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Investigação de Joana Pereira Bastos sobre cheias de 1967 vence prémio Orlando Gonçalves

Júri distinguiu por unanimidade a reportagem sobre as cheias de fevereiro de 1967 publicada no Expresso. "Escravos do rio", um trabalho de Raquel Moleiro, também do jornal Expresso, sobre a pesca clandestina de ameijoas no estuário do Tejo, recebeu uma menção honrosa

A reportagem "A vida que a chuva levou", da jornalista Joana Pereira Bastos, venceu, por unanimidade, a 21.ª edição do prémio literário Orlando Gonçalves, anunciou nesta segunda-feira a Câmara da Amadora. O trabalho de investigação, publicado no ano passado no semanário Expresso, resgata a memória das cheias ocorridas na madrugada de 25 para 26 de novembro de 1967, na região de Lisboa, que causaram a morte a mais de 500 pessoas, nos bairros mais pobres, constituindo o maior desastre natural em Portugal, desde o terramoto de 1755.

Numa pesquisa exaustiva dos factos dessa noite, que vai da recolha dos testemunhos de sobreviventes e voluntários, a notícias da imprensa da época, nacional e internacional, Joana Pereira Bastos demonstra o impacto da tragédia, a realidade do país em que esta ocorreu e como "marcou o despertar político de toda uma geração", na ditadura do Estado Novo.

Joana Pereira Bastos, licenciada em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa, é jornalista do Expresso desde 2009, onde chegou depois de seis anos de trabalho na agência Lusa, tendo iniciado a carreira como estagiária, no Público. É autora do livro "Os Últimos Presos do Estado Novo".

Além da atribuição do prémio, por unanimidade, o júri decidiu ainda dar menções honrosas a "Escravos do rio", de Raquel Moleiro, também do jornal Expresso, reportagem sobre a pesca clandestina de ameijoas, no estuário do Tejo, e a "Um país a arder pelas raízes - 24 horas a escutar aqueles que foram deixados para trás", trabalho de Paulo Moura, sobre os incêndios de junho do ano passado, na região de Pedrógão Grande, publicada no 'site' Sapo24.

O prémio literário Orlando Gonçalves premeia anualmente, de forma alternada, uma obra de ficção narrativa e um trabalho jornalístico ou de grande reportagem. Entre os vencedores de edições anteriores estão autores como José Viale Moutinho, Rui Hebron, Joaquim Franco e Nuno de Figueiredo.

Instituído em 1998 pela Câmara Municipal da Amadora, o prémio tem por objetivo "homenagear a memória do escritor e jornalista Orlando Gonçalves", "incentivar a produção literária" e contribuir "para a defesa e enriquecimento da língua portuguesa". Os prémios serão entregues numa cerimónia a realizar no próximo sábado à noite, na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos, na Amadora, no âmbito da Festa do Livro.

O júri da 21.ª edição do Prémio Literário Orlando Gonçalves foi constituído por Joaquim Franco, em representação da Câmara da Amadora, Leonor Xavier, pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), e por Sofia Branco, presidente do Sindicato dos Jornalistas.

À modalidade de ficção podem concorrer todas as pessoas maiores de idade, na modalidade de trabalho jornalístico, de investigação ou grande reportagem, podem concorrer todos os detentores da carteira profissional, segundo o regulamento.
O valor do prémio, no montante de 4.987,98 euros, não é divisível.

  • A vida que a chuva levou

    Na noite de 25 para 26 de novembro de 1967 mais de 500 pessoas morreram numa enxurrada que arrasou as zonas mais pobres da região de Lisboa e Vale do Tejo. Foi o maior desastre natural em Portugal desde o terramoto de 1755. A ditadura de Salazar quis silenciar a tragédia, que marcou o despertar político de toda uma geração

  • Escravos do rio

    São mais de mil. Todos os dias apanham no Tejo toneladas de amêijoas japonesas, contaminadas mas que geram milhões. Não para eles. Tailandeses e romenos são controlados por redes que começam no estuário e terminam na Galiza. Pelo caminho há agressões, armas, furtos, falsificações, fraude fiscal, atentados à saúde pública, exploração laboral e suspeitas de tráfico humano