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Um legado “deprimente e vergonhoso”: 68 anos e 3677 crianças abusadas na Igreja Católica alemã

Fernando Lavoz/ Getty

Por agora, não há histórias especificas, apenas os números. Por vezes, mais do suficientes para contar uma história. E este é um desses casos: 3677 crianças abusadas por 1670 membros da Igreja Católica na Alemanha. Foram analisados cerca de 38 mil documentos de 27 dioceses

A maioria são rapazes, quase todos com menos de 13 anos. Este é o perfil mais comum entre as 3677 crianças vítimas de abusos sexuais na Alemanha, números agora revelados nas conclusões preliminares de um estudo encomendado pela Conferência Episcopal Alemã, obtidos pela revista semanal “Der Spiegel ” e divulgados esta quarta-feira. Muitas vezes, as vítimas eram acólitos. Muitas vezes, os predadores eram padres.

Os casos aconteceram entre 1946 e 2014, envolvendo 1670 clérigos – dos quais cerca de 4% continuam hoje em funções.

A cada seis vítimas, uma era violada. Ou seja, cerca de 580 crianças terão sido violadas. Todas as outras passaram por alguma forma de abuso sem serem necessariamente violadas, embora ambas as práticas sejam uma forma de violência sexual: no abuso é irrelevante se a vítima foi ou não forçada, enquanto na violação há o pressuposto de que esta foi obrigada, seja pelo uso da força física ou por ameaça, a ter relações sexuais.

Até 25% dos casos de abuso aconteceram na Igreja ou graças a um relacionamento pastoral com a criança. Aliás, era frequente que a vítima fosse um acólito e 969 dos casos reportados dizem respeito a jovens que prestavam apoio aos padres na celebração da missa.

Grande parte dos abusos, os casos nunca chegaram à Justiça. O procedimento habitual, quando denunciados, passava por transferir o suspeito de diocese sem explicar o verdadeiro motivo da mudança. Apenas um terço dos predadores foram julgados segundo a lei canónica e alguns deles foram sancionados com castigos menores.

No total, mais de 38 mil documentos de 27 dioceses alemãs foram investigados ao longo de quatro anos. No entanto, muito ficou por saber. Aos autores chegou a ser negado o acesso à documentação original, aspeto que é salientado nas conclusões: “Todos os arquivos foram revistos por pessoal diocesano ou por advogados designados pela diocese”. Há provas, também, de que alguns ficheiros foram manipulados ou destruídos.

Celibato: um factor de risco

Os investigadores apontam o celibato obrigatório como “um potencial factor de risco” para que os abusos a menores sejam perpetrados. E, por este motivo, apelam a que a questão seja repensada pela Igreja, assim como a possibilidade de consagrar homossexuais.

O estudo final, realizado pelas Universidades de Mannheim, Heidelberg e Giessen, só deverá ser apresentado a 25 de setembro. A sua publicação e divulgação ainda está pendente.

É deprimente e vergonhoso para nós”, considerou o bispo Stephan Ackerman, numa nota escrita enviada ao semanário alemão, em que lamenta que alguns dos resultados tenham sido publicados antes do previsto. “Sabemos a extensão dos abusos sexuais que ficaram provados com este estudo. Estamos desapontados e envergonhados.”

Esta não é a primeira vez que a Igreja Católica na Alemanha se vê envolvida em casos de violência sexual. O próprio pedido do estudo surge no seguimento de uma série de denúncias em 2010 que, dois anos mais tarde, terminaram com as autoridades canónicas a pagarem indemnizações às vítimas.

Os números do estudo foram publicados pela imprensa no mesmo dia em que o Papa Francisco, que tem recusado comentar as diversas acusações que têm surgido, convocou uma reunião sem precedentes, para a qual chamou bispos de todo o mundo com o objetivo de discutir a proteção de menores. “O Santo Padre, depois de ouvir o Conselho de Cardeais, convocou uma reunião com os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo para discutir a prevenção do abuso de crianças e adultos vulneráveis”, disse a vice-diretora do gabinete de imprensa do Vaticano, Paloma García Ovejero. O encontro vai realizar-se entre os dias 21 e 24 de fevereiro.

Nos últimos tempos, têm surgido várias revelações do envolvimento de membros do clero em casos de abusos a menores. No mês passado, por exemplo, foi conhecido um relatório com mais de 800 páginas que mostra como “padres predadores” de seis de oito dioceses da Pensilvânia (EUA) usaram a fé das crianças e a confiança neles como líderes religiosos para cometerem abusos e, em seguida, as silenciarem.

Desde os anos 1940, possivelmente muito mais do que mil crianças terão sido abusadas, de acordo com o relatório, que apresenta alegações documentadas contra 301 padres. As seis dioceses investigadas representam cerca de 1,7 milhões de católicos. As restantes não foram incluídas porque já tinham sido investigadas anteriormente.