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Alterações climáticas. Organização de reunião de “negacionistas” diz que cientistas estão a defender salário

A docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde decorre até sábado a conferência sobre alterações climáticas, acredita por isso que esta é “uma polémica que vai durar anos, porque daí depende o paradigma do atual modelo económico”

A presidente do comité de organização da conferência de “negacionistas” das alterações climáticas, Assunção Araújo, afirmou esta sexta-feira que cientistas signatários da carta aberta ao reitor da Universidade do Porto estão a defender os seus salários.

"As pessoas estão a proteger os seus próprios salários, são empregos que estão em jogo. Há milhares, se calhar milhões de pessoas no mundo inteiro, a depender dos estudos que faz o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e as agências governamentais que tratam destas questões", afirmou Assunção Araújo.

A docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde decorre até sábado a conferência, acredita por isso que esta é "uma polémica que vai durar anos, porque daí depende o paradigma do atual modelo económico", designadamente por considerar existirem interesses económicos dos dois lados.

Para a responsável, no caso dos cientistas que defendem que a ação humana tem impacto nas alterações climáticas, os interesses estão “ligados às energias renováveis”.

Assunção Araújo considerou, contudo, que a Universidade se "portou razoavelmente" perante a polémica instalada em torno desta conferência, mantendo o espaço de pluralidade e abertura para discutir o tema das alterações climáticas.

A questão, disse a docente, é perceber quais as causas das alterações climáticas e o que este grupo que participa defende "é que são causas complexas".

Assunção Araújo sublinhou ainda que a conferência está aberta à participação do público em geral, defendo que este encontro pretendeu promover uma discussão alargada sobre uma matéria científica."Os cientistas que apresentamos são pessoas que dedicaram a sua vida inteira a esta questão e que não podem ser menosprezadas. Não estão ligadas a interesses económicos ainda que possam ter um primo ou um tio" com ligações políticas, afirmou.

A realização desta conferência na Faculdade de Letras da Universidade do Porto levou mais de 30 cientistas de várias instituições do país a subscreverem uma carta aberta ao reitor da Universidade do Porto, António Sousa Pereira, em protesto contra a realização do evento, por considerarem que “não é possível hoje negar o consenso generalizado dentro da comunidade científica de que as atuais alterações climáticas são causadas pelas ações com origem humana”.

A conferência "Basic Science of a Changing Climate" é organizada pelo grupo “negacionista” Independent Committee on Geoethics, e tem como objetivo, como se lê no site da própria Universidade do Porto, "(des)construir algumas ideias sobre alterações climáticas".

Entre os oradores está Piers Corbyn, irmão do líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn, que considera que a contribuição humana no aquecimento global é "mínima" e que o aumento da temperatura se deve a um aumento da atividade solar.

Em comunicado enviado à Lusa na terça-feira, a Universidade do Porto esclareceu que a realização da conferência deste encontro "não significa que as posições assumidas pelos seus oradores e participantes sejam um reflexo da visão da Universidade do Porto sobre o tema em debate".

Segundo as Nações Unidas, "as alterações climáticas estão a afetar todos os países em todos os continentes" e a perturbar as economias nacionais "hoje e ainda mais amanhã".

Os padrões climáticos "estão a mudar, os níveis do mar estão a aumentar, os fenómenos climáticos estão a tornar-se mais extremos e as emissões de gases de efeito de estufa estão agora nos níveis mais altos da história".

Sem ação, alerta ainda a ONU, "a temperatura média da superfície do mundo provavelmente ultrapassará três graus centígrados neste século".

A conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas de Paris, em 2015, obteve o acordo de quase todos os países no sentido de travar o aquecimento global, limitando o aumento da temperatura a menos de dois graus celsius em comparação com a era pré-industrial.