras”, continua Mário Lopes.

Impossível de prever

E é essa qualidade de construção que vai determinar as dimensões do sismo. No Japão, onde o perigo é bem maior, os edifícios estão de tal forma bem preparados que os japoneses sofrem um sismo, os prédios tremem, há cortes de eletricidade, mas não há mortes e as pessoas continuam a fazer a sua vida normalmente. Até mesmo durante o sismo.

É esta certeza de uma incerteza que deixa quem vive nas zonas de risco mais aflito e a pedir à ciência que lhes indique em que momento do tempo haverá de se sentir o sismo. Os sismólogos sabem apenas que há de vir e quais as áreas de perigo. Porém, a previsão sísmica — como ciência exata — é algo que não é possível fazer.

“Isso não existe. Não é aceite cientificamente a possibilidade de se preverem sismos. Não seria correto”, sublinha Fernando Carrilho. Sabem os locais — e que no futuro Lisboa e o Algarve serão afetados por grandes sismos (provavelmente de escala 7) —, mas é impossível saber quando. Não se pode dizer que haverá um sismo no dia xis, à hora ípsilon. Nem precisar com exatidão quando haverá um tremor de terra. Falta esse elemento na equação. “As condições geológicas são as mesmas que havia há milhares de anos e que geraram vários episódios e vão, certamente, gerar mais. Os períodos de cadência é que são muito longos e não é possível fazer aquilo que as pessoas entendem como previsão”, explica o especialista do IPMA.

A prevenção que é possível fazer é a da proteção civil, das autoridades e da capacidade destas em prepararem mecanismos de defesa e socorro em caso de catástrofe. E também não vale a pena pensar na reação, não haverá maneira de lhe passarmos incólumes, é tão certo como a morte ou os impostos. “Não são os sismos que matam, só por si, as coisas é que se tornam um perigo para nós. Se ficarmos na rua, em campo aberto, não haveria consequências. O problema é que a nossa vida é feita nos prédios”, lembra Francisco Carrilho.

(Artigo publicado originalmente no site do Expresso a 11 de março de 2018)