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O caso do autor anónimo no “New York Times”: serviço aos leitores ou golpe na credibilidade?

ANGELA WEISS/ Getty Images

O “New York Times” publicou um artigo de opinião que revela detalhes da liderança de Trump sem atribuir a autoria. As comparações com o “caso Watergate” e o informador “Garganta Funda” são quase inevitáveis. O Expresso ouviu jornalistas, diretores e académicos, e as opiniões dividem-se

Quais os limites da confidencialidade? A exceção justifica o segredo, defende quem está a favor da publicação, pelo “New York Times”, do artigo de opinião anónimo em que se diz que há uma “resistência” interna contra Trump e contra várias das suas políticas, tidas por “irascíveis”. Quem está contra, fala no risco de perda de credibilidade. O jornal norte-americano justificou a abertura deste precedente - foi a primeira vez que publicou um artigo de opinião cujo autor não é identificado - com a necessidade de “dar uma perspetiva importante” a que os leitores não teriam acesso de nenhuma outra forma. Mas será que não teriam de facto?

“Para denunciar situações excecionais é preciso às vezes tomar decisões excecionais”. É desta forma que Joaquim Vieira, jornalista e antigo provedor do leitor do jornal Público (2008-2009), resume ao Expresso a sua posição em relação à publicação, pelo jornal norte-americano “New York Times”, do artigo de opinião anónimo em que se afirma que há na Casa Branca uma “resistência” interna contra as posições “irascíveis” do Presidente Donald Trump, descrito como "amoral", “antidemocrático” e responsável por decisões “imaturas, mal informadas e ocasionalmente imprudentes”.

E que situação excepcional é esta que justifica a publicação de um artigo de opinião cujo autor não aparece identificado? Ao Expresso, o jornalista diz que a resposta está no próprio artigo, em que fica patente que a forma de governar de Donald Trump “não é normal”. “Há funcionários na Casa Branca a impedir que o Presidente faça certas coisas. Isso não é normal numa democracia”.

Joaquim Vieira escuda-se na regra do Código Deontológico do Jornalista que assegura a proteção e segurança das fontes para defender a sua opinião. “Se fosse divulgada a identidade do autor do texto, o seu lugar estaria mais do que em perigo. Todos nós sabemos bem o que tem acontecido àqueles que saem da Casa Branca. Tornam-se alvos do revanchismo de Donald Trump e dos seus insultos”. Por outro lado, diz o jornalista e antigo provedor, é útil e “mais importante” para o jornal e, essencialmente para os seus leitores, “ter alguém dentro da Casa Branca que comunica abertamente para o exterior”, ainda que de forma confidencial. “É uma maneira de se conhecer uma determinada realidade que as fontes oficiais, e em particular as fontes da Casa Branca, que têm uma linguagem de palco e limitam-se a reiterar a posição oficial, nunca deixariam apreender.”

A reação de Trump no Twitter à publicação do artigo de opinião

A reação de Trump no Twitter à publicação do artigo de opinião

MANDEL NGAN/ Getty Images

A publicação do artigo de opinião anónimo no jornal norte-americano, na quarta-feira, deu azo a várias comparações com a história do “Garganta Funda”, alcunha de William Mark Felt, o antigo diretor-adjunto do FBI que denunciou clandestinamente o ex-presidente norte-americano Richard Nixon no "escândalo Watergate". Também para Joaquim Vieira as semelhanças são óbvias e também por isso, ou precisamente por isso, se justifica a publicação deste artigo deste opinião. “Permite dar a conhecer ao público informações a que este nunca teria acesso se fosse necessária a identificação do autor. É uma questão de interesse público, tal como o era no caso do ‘Garganta Funda’”.

E se há diferenças óbvias entre os dois casos - o "caso Watergate" deu-se com a partilha de informações confidenciais com dois jornalistas e não com a publicação de um artigo em bruto - isso não é, para o jornalista e antigo provedor, relevante. “É apenas um detalhe. O artigo de opinião acaba por ser uma forma diferente de transmitir ao leitor informações que são confidenciais. A maneira de fazer as coisas é diferente mas o fim é o mesmo”, defende.

O jornalista e antigo provedor não desvaloriza os riscos da decisão editorial, nomeadamente o de o leitor tomar por verdadeiro aquilo que é apenas um ponto de vista, mas lembra “que todos os dias vemos centenas de casos em que as fontes não estão identificadas” e que, embora isso seja “irregular do ponto de vista das regras jornalísticas”, cabe ao jornal fazer por merecer a confiança do leitor e ao leitor escolher se confia ou não.

Pedro Santos Guerreiro, jornalista e diretor do Expresso, também invoca “situações de exceção” em que se justifica a publicação. Reconhece que as regras ditam que o sigilo seja garantido em matérias de informação e não opinião, mas “há exceções que têm que ver com o interesse público”. Neste caso, o interesse público “é o de permitir aos leitores e eleitores americanos ter conhecimento de como é exercido o poder executivo na Casa Branca através de alguém que conhece bem o meio, algo que é relevante quando estão em causa critérios de conduta democrática e exercício do poder”. Por outro lado, acrescenta, há ainda a ter em conta a “proteção da fonte” ou, no caso, o autor do texto de opinião. “Aplica-se tipicamente em regimes autoritários e ditatoriais. Donald Trump segue uma política baseada no medo e em represálias contra aqueles que o criticam.”

Mas não será a falta de contexto para o leitor um problema? Pedro Santos Guerreiro diz que não e refere que “sempre que um jornalista escreve em off the record está a escudar-se na reputação que o próprio criou na relação com os leitores e, portanto, é essa relação de confiança entre leitores e jornal que faz com que os primeiros confiem nos critérios do segundo e acreditem na veracidade desses off the records”. Os riscos são óbvios mas são também necessários. “Um jornal que é anódino é um jornal que não existe, é um Diário da República, é um reprodutor de factos. O ‘New York Times’ não quis ser anódino” e entendeu agir em função do interesse público, sabendo perfeitamente que ia ser criticado por isso. Tomou uma posição editorial perante factos políticos muito fortes e isso também o qualifica”, diz ainda o diretor do Expresso.

“As opiniões têm força em função de quem dá a cara por elas”. O outro lado

No Código Deontológico do Jornalista pode ler-se: “as opiniões devem ser sempre atribuídas”. E é recorrendo ao ponto seis deste documento que Joaquim Fidalgo, professor assistente da cadeira de Jornalismo na Universidade do Minho, em Braga, justifica a posição. “Tenho as maiores dúvidas sobre o procedimento”, começa por dizer ao Expresso. “Se alguém insultar o Presidente da República, é completamente diferente se for um jovem inimputável ou se for um ministro da República. As opiniões têm força em função das pessoas que dão a cara por elas. Neste caso, acho que é muito difícil justificar que se dê o anonimato para uma opinião destas”, defende.

Mario Tama/ Getty Images

Também São José Almeida, presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas e jornalista do “Público”, considera que o que foi feito pelo jornal norte-americano representa um enorme risco, uma vez que se trata da publicação de declarações que, além de não terem autor, não têm tratamento jornalístico. “Uma coisa é serem usadas fontes sob sigilo, que na verdade não são anónimas. Estão sob anonimato, mas o jornalista sabe quem são, faz o seu trabalho jornalístico, medeia o confronto de fontes, faz a verificação dos factos, depois utiliza esse dados e até pode usar opiniões expressas anonimamente”, explica, sublinhando que todo este processo garante ao leitor a relação de confiança com o jornalista enquanto mediador na transmissão de informação. “Aqui não estamos perante isso. Temos opinião sem qualquer tratamento jornalístico, publicada anonimamente e isso não faz parte das regras do jornalista. Não devia ser feito”, defende São José Almeida.

A presidente do Conselho Deontológico fala numa contaminação das redes sociais - “mas o jornalismo não é redes sociais” - e lembra que até aí os comentários têm o autor identificado. “O que não acontece neste artigo, que tem claramente objetivos políticos. Não sei se é certo ou errado, mas já entra no domínio do que pode ser considerado uma campanha permitida por um jornal”, diz.

Tanto para São José Almeida como para Joaquim Fidalgo existia outra solução: em vez de um opinador haveria uma fonte sob sigilo; em vez de uma opinião haveria uma notícia. “Apesar de o jornal ter alegado que era a única forma de o fazer, não é verdade. Poderia dar a informação através de notícia. Usava aquelas declarações e tratava-as noticiosamente”, defende a jornalista. “É mais trabalhoso, demorado e difícil. É mais fácil pedir uma opinião”, diz o professor de jornalismo, que acrescenta que a não identificação do autor retira credibilidade ao texto. “É muito fácil ferir de morte esta opinião dizendo que ‘afinal se calhar foi um jornalista que inventou’”, acrescenta o professor.

O anonimato justifica-se em casos de segurança ou de um bem maior. No entanto, a questão da confidencialidade deveria, na opinião de ambos, ser apenas a exceção. Em Portugal, dizem, é a regra. “Diariamente, os jornais fazem notícias com base em informação de origem confidencial mas tratam-na jornalisticamente”, explica São José Almeida. “Em certas circunstâncias, pode-se garantir a confidencialidade para matérias de facto. As opiniões devem ser sempre atribuídas e isso é o ponto, para mim, mais desrespeitado em Portugal, nomeadamente no jornalismo político. Recorre-se muito a isso. As pessoas dão as opiniões que querem porque sabem que não são identificadas. Dizem o que lhes apetece, fazem jogo político, manipulam informação”, acrescenta o professor da Universidade do Minho.

O sigilo das fontes faz parte das regras estruturantes do jornalismo e nem em tribunal pode ser colocado em causa. “Isso não acontece com a opinião, porque não é trabalho jornalístico, é opinião de quem a subscreve e neste caso não está subscrita”, diz São José Almeida. “Ao fazer isto, o ‘New York Times’ está, ele próprio, como título, a subscrever um artigo de opinião cujo autor não revela. E não foi o ‘New York Times’ que escreveu o artigo.”

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