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Conferência negacionista sobre alterações climáticas: “Não vão discutir ciência, vão discutir profissões de fé”

Pedro Matos Soares, investigador do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, trabalha num consórcio europeu integrado no programa Mundial de Pesquisa Climática

D.R.

O geofísico Pedro Matos Soares lembra que “só 1% dos cientistas a nível mundial têm dúvidas de que as alterações climáticas têm origem na atividade humana”. Em entrevista ao Expresso, o investigador diz que o problema da conferência dos negacionistas que começa esta sexta-feira no Porto “não é discutir se a Terra é plana, mas sim fazê-lo sem qualquer base científica”

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Em vésperas da Marcha Mundial do Clima, que tem como lema em Portugal “Parar o petróleo! Pelo clima, justiça e emprego!”, mais de 60 cientistas nacionais enviaram uma carta aberta ao reitor da Universidade do Porto. Na missiva, apelam a António Sousa Pereira, para que a universidade que dirige “escrutine os eventos que organiza e promova o conhecimento baseado em ciência”.

Em causa está uma conferência organizada por um grupo de negacionistas das alterações climáticas auto-denominado “Independent Committee on Geoethics”, que terá lugar a 7 e 8 de setembro na Faculdade de Letras daquela Universidade. Do encontro, que tem como título “Basic science of a changing climate: how processes in the sun, atmosphere and ocean affect weather and climate”, foram excluídos os cientistas nacionais e internacionais que chamam a atenção para a necessidade de uma transição justa e rápida para uma economia descarbonizada e sustentável que vá ao encontro dos compromissos assumidos no Acordo de Paris.

Entre os cientistas que assinam esta carta aberta está Pedro Matos Soares, geofísico do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que tem investigado os cenários que nos esperam no final do século e apontam para ondas de calor cada vez mais duradouras e frequentes e para o desaparecimento, como hoje as conhecemos,da Primavera e do Outono.

Foi com surpresa que soube desta conferência organizada no Porto por um grupo de negacionistas das alterações climáticas?
A surpresa não é total, uma vez que os grupos negacionistas existem e têm por trás a indústria petrolífera. O encontro marcado por este 'comité' no Porto segue um propósito político que tem na agenda negar a origem antropogénica das alterações climáticas. Contudo, este é um processo que não levanta dúvidas para a esmagadora maioria de cientistas que trabalham na área. Só 1% dos cientistas a nível mundial têm dúvidas de que as alterações climáticas têm origem na atividade humana. 99% não duvidam de que o homem é responsável pelo acumular de gases de efeito de estufa como o CO2 na atmosfera.

Esta conferência de negacionistas surge em paralelo à marcha mundial pelo clima, mas tem objetivos opostos. Acha que foi propositado e que a indústria petrolífera está por trás deste evento?
O timing é no mínimo uma coincidência triste. Este tipo de eventos visa promover a contaminação da opinião pública. E precisamos de uma sociedade civil esclarecida e bem informada para fazer frente a um problema premente como é o das alterações climáticas. E quando uma universidade apadrinha um evento destes está a dar-lhe uma chancela de certificação científica que não tem.

O reitor da Universidade do Porto procurou distanciar-se da organização deste evento...
O reitor fez uma declaração a defender que as posições assumidas pelos oradores da conferência não são um reflexo da visão da Universidade e que esta deve ser um espaço de debate e discussão por excelência, onde há partilha de diferentes ideias. Eu não sou contra a ideia de as pessoas discutirem se a Terra é plana. O problema desta conferência é ter pessoas a defenderem ideias como se tivessem suporte científico para elas, sem o terem de facto.

Os oradores não têm credibilidade?
É preciso perceber quais os créditos científicos que têm na área das alterações climáticas. E observando o currículo da geógrafa Maria Assunção Araújo, que organiza a conferência, e de outros dos participantes vemos que não têm publicações sobre o tema em revistas de referência internacionais. Por outro lado, a prof. Araújo disse que há 'censura' contra quem não subscreve a explicação científica das alterações climáticas com base no CO2, mas assumiu que quem o defende não será bem vindo ao debate do Porto. Isto é assumir a falta de pluralidade. Não conheço nenhum cientista de referência nesta área que vá a esta conferência. Os argumento das pessoas que promovem este evento são risíveis. Não vão discutir ciência, vão discutir profissões de fé.

Quais os riscos para jovens alunos que forem assistir a essas “profissões de fé”?
Infelizmente os riscos são elevados, porque muitos não estudam estes temas e vivemos numa sociedade em que o bem estar se deve em grande medida aos combustíveis fósseis. Se não forem bem informados com dados científicos sérios podem muito facilmente ser mal influenciados. A discussão sobre a origem humana das alterações climáticas não é de hoje. Começou no século XIX e hoje 99% dos cientistas não têm dúvidas de que estamos num processo de aquecimento global inequívoco e com impactos gravosos para a nossa sociedade.

Rui Duarte Silva

Leia na íntegra a carta enviada pelos cientistas:

Carta Aberta ao Reitor da Universidade do Porto

Universidade do Porto deve escrutinar os eventos que organiza e promover o conhecimento baseado em Ciência

Tal como anunciado no site da Universidade do Porto e noticiado na imprensa, decorrerá nos próximos dias 7 e 8 de Setembro na Faculdade de Letras dessa Universidade uma conferência intitulada “Basic science of a changing climate: how processes in the sun, atmosphere and ocean affect weather and climate”. A coberto deste interessante título que sugere um campo científico reconhecido, esta conferência é afinal organizada por um conhecido lobby negacionista das alterações climáticas, o auto-denominado “Independent Committee on Geoethics”, e reunirá no Porto negacionistas de vários países, sendo presidida por Maria Assunção Araújo, professora daquela faculdade. Nas suas próprias palavras para a imprensa Maria Assunção Araújo é explícita: “Não me interessa ter cá alguém a dizer que a causa das alterações climáticas é o CO2”.

A expressão ‘alterações climáticas’ recobre actualmente sentidos distintos. Não ignorando que à grande escala temporal ela tem significados próprios, não é possível hoje negar o consenso generalizado dentro da comunidade científica de que as actuais alterações climáticas a que estamos a assistir, são causadas pelas acções com origem humana. É um consenso científico que atravessa várias áreas de conhecimento, e abarca cientistas de todos os continentes. Existe um aquecimento inequívoco do planeta, não apenas simulado ou previsto, mas medido. A emissão de gases com efeito de estufa de origem na acção humana, o mais relevante dos quais o dióxido de carbono, é a principal razão para este aquecimento e provém maioritariamente do uso de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural), mas também de outras fontes como a desflorestação e a agropecuária. Esta asserção ficou bem patente no último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas)[1]. O aquecimento do planeta está a modificar todos os tipos de climas, com efeitos variados e gravosos em todos os ecossistemas do planeta e impactos em praticamente todas as organizações humanas como as conhecemos hoje. A este conjunto de alterações convencionou-se chamar alterações climáticas. Organizações internacionais como o IPCC, que integra 195 países como membros e conta com a colaboração de milhares de cientistas em todo o mundo, têm alertado para a urgência da adopção de medidas no combate ao aquecimento global, sendo de extrema importância a sensibilização e mobilização de todos os setores da sociedade.

Os signatários da presente carta aberta, cientistas e trabalhadores em Ciência, vêm expressar o seu protesto pelo facto de a Universidade do Porto, a que V.Exa. preside, promover uma conferência que vem favorecer a desinformação, credibilizando ideias políticas que visam travar as acções para se conseguir obter a estabilização climática do planeta durante este século. Estas ideias cientificamente infundadas - a que se dá o nome de negacionismo -, em vez de esclarecerem e sensibilizarem para as alterações climáticas, não pretendem mais do que criar dúvidas sem qualquer fundamento ou método científico. Não somos alheios às tácticas frequentemente utilizadas por este tipo de organizações negacionistas, que utilizam o espaço da democracia para tentar polarizar a sociedade e ganhar espaço mediático, criando uma polémica artificial e errada, invocando censura e vitimizando-se no processo. Também não estranhamos a realização deste evento coincidindo com a data da Marcha Mundial do Clima, a realizar no próximo dia 8 de setembro, em que manifestações sairão às ruas por todo o mundo, e em Portugal também, para exigir ações concretas para travar a espiral de descontrolo que têm sido as últimas décadas em termos de eventos climáticos extremos e aquecimento do Planeta.

Sendo uma universidade pública e uma das maiores produtoras de Ciência em Portugal, à Universidade do Porto impõe-se o escrutínio dos eventos que acolhe. Esta instituição, pela responsabilidade que tem em divulgar o conhecimento informado, não deve emprestar o nome e dar credibilidade à negação da Ciência e do Conhecimento, mas antes promover o conhecimento científico sobre as alterações climáticas, seguindo as boas práticas científicas internacionais.

Os subscritores

Adélio Mendes, Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto

Alda de Sousa, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Universidade do Porto

Alexandra Monteiro, Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, Universidade de Aveiro

Alexandre Quintanilha, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto

Ana Monteiro, Faculdade de Letras, Universidade do Porto

Ana Pinheiro, CIBIO, Universidade do Porto

Anabela Carvalho, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho

António Piedade, comunicador de ciência

António Gomes da Costa, Associação Portuguesa de Comunicação de Ciência (SciComPT)

Bruno Pinto, Centro de Ciências do Mar e Ambiente, Universidade de Lisboa

Carla Amado Gomes, Faculdade de Direito, Universidade de Lisboa

Carlos Borrego, Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, Universidade de Aveiro

Carlos Fiolhais, Departamento de Física, Universidade de Coimbra

Carlos Sousa Reis, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

Catarina Pereira, Comunidade Céptica Portuguesa (COMCEPT)

David Marçal, Agência Ciência Viva

Diana Barbosa, COMCEPT

Eduardo Ferreira, Universidade de Aveiro

Fernando Lima, CIBIO, Universidade do Porto

Filipe Duarte Santos, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

Francisco Ferreira, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa

Gil Penha-Lopes, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

Helena Freitas, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra

Helena Martins, Swedish Meteorological and Hydrological Institute

Inês Farias, Instituto Português do Mar e da Atmosfera

Isabel Ribeiro, Instituto de Ciências e Tecnologias Ambientais, Universidade Autónoma de Barcelona

Ivone Fachada, SciComPT

Joana Lobo Antunes, SciComPT

Joana Lourenço, Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, Universidade de Aveiro

João Camargo, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa

João Ferrão, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa

João Monteiro, Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, Universidade de Lisboa e Universidade Técnica de Lisboa

João Peças Lopes, Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto

Joaquim Sande Silva, Escola Superior Agrária de Coimbra, Instituto Politécnico de Coimbra

Jorge Paiva, Centro de Ecologia Funcional do Departamento de Botânica, Universidade de Coimbra

José da Silva, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

José Manuel Mendonça, Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto

José Pissarra, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

José Saldanha Matos, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa

José Vítor Malheiros, SciComPT e consultor

Júlia Seixas, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa

Leonor Abrantes, COMCEPT

Luís Carvalho Pereira, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

Luís Ribeiro, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa

Luísa Schmidt, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa

Manuel Carlos Silva, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Universidade do Minho

Manuel Sobrinho-Simões, IPATIMUP

Margarida Robaina, Departamento de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo, Universidade de Aveiro

Maria Eduarda Gonçalves, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa

Maria Isabel Amorim, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

Maria João Santos, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

Marta Daniela Santos, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

Nuno Fragoso Lopes, COMCEPT

Nuno Ferrand de Almeida, CIBIO, Universidade do Porto

Paula Tamagnini, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

Paulo Talhadas Santos, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

Pedro Bingre do Amaral, Escola Superior Agrária de Coimbra, Instituto Politécnico de Coimbra

Pedro Esteves, CIBIO, Universidade do Porto

Pedro Macedo, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

Pedro Matos Soares, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

Pedro Nunes, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

Pedro Prista, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa

Pedro Russo, Department of Science Communication and Society, Universidade de Leiden

Rodrigo Proença de Oliveira, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa

Rui Cortes, Centro de Investigação e Tecnologias Agroambientais e Biológicas, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Sílvia Castro, SciComPT

Susana Freitas, Departamento de Ecologia e Evolução, Universidade de Lausanne

Susana Pereira, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

Teresa Lago, Departamento de Física e Astronomia, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

Victor Vasconcelos, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto