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Portugal também ardeu no Brasil

No alto, uma imagem do incêndio e, em baixo, 
peça da Coleção Werner, comprada pela Coroa portuguesa

RICARDO MORAES/REUTERS

O fogo que destruiu 200 anos de história no Museu Nacional no Rio de Janeiro também afetou o acervo português

Quando, em 1807, o general Junot rumou a Portugal por ordem de Napoleão, trazia, para lá da conquista territorial, a missão de roubar a Coleção Werner, um conjunto de minerais raros comprados no século XVIII pelo primeiro conde da Barca por ordem da Coroa Portuguesa. Quando chegou, a Família Real partira para o Brasil e, com ela, as pedras organizadas pelo geólogo alemão Abraham Werner. Por 200 anos, as cerca de 60 peças, com poucos centímetros de dimensão cada uma, ficaram no Paço que chegou a ser a casa de D. João VI, tendo sido depois doadas ao que viria a ser o Museu Nacional (MN). No último domingo, o edifício no Rio de Janeiro foi devorado por um incêndio e a coleção dada como desaparecida.

“Eram tesouros do reino português, antes da mudança para o Brasil, e são um exemplo de como o fogo que destruiu o MN atingiu a história de vários países”, disse ao Expresso Luiz Fernando Dias Duarte, diretor-adjunto do MN e há 40 anos ligado à instituição. Parte da coleção estava exposta desde o fim de 2017 no edifício principal, zona fortemente afetada pelo incêndio. Na quinta-feira, surgiram notícias de que a coleção Werner, que nunca foi exibida em Portugal, tinha sido parcialmente recuperada, informação confirmada ao Expresso pelo porta-voz do MN

Não se conhece, contudo, o paradeiro da taça de Constantino, peça em bronze com uma escultura de coral, referida por Luiz Fernando Dias Duarte como outro “tesouro português”. Salvou-se o meteorito Bendegó, mas a peça mais referida foi o crânio mais antigo das Américas, com mais de 11 mil anos, conhecido pelos brasileiros como Luzia, cuja descoberta entre os escombros não foi confirmada. O espólio do MN incluía ainda frescos de Pompeia, múmias e sarcófagos egípcios, coleções de animais e de plantas e a avaliação das perdas está longe de ter sequer começado. “A situação é muito precária no edifício, sob risco de desabamento, e o rescaldo, quando puder realmente começar, será acompanhado pelos arqueólogos do MN”, explicou o diretor-adjunto.

O museu brasileiro comemorava 200 anos de existência em 2018 e, segundo Luiz Fernando Dias Duarte, “era muito mais do que um museu, era uma casa de investigação científica, onde trabalhavam 90 pesquisadores, com cerca de 250 funcionários entre técnicos e administrativos e 200 alunos em seis cursos de pós-graduação”. Por isso, considera que o fogo que destruiu o museu “é uma metáfora do Brasil e da ruína moral que atinge o país”.

Um destes investigadores é Evandro Bonfim, cujo pós-doutoramento na área da linguística ficou comprometido. Dedicava-se ao estudo de línguas indígenas, cuja única fonte de informação eram as listas de palavras dos cadernos manuscritos por D. Pedro II, último imperador brasileiro, filho de D. Pedro IV de Portugal. “Terei de recomeçar do zero, não sobrou nada. Os povos que falavam aquelas línguas desapareceram, mas o que mais lamento é que o Brasil viva eternamente no presente, sem dar importância ao passado”, desabafou ao Expresso o antropólogo.