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#internet. O triunfo do insulto fácil

Um bom princípio: antes de escrever algo escondido atrás de um telemóvel, pense se o diria na cara da outra pessoa

Foto Getty Images

O melhor título de uma crónica na imprensa portuguesa é “Chamem-me o que quiserem”, do Henrique Monteiro, às quartas no Expresso Diário. É que hoje é praticamente impossível debater o que quer que seja, sobretudo nas redes sociais, sem que a discussão resvale facilmente para o insulto. Em vez de se debaterem ideias, ataca-se o seu autor. Por isso, se um cronista tem a utópica ambição de ser consensual, o melhor é dedicar-se a outra profissão. Mesmo um texto inofensivo sobre o que gosta de comer ao pequeno almoço irá encontrar algum troll pelo caminho. O melhor é sorrir perante o insulto e não lhe atribuir demasiada importância.

Embora responda sempre aos emails dos leitores, mesmo os menos simpáticos, evito ler os comentários a estas crónicas. É, acima de tudo, uma questão de higiene mental. Mas alguns insultos, de tão originais, podem até originar um texto: aconteceu, por exemplo, quando me chamaram “cocaínado”, inventando até uma desintoxicação em Espanha. Nem a família está a salvo: por causa deste estudo, foram várias as sugestões para que deixasse a mãe, a irmã e/ou a namorada em Alvalade para lhe mostrarem “o que é um sportinguista” (e uns quantos pedidos, que duraram semanas, para que fosse despedido). E o que se responde a um leitor que, depois de ler este artigo com vários mitos sobre refugiados, me escreve dizendo que se lembrará de mim se um dia os pais morressem numa explosão dentro de um autocarro?

Ter opinião tornou-se uma coisa perigosa. Não é sequer de agora. Já em 1764, Voltaire escrevia no seu “Dicionário Filosófico” que “a espécie humana está feita de tal forma que os que andam pelo caminho trilhado atiram pedras ao que apontam um novo”. Deveríamos refletir sobre isso: queremos mesmo uma sociedade conformista, onde as pessoas se abstêm de discordar com medo de serem ofendidas ou rejeitadas? Onde é que isso nos levará?

É pelo debate e pelo confronto de ideias – mesmo aquelas que nos parecem mais inquestionáveis – que as sociedades avançam. É fácil insultar Marine Le Pen ou os “negacionistas” das alterações climáticas, como é fácil troçar de Trump ou de Bolsonaro. Mas não é negando-nos a rebater as suas ideias que as impediremos de se propagarem. Só confrontando-as é que poderemos iluminar o caminho para quem ainda não o encontrou. Se desistirmos disso, depressa estaremos num beco sem saída. Deram-nos a liberdade de expressão para fazermos bom uso dela. De que é que estamos à espera?